• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Brás Cubas


[Ao lado do palco, uma banda de Pop Rock toca a música de abertura do programa. A plateia no auditório acompanha o ritmo da canção batendo palmas. A maioria do público está sorrindo. A cena é registrada pela câmera 1 da emissora de TV, que faz uma tomada panorâmica. A partir de um gesto do apresentador, que está sentado atrás de uma mesa de madeira no centro do palco, todos os sons no estúdio cessam. O silêncio dura um segundo. Ouve-se, então, a voz rouca do âncora da atração. A nova cena é registrada em close pela câmera 2].

Darico Nobar: Olá, amigos e amigas do Talk Show Literário. Sejam muito bem-vindos à estreia deste programa. Eu sou Darico Nobar e vou conversar semanalmente com uma personagem clássica da literatura. Nossos convidados irão se sentar no sofá aqui ao meu lado e falarão sobre suas vidas, suas crenças, seus temores, suas famílias. Cada episódio será dedicado a um entrevistado diferente. Nesta primeira temporada, o talk show se restringirá à ficção nacional. E para começarmos com o pé direito, gostaria de chamar ao palco um dos mais célebres protagonistas dos romances brasileiros: Brás Cubas! [Os aplausos da plateia ecoam pelo auditório quando o convidado aparece]. Obrigado pela sua presença, Brás. É uma honra recebê-lo. [Apresentador e entrevistado se cumprimentam com um forte aperto de mãos].

Brás Cubas: Boa noite, Darico. Sei a honra que estou proporcionando a vocês. Gostaria de começar minha participação efetuando uma pequena correção em seu discurso de abertura. Desculpe-me pela indelicadeza, mas você me anunciou como sendo uma das mais célebres personagens da nossa literatura, não foi? Acho que não precisamos ser tão comedidos a esse respeito, principalmente no momento das apresentações. Vamos ser francos com o público que nos assiste em casa e aqui no auditório. Os mais conceituados críticos literários são mais taxativos em relação a esse tema, me colocando na posição mais alta do ranking.

Darico Nobar: Você está dizendo que é a principal criação da literatura brasileira?!

Brás Cubas: Não sou eu quem diz isso. Longe de mim fazer qualquer inferência em uma questão tão técnica. Só estou reproduzindo a conclusão a que grande parte dos estudiosos chegou. Além disso, por que vocês me chamariam para ser o primeiro entrevistado deste programinha se eu não fosse o número um, hein?

Darico Nobar: Você fala sem medo de parecer imodesto.

Brás Cubas: A modéstia é a muleta dos fracos. Quem é grande precisa se acostumar logo com a altura elevada de sua posição e com sua natural superioridade.

Darico Nobar: Há críticos e acadêmicos que apontam outras personagens como as mais emblemáticas da nossa cultura. Por exemplo, há quem considere Bento Santiago como...

Brás Cubas: Darico, você não está me comparando ao Bentinho, está?!

Darico Nobar: Oh, Brás, desculpe-me. Esqueci que você e ele não têm uma boa relação. Minha intenção era apenas apresentar o ponto de vista de outros...

Brás Cubas: Vou ser honesto com você e com sua plateia a este respeito: não conheço pessoalmente o Sr. Santiago. Encontrei-o rapidamente em alguns eventos literários sobre o Machado, mas não trocamos mais do que meia dúzia de palavras nesses anos todos. Só o conheço pelo que ele escreveu em sua autobiografia e pelo que falam sobre sua antiga esposa. Por isso, não se pode dizer que não temos uma boa relação. Apenas não temos um contato mais próximo nem somos amigos.

Darico Nobar: É verdade o que tem saído em algumas revistas literárias que você teria ciúmes ou inveja dele?

Brás Cubas: Como posso sentir inveja ou ciúmes de um galheiro?! Para mim, não há dúvidas de que Capitu o traiu. Onde já se viu um marido manso de esposa generosa ser uma personagem literária maior do que a minha ilustre figura?! Só alguém desprovido de inteligência ou de sensibilidade artística poderia afirmar algo assim.

Darico Nobar: Você chegou a ter um caso amoroso com Maria Capitolina após as publicações de Memórias Póstumas e de Dom Casmurro?

Brás Cubas: Essa pergunta você tem que fazer ao Escobar, não a mim. É ele o principal suspeito de ter frequentado a cama da residência dos Santiago. O que posso dizer é que Capitu é uma formosura de mulher e que atrai a atenção de qualquer homem. Aqueles olhos dela mexem com a imaginação masculina. Eu a vi em várias oportunidades lá no bairro do Engenho Novo, onde ela morava e onde eu e a Virgínia tínhamos uma casinha. Admito que se a esposa do Bentinho me desse alguma intimidade, montava na hora outro lar para a Dona Plácida administrar.

Darico Nobar: Aproveitando que você citou a casa no Engenho Novo, gostaria de saber se Virgínia foi mesmo o grande amor da sua vida.

Brás Cubas: Não sei se posso afirmar isso. Várias mulheres foram importantes na minha vida, cada uma em seu momento. Acho que a relação com a Virgínia tenha sido a mais duradoura. Fiquei um pouco constrangido, admito, por ela ter se comportado de forma tão passional no enterro do Lobo Neves. Às vezes, penso que ela estava apenas interpretando o papel de esposa honrada. Virgínia sempre foi uma boa atriz. Por isso, creio que fui sim o grande amor da vida dela.

Darico Nobar: Você sente alguma mágoa da Marcela?

Brás Cubas: De maneira nenhuma! Ela foi uma companhia adorável. Adorável e cara! Aproveitei o quanto o dinheiro do meu pai permitiu. Não me arrependo de nenhuma parte da nossa história. Nada como o primeiro amor para ensinar muitas coisas que um homem precisa saber sobre a vida e sobre as mulheres.

