• Ricardo Bonacorci

Filmes: Tarde de Mais para Esquecer - Romantismo histórico


"Tarde de Mais para Esquecer" (An Affair To Remember: 1957) é um dos mais cultuados filmes românticos do século XX. Em 2017, ele está completando sessenta anos de vida. Esta versão que emocionou gerações é uma refilmagem de uma produção mais antiga: "Duas Vidas" (Love Affair: 1939). O diretor dos dois longas-metragens foi o mesmo, Leo McCarey. McCarey também participou do roteiro do segundo filme.

Na versão de 1957, a mais famosa delas, os protagonistas eram os britânicos Cary Grant, de "Interlúdio" (Notorious: 1946), e Deborah Kerr, de "As Minas do Rei Salomão" (King Solomon's Mines: 1950) e "A um Passo da Eternidade" (From Here to Eternity: 1953). "Tarde de Mais para Esquecer" foi indicado a quatro categorias do Oscar: Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original (com "An Affair to Remember").

O interesse por esta produção foi reavivado na década de 1990 com o lançamento de "Sintonia de Amor" (Sleepless in Seattle: 1993), que fazia referências diretas ao filme de Leo McCarey, e com uma nova refilmagem desta história clássica. A terceira versão gravada foi intitulada de "Love Affair - Segredos do Coração" (Love Affair: 1994).

O enredo de "Tarde de Mais para Esquecer" começa em um navio. A embarcação sai da Europa e tem como destino os Estados Unidos. O passageiro mais famoso é o playboy Nickie Ferrante (interpretado por Cary Grant). Sua vida de rapaz mulherengo e bon vivant está com os dias contados. Quando chegar à Nova York, Nickie irá se casar com Lois Clark (Neva Patterson), uma das mulheres mais ricas da América. Outra passageira do navio é Terry McKay (Deborah Kerr), uma ex-cantora de casas noturnas. A moça também está com o casamento marcado. O noivo dela é Kenneth Bradley (Richard Denning), um rico empresário norte-americano.

Nas primeiras cenas do filme, Nickie Ferrante e Terry McKay se conhecem por acaso durante a travessia transatlântica. Impressionado com a beleza da moça, Nickie começa a corteja-la. Terry inibe as investidas do playboy afirmando que é uma mulher comprometida e com casamento agendado. Os dois, então, tornam-se amigos e passam a ficar cada vez mais tempo juntos. Assim, a dupla acaba se apaixonando de verdade. A partir deste instante, o novo casal passa a fugir dos olhares maldosos dos demais passageiros do navio, curiosos para conferir a nova conquista romântica do Senhor Ferrante.

Sabendo que Nickie é um homem impulsivo e um tanto mulherengo, Terry faz um acordo com ele quando ambos estão na iminência de desembarcar. Se em seis meses eles ainda estiveram apaixonados, os dois deverão ir até o último andar do Empire State (o prédio mais alto de Nova York naquele momento da História) em determinado dia e horário para se casarem. Enquanto esta data não chega, a dupla poderá desmanchar seus relacionamentos com seus parceiros. Além disso, Nickie poderá arranjar um emprego para se sustentar e para sustentar sua nova esposa. Afinal, ela é pobre e ele nunca trabalhou na vida.

A primeira metade do filme é um tanto previsível e boba. O romantismo exacerbado e cheio de regras (típico da metade do século XX) torna o enredo um tanto infantil para quem não é um romântico inveterado. Mesmo assim, é curioso reparar em algumas cenas. Por exemplo, o casal de protagonistas dá o primeiro beijo escondido da câmera. Naquela época, não caía bem um rapaz e uma moça com casamentos marcados (com outras pessoas) se beijarem aos olhos do público. Também é divertido notar a curiosidade que os outros passageiros demonstram pela vida do novo casal. Precisamos lembrar que não havia Facebook nem mídias sociais naquele tempo. A bisbilhotice era feita pessoalmente e ao vivo.

No momento em que Nickie e Terry fazem o acordo para se encontrarem no alto do Empire State em seis meses (esta parte marca exatamente a metade do filme), o longa-metragem ganha em dimensão e relevância. Acontecimentos surpreendentes começam a ocorrer em sequência, transformando aquela trama romântica e boba em uma epopeia trágica e com forte carga dramática. Aí o filme começa de fato. O expectador, até então maravilhado (ou entediado) com o amor idílico e platônico das personagens, é atirado violentamente para o pragmatismo da vida real. O roteiro é tão bem feito que os expectadores vão aos poucos compreendendo a complexidade da situação. Este recurso, além de intensificar a dramatização, também confere doses de suspense ao enredo.

"Tarde de Mais para Esquecer" realmente é um filme marcante. Sua produção é muito bem feita. A fotografia é deslumbrante, conseguindo captar a beleza e a luminosidade da Grécia (onde ocorrem algumas cenas), a imensidão e o dinamismo de Nova York (metade do filme acontece ali) e o romantismo e o glamour de uma viagem por um cruzeiro intercontinental (a primeira metade do longa-metragem se passa dentro do navio). A trilha sonora também ajuda a compor os climas distintos das duas fases do filme. Repare que a mudança na trama não se faz apenas pelos diferentes cenários (Europa/Oceano e Estados Unidos), mas também pela música.

A única coisa que não gostei foi do finalzinho. Na verdade, o desfecho é até muito interessante, com um diálogo memorável travado entre Nickie e Terry no apartamento dela. O que realmente me incomodou, foram os últimos segundos. Depois de quebrar a expectativa da plateia atirando para longe o romantismo meloso da primeira metade da produção, o roteiro retorna para este sentimentalismo nos momentos finais. Qual o problema de um final que não seja feliz?! Sinceramente, não vejo problema nisso. Até considero que a história se torne mais vibrante quando ela não se curva aos apelos da vontade da maioria do público. "... E o Vento Levou" (... Gone with the Wind: 1939) é uma ótima referência neste sentido. "La La Land - Cantando Estações" (La La Land: 2016), mais recentemente, também foi magnífica em desconstruir as expectativas dos telespectadores ao abusar do pragmatismo e da realidade nua e crua da vida real.

Apesar deste pequeno deslize no finalzinho do filme, "Tarde de Mais para Esquecer" é um ótimo longa-metragem para se apreciar. Seus sessenta anos devem ser comemorados com merecimento.

Veja o trailer de"Tarde de Mais para Esquecer":

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#LeoMcCarey

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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