• Ricardo Bonacorci

Filmes: Moonlight, Sob a Luz do Luar - Destaque ao Oscar de 2017


Assisti neste sábado de Carnaval ao filme "Moonlight - Sob a Luz do Luar" (Moonlight: 2016). O novo longa-metragem do jovem diretor Barry Jenkins foi um dos destaques do último Globo de Ouro (vencendo na categoria Melhor Drama) e é uma das produções com mais indicações ao Oscar deste ano (concorrendo em oito categorias, entre elas a de Melhor Filme).

Curiosamente, este filme foi um dos últimos postulantes ao prêmio máximo de Hollywood a estrear nos cinemas brasileiros. Ele entrou em cartaz no circuito comercial do país apenas nesta quinta-feira, dia 23. Por isso, corri para a Caixa Belas Artes neste final de semana para conferi-lo. Queria vê-lo antes da cerimônia desta noite da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles. Minha intenção era saber se "La La Land - Cantando Estações" (La La Land: 2016) teria realmente um forte concorrente às principais estatuetas da noite ou se as críticas extremamente favoráveis ao trabalho de Barry Jenkins, que havia lido nas últimas semanas, eram excessivas.

"Moonlight" é o segundo filme da carreira de Jenkins. Ele estreou na direção, em 2008, com "Medicine for Melancholy", trabalho que lhe rendeu indicações aos prêmios Gotham Awards daquele ano e Independent Spirit Awards do ano seguinte, mas que acabou sendo pouco visto pelo público nos cinemas. Neste seu segundo longa-metragem, o diretor traz novamente como tema principal da sua obra os desafios dos negros nos Estados Unidos. Ao invés de abordar o relacionamento de um casal (como fez em "Medicine for Melancholy"), seu olhar agora paira sobre um homem duplamente afetado pelo preconceito: além de negro, ele é homossexual. Jenkins não apenas dirige como também foi o responsável por fazer o roteiro de "Moonlight". Ele se baseou em uma peça teatral para construir sua história cinematográfica.

Este filme teve um orçamento baixíssimo para os padrões de um concorrente ao Oscar. Barry Jenkins teve ajuda de Brad Pitt para levantar os recursos necessários para viabilizar sua produção e para distribuí-lo depois às salas de cinema norte-americanas. As restrições orçamentárias, porém, não ficam evidentes para quem assisti ao longa-metragem. A equipe responsável por "Moonlight" fez um trabalho incrível para priorizar o que era necessário e para encontrar soluções criativas para as demais necessidades operacionais e técnicas. Durante as filmagens, por exemplo, todo o elenco teve a sua disposição apenas um único espaço para a troca de figurino, para a preparação da maquiagem e do cabelo e para o descanso da equipe. Algo, portanto, atípico para os padrões luxuosos de Hollywood.

Esta trama gira em torno da vida de Chiron (interpretado em momentos distintos por Alex R. Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes), um rapaz negro nascido em um subúrbio pobre de Miami. O filme é dividido em três partes chamadas de "Pequeno", "Chiron" e "Preto". Cada uma destas seções retrata uma fase da vida do protagonista. Pequeno era o apelido dele na infância, Chiron era como a personagem principal era chamada na adolescência e Preto, por fim, tornou-se seu codinome na fase adulta.

Na infância, Chiron sofria com o bullying dos colegas e com o desprezo de Paula, sua mãe viciada em drogas (Naomie Harris em excelente atuação). Por isso, ele encontrou algum amparo e certo carinho em um casal de vizinhos. Juan (Mahershala Ali) e Teresa (a bela Janelle Monáe, que atuou recentemente em "Estrelas Além do Tempo") adotam informalmente o garoto. Na adolescência, surge a questão da crise de identidade e das descobertas sexuais. A primeira experiência sexual do rapaz é com um amigo de escola, o que desperta seus desejos homossexuais até então adormecidos. Na fase adulta, temos um homem aparentemente mais seguro de si e mais forte, mas que continua sofrendo dos mesmos medos e traumas do passado.

"Moonlight - Sob a Luz do Luar" possui um enredo dramático, uma temática polêmica, cenas pesadas e intensa análise psicológica do personagem principal. O que confere charme a esta produção é que tudo isso vem embalado com um olhar poético sobre a realidade de injustiças, dificuldades e superação de um rapaz negro.

Acompanhar o crescimento e o amadurecimento do protagonista permite-nos compreender o sucessivo jogo de causa e efeito que sua vida sofre. Cada episódio ocorrido com Chiron traz reflexos mais à frente. O bullying na escola e a falta de carinho materno, por exemplo, transformam o rapaz em uma pessoa introspectiva, solitária, receosa e monossilábica. A traição do grande amigo na adolescência faz com que Chiron se feche ainda mais em uma bolha imune à dor e ao contato externo, além de distanciá-lo das amizades e do amor.

Não é possível falar "Moonlight" sem tratar dos vários preconceitos sociais. Aqui, o peso da homofobia é maior do que o do racismo. Até mesmo dentro de uma comunidade formada por uma minoria excluída da sociedade norte-americana, como um bairro negro de Miami, ainda sim há focos de intolerância e de preconceito interno. Chiron sofre dentro da sua comunidade por ser afeminado/homossexual. Sua "família natural" é alvo da ira coletiva porque sua mãe é uma prostituta e dependente química. O "pai adotivo" é visto com alguma reticência por ser traficante. Em um mundo de excluídos, há sempre alguns mais excluídos do que outros. Para suportar a segregação dos segregados, a lei do mais forte impera o tempo todo.

A trilha sonora do filme é muito boa e bastante eclética. Ela vai do clássico ao hip hop sem causar estranheza ou qualquer desconforto na plateia. Destaque para "One Step Ahead" de Aretha Franklin e para “Every Nigger is a Star” que abre o filme. Repare também na surpreendente participação de Caetano Veloso cantando em espanhol.

Outros elementos interessantes desta produção são os jogos de câmeras e os enquadramentos diferenciados das cenas. Temos aqui uma câmera agitada e em constante movimento. Este recurso ajuda muito a mostrar a inquietude do protagonista e o turbilhão emocional que é sua vida, além de ajudar a potencializar seu vazio existencial, sua solidão e sua raiva. O enquadramento inusitado e a interrupção da cena em pontos estratégicos do cenário também reforçam a dramaticidade das situações. Trata-se sem dúvida nenhuma de um excelente trabalho que confere uma ótima fotografia ao filme.

Depois dos protestos do ano passado contra a falta de profissionais negros na premiação do Oscar, é salutar o esforço da Academia de Los Angeles para a inclusão de vários representantes afro-americanos na cerimônia deste ano. Barry Jenkins é o quarto negro na história a ser indicado à Melhor Diretor. O espetacular "Estrelas Além do Tempo" (Hidden Figures: 2016) também carrega o apoio desta parcela da população norte-americana. Apesar de estes trabalhos serem muito acima da média, eles ainda sim são os azarões aos principais prêmios desta noite. Continuo achando "La La Land - Cantando Estações" um filme muito superior, mas gostei de ver o maior espaço dado às produções, aos diretores, às atrizes e aos atores negros. Eles mereciam este reconhecimento.

Veja o trailer de "Moonlight - Sob a Luz do Luar":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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