• Ricardo Bonacorci

Livros: Agosto - O incrível romance histórico de Rubem Fonseca


A mais famosa obra da carreira de Rubem Fonseca, um dos principais escritores brasileiros da atualidade, é o romance histórico "Agosto" (Companhia das Letras). Natural de Juiz de Fora, Minas Gerais, Fonseca conquistou, em 2003, o Prêmio Camões, o mais relevante da Língua Portuguesa, pelo seu trabalho como romancista, contista, ensaísta e roteirista. Além deste reconhecimento internacional, o escritor mineiro ganhou três prêmios Jabuti, o mais importante no cenário nacional. Apesar de "Agosto" ser sua criação mais conhecida pelo público, outros dois romances do autor merecem destaques: "O Caso Morel" (Companhia das Letras), de 1973, e "O Selvagem da Ópera" (Companhia das Letras), de 1994.


A primeira edição de "Agosto" é datada de 1990. Nesta época, Rubem Fonseca já era um romancista de relevância nacional e um contista celebrado pela crítica, tendo conquistado inúmeros prêmios por seus trabalhos nestas duas searas. Contudo, o romance histórico potencializou sua fama e o tornou um best-seller no país. Esta história seria adaptada, em 1993, para a televisão, em uma minissérie produzida pela Rede Globo. Veiculada entre agosto e setembro, a produção televisiva teve 16 capítulos.

O enredo deste livro se passa durante o mês de agosto (daí o seu nome) do ano de 1954. Este período foi um dos mais tensos e conturbados da história do Brasil. A pressão política que o presidente Getúlio Vargas estava sofrendo dos militares, da imprensa, da oposição e de parte da sociedade acabou resultando em uma tragédia: o suicídio do comandante da nação. Este é o cenário que compõe toda a narrativa de Rubem Fonseca. Ao mesmo tempo em que apresenta fatos históricos deste período, o romancista insere uma trama ficcional envolvente e recheada de intrigas e de mistérios.


Paulo Machado Gomes Aguiar, um rico empresário, é assassinado em seu luxuoso apartamento no Rio de Janeiro. Para investigar o caso, é escalado um comissário de polícia chamado Alberto Mattos. Mattos é um tipo de policial excêntrico. Além de ser totalmente honesto, não aceitando propina dos bicheiros e do crime organizado, ele ainda se preocupa em respeitar a Constituição, não admitindo nenhum tipo de abuso de autoridade por parte dos colegas e exigindo que todos os cidadãos tenham suas garantias legais respeitadas. O investigador também se preocupa com as condições dos presos durante o cárcere. Agindo mais como um tira de país civilizado do que como um policial brasileiro, Alberto Mattos é odiado tanto pelos colegas de profissão quanto pelos criminosos e políticos.


À medida que começa a investigar a morte do empresário, o comissário Mattos vai aos poucos relacionando este caso com os acontecimentos que rondam o Palácio do Catete, sede do governo federal. Qual a relação do crime no apartamento de luxo com o atentado perpetrado contra o jornalista Carlos Lacerda na Rua Tonelero? Qual o envolvimento de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, com os negócios do falecido Paulo Machado Gomes Aguiar? A motivação do assassinato foi passional ou político?

O que torna este livro tão interessante é que enquanto acompanhamos a investigação ficcional de Alberto Mattos, conseguimos presenciar os momentos históricos daquele período como se estivéssemos ali presentes. Quem gosta de história, com certeza irá adorar este romance. A maioria dos personagens é real e muitas cenas aconteceram de verdade. Percebe-se que Rubem Fonseca fez uma minuciosa pesquisa histórica para escrever esta intrigante trama. Chega um momento em que o leitor não sabe onde começa a ficção e onde termina a realidade. Fantástico!


O ambiente do romance é pontuado por altas doses de violência, corrupção, erotismo e ironia. O estilo é parecido ao noir, com cenários escuros, tensos e claustrofóbicos. A narrativa é ágil, parecendo com um roteiro cinematográfico. A construção dos personagens também explora o que há de pior e de mais sombrio de cada um deles. Na maior parte do tempo, tem-se a sensação que o único personagem confiável é o Mattos. Todos os demais possuem sérios problemas de caráter.


Por causa da ambientação histórica, há dezenas de personagens reais. Há tanto nomes conhecidos pelo público (Carlos Lacerda, Luís Carlos Prestes, Eurico Gaspar Dutra, Tancredo Neves, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart) como nomes pouco lembrados, principalmente entre os ministros (Osvaldo Aranha, Gustavo Capanema e Érico Delamare) e entre os militares (João Pedro Salgado Filho e Henrique Aristides Guilhem). Quem não estiver muito ligado aos acontecimentos políticos da década de 1950 e não possuir algum conhecimento da história do país, provavelmente irá se perder no meio das longas descrições dos fatos históricos e do desfile interminável de um número extenso de pessoas. Aí a compreensão da trama e, principalmente, das relações entre as personagens ficará seriamente comprometida.


Há também uma grande variedade de personagens ficcionais do tipo "marginais": prostitutas, assassinos de aluguel, doentes mentais, amantes de luxo, policiais corruptos, bicheiros, políticos inescrupulosos e capangas. Ao invés de ficar marginalizado (como é comum acontecer nos romances policiais), este grupo adquire aqui um papel de destaque, influenciando diretamente no desenrolar da narrativa.


Outro aspecto que chama a atenção durante a leitura de "Agosto" é a série de denúncias feitas pelo autor. Corrupção epidêmica em todos os níveis do Estado, criminalidade avançando em todas as esferas sociais, falência do sistema prisional, alto índice de violência, autoritarismo policial e abuso de autoridade formam o cardápio de males que afetam o país na década de 1950 (qualquer semelhança com nossa situação atual não é mera coincidência). Trata-se de um retrato nu, cru e trágico do Brasil.


Outra questão importante é a da caracterização do protagonista do romance. Alberto Mattos não é o típico policial ou agente da lei que estamos acostumados a ver na literatura e no cinema. Estes personagens são normalmente destemidos e implacáveis com os bandidos. São também fortes, vigorosos e sempre escapam da morte que os espreita. Gostam, muitas vezes, de bebidas alcoólicas e possuem um estilo de vida caro e luxuoso. E eles estão o tempo inteiro transando com mulheres lindas e sensuais. James Bond, da série "007", e Jack Bauer, de "24 horas", encaixam-se perfeitamente neste estereótipo.


Mattos, por sua vez, é completamente diferente dos protagonistas destas aventuras. Ele quase nunca anda armado e provavelmente nunca disparou um tiro. Alberto é do tipo de policial que prefere soltar os presos da cadeia ao invés de prendê-los. Também vive se contorcendo de dor e está sempre a um passo de desmaiar ou de ser levado a um hospital por causa da úlcera estomacal. Sua vida não é nada glamourosa. Nem carro ele possui, vivendo em uma espelunca alugada. Sua bebida favorita é o leite. Neste sentido, o comissário Mattos é igual ao Chapolin Colorado, que chega a um bar e pede um copo de leite. O investigador já brochou na cama com uma mulher, desapontando a parceira. E para completar o quadro pavoroso, Alberto Mattos não consegue escapar das emboscadas preparadas pelos seus inimigos contra ele. É ou não é um policial incrível?!

"Agosto" é uma trama eletrizante. Gostei tanto do livro que fiquei com vontade de ler outras obras de Rubem Fonseca. Sem sombra de dúvida, ele é um dos grandes escritores contemporâneos que nosso país possui. Muito legal conhecer mais afundo sua principal obra.


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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