Darico Nobar: Você se arrepende por nunca ter se casado?

Brás Cubas: A melhor coisa que aconteceu na minha vida foi não ter contraído o matrimônio. Disso eu tenho orgulho!

Darico Nobar: Por quê?

Brás Cubas: Casamento é doença, uma praga que corrói relacionamentos. Eu e Virgínia só tivemos um belo caso de amor por anos porque não éramos casados. Se eu fosse o marido dela como meu pai queria, o amante dela seria o Lobo Neves. Aí, eu ficaria com a pior parte na divisão de tarefas. Além do mais, nenhuma mulher gosta realmente de seu marido. Basta subir no altar para ele se transformar no pior homem do mundo. Em relação à Marcela, tive sorte. Aproveitei para usufruir dela enquanto a beleza e a juventude ainda estavam presentes em seu corpo. Seria uma lástima tê-la ao meu lado na velhice e na doença.

Darico Nobar: Isso é o que eu posso chamar de um homem vivo! [Plateia ri timidamente]. Afinal, Brás, por que você resolveu escrever um livro de memórias?

Brás Cubas: A princípio, eu não queria escrevê-lo. Dá muito trabalho produzir um romance e eu não sou homem de perder tempo trabalhando. Como um prestigiado burguês do final do século XIX, tenho uma reputação a zelar. O problema foi que muita gente no Rio de Janeiro começou a falar que eu era um vadio e que não havia construído nada de significativo em minha vida. Se ao menos eu tivesse tido tempo para provar a eficácia do Emplastro Brás Cubas... Contudo, não tive essa oportunidade. Assim, para mostrar meu verdadeiro valor para essa sociedade mesquinha e intrigueira, aproveitei que tinha muito tempo livre lá no Purgatório, esperando a decisão do Tribunal Celestial, e escrevi minhas memórias.

Darico Nobar: Sei que parece fofoca falarmos disto agora, mas é verdade que o Tribunal Celestial o condenou, em segunda instância, à vilania dos romances realistas? Há quem diga que você só saiu do Inferno depois de pagar propina aos juízes das instâncias superiores.

Brás Cubas: Não falo desse assunto! Como você mesmo disse, trata-se apenas de boataria que o povo gosta de contar, algo que um homem do meu status deve sempre evitar. O importante é que sou um protagonista e não um mero coadjuvante literário. Se sou vilão, herói ou anti-herói, não importa. O relevante é que sou o astro de um dos maiores romances da história da humanidade. Assim, mereço mais respeito de todos. Se eu tivesse sido enviado ao Inferno, como me acusam, não estaria conversando agora com você, Darico. Acho que isso explica tudo. Além do mais, se eu tivesse comprado minha entrada no Paraíso teria sido mais um ótimo investimento feito com minha fortuna. Dinheiro é para ser gasto, não é? E as coisas boas da vida e da morte são para serem compradas. Não vejo problema nenhum nisso.

Darico Nobar: Por falar em tipos de personagem, como está sua relação com o Quincas Borba? Você se sente traído por ele ter se tornado também um protagonista após ter sido um coadjuvante em seu livro?

Brás Cubas: Mantenho a amizade com o Quincas até hoje. Nunca senti ciúmes dele. Fiquei até feliz por ele ter se tornado personagem principal de um livro só seu, apesar de eu ter sido muito mais generoso com ele em minha obra do que ele foi comigo na dele. Repare que cedi muito mais linhas à personagem dele em Memórias Póstumas de Brás Cubas do que ele à minha no Quincas Borba. O que me deixa tranquilo é que seu protagonismo foi inferior ao meu. Estou sempre brincando com ele: "Quincas, você foi melhor como meu coadjuvante do que exercendo o papel de protagonista do Machado". Ele, com aquele jeito humilde e risonho, concorda comigo. Somos bons amigos há muitos anos e temos a liberdade para falar a verdade um para o outro sem qualquer receio.

Darico Nobar: Vou ler o último trecho do seu romance: "Ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". Você não acha este um desfecho muito pessimista para sua obra?

Brás Cubas: Há quem considere esse final brilhante, não se importando nem um pouco com o viés negativo da mensagem. Acho que fui sincero no meu arremate. Essa minha característica é o ponto alto de minhas memórias. Fui honesto em todos os momentos da narrativa. Acho que é isso o que assusta alguns leitores mais conservadores. Ninguém fala que outros livros do Machado terminaram de forma sombria. O que dizer do desfecho de A Mão e a Luva ou de Dom Casmurro, por exemplo? Eles também são pouco otimistas e, o que é pior, são muito imprecisos em suas conclusões. Por ser uma obra de maior relevância, Memórias Póstumas de Brás Cubas é alvo de um número maior de questionamentos e críticas. Esse é o preço que pago e que terei de pagar sempre pela minha grandiosidade literária.

Darico Nobar: Nossa entrevista se encerra por aqui, Brás. Muito obrigado pela sua presença em nosso programa. Foi um prazer conversar com você.

Brás Cubas: Sei disso. Boa noite. [Novos aplausos vêm da plateia].

Darico Nobar: Pessoal, obrigado pela companhia de vocês nesta noite [Fala olhando para a câmera 2]. No mês que vem o Talk Show Literário volta neste mesmo horário. Não percam nossa segunda entrevista. Até lá e boa semana a todos!

[Os músicos da banda voltam a trabalhar. A plateia acompanha mais uma vez a canção com palmas ritmadas. O entrevistado sai do palco sem olhar para os lados e sem se despedir de ninguém. Ele caminha com pressa em direção ao camarim. O apresentador fica mais um pouco em seu lugar até a transmissão ser interrompida. Uma nova atração entra na programação da emissora].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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