• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora - Item 2 - Não ter celular


"Passe o seu WhatsApp!". Entro em pânico toda vez que ouço essa frase. O pior é que ela tem se tornado cada vez mais frequente em meu dia a dia. É raro passar uma semana sem que meus ouvidos sejam contemplados com essa angustiante combinação de palavras. Nos piores dias, acaba escutando-a mais de uma vez. Afinal de contas, por que todo mundo quer o meu número? Por que todos querem falar comigo o tempo inteiro? E por que sou obrigado a ter este tal de WhatsApp?! Não entendo a reação de perplexidade das pessoas quando digo que não tenho. "Ok, então me passe o número do seu celular" é o que sempre ouço em seguida à minha negativa inicial.

Sinto que a sociedade me obriga a ter um maldito celular. Meus pais, meu chefe, minha namorada, o gerente do banco, o vizinho, a operadora de televisão a cabo, o corretor de imóveis, a tia chata, a moça que se senta ao meu lado no ônibus, a rapaziada do barzinho de sexta-feira à noite, os entrevistadores do novo emprego que tentei e a turma do futebol clamam para que eu use esta geringonça. TODO MUNDO parece viver exclusivamente ao redor do pequeno aparelhinho. Juro que não entendo onde essa gente está com a cabeça!

Quando digo que não tenho (nunca tive) um celular, a cara de espanto das pessoas se intensifica. É hilário acompanhar suas reações. Elas são as mais variadas e curiosas possíveis. "Onde já se viu não ter telefone celular?!" é o sentimento padrão daqueles que ouvem minha confidência.

Gostaria de deixar bem claro neste texto: não ter telefone celular não é uma falta grave de personalidade. Os desconectados também podem ser pessoas legais, felizes, carinhosas, ativas e produtivas. Apesar de seremos uma espécie quase em extinção, temos também nosso valor. Por favor, não nos julguem precipitadamente.

Item 2 da Lista de 12 Indícios que Envelheci Antes da Hora: Não ter celular.

"Como vou achá-lo?!" é o questionamento que me fazem com mais frequência quando explico (sim, é necessário explicar os motivos sempre!) que não faço uso de aparelho celular. Engraçada essa mania das pessoas de quererem localizar os outros a todo instante e em qualquer lugar. Nunca dei esta intimidade para a maioria.

"E se eu precisar falar com você em um sábado às duas horas da manhã?" me perguntou certa vez um cliente. Juro que olhei para ele e respondi com o máximo de educação possível para tal ocasião: "E quem disse que dou essa liberdade para você me telefonar de madrugada em um final de semana?! Você é meu cliente, mas eu não sou seu escravo para estar 24 horas disponível ao seu bel prazer". Ele riu sem graça e concordou comigo. Pelo menos disse concordar.

Uma moça com quem comecei a sair fez a mesma pergunta do cliente folgado. Para ela, obviamente, respondi de outra maneira: "Amor, se tudo der certo entre a gente, você não precisará de um celular para me chamar à noite. Bastará você virar para o outro lado da cama e me chamar. Estarei dormindo agarradinho a você". Ela sorriu, concordando com o meu ponto de vista (e minhas intenções). Contudo, depois de algumas semanas nosso relacionamento esfriou. Ninguém me tira da cabeça que a culpa foi da falta do aparelhinho para me rastrear sempre que ela, assim, desejasse. Um namorado ou uma namorada sem celular é um perigo em potencial para companheiros ciumentos...

Para quem não acredita que seja possível viver sem telefone celular hoje em dia, eu garanto: Não há nada melhor para a qualidade de vida do sujeito! Em minha opinião, celular não é coisa de Deus. E o WhatsApp é, definitivamente, uma invenção do Capeta! A pergunta correta não é "Como alguém consegue viver SEM estes aparelhos e aplicativos atualmente?" e sim "Como alguém consegue viver BEM tendo estes malditos aparelhos e aplicativos tocando o tempo inteiro?".

O dia em que eu ficar convencido de que ter um telefone celular é mais vantajoso do que não tê-lo prometo adquirir e usar um. Enquanto esse dia não chega, por favor, não me olhem torno. Como disse, não sou uma má pessoa por não ter WhatsApp nem usar celular. Juro!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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