• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora - Item 3 - Ouvir rádio e CD


Ouvir música é um entretenimento universal e atemporal. As pessoas, ao longo de todas as épocas e em todas as culturas humanas, sempre se divertiram ao som de melodias. Os homens das cavernas, por exemplo, dançavam e cantavam à espera da chuva ou para agradecer aos deuses. Há oito séculos, os gregos já apresentavam espetáculos artísticos elaborados nos quais a musicalidade era o eixo central. Na Idade Média, um dos principais programas das cortes europeias era a sessão musical no salão nobre do castelo junto à família real. Na minha juventude lá na década de 1980, o passatempo favorito da moçada era assistir aos videoclipes na MTV. Hoje em dia, os jovens ouvem suas músicas favoritas em plataformas de streaming, pelo Youtube, em aparelhos de MPs (MP3, MP4, MP5, MP6, MP7, MP8, MP9, MP10...), pelos celulares e em aplicativos que nem faço ideia de como chamam ou funcionam.

São inegáveis as vantagens dos novos meios de comunicação quando o assunto é música. Os aplicativos e aparelhos mais recentes trazem mais mobilidade, variedade e praticidade para os amantes da música. Muitas dessas novas opções são, inclusive, mais baratas do que aquelas disponíveis nas gerações anteriores. Jovens artistas contemporâneos também têm a possibilidade de apresentar seus trabalhos sem passar pelo crivo das grandes empresas que monopolizavam até outro dia a distribuição das canções. Músicos e fãs agora interagem diretamente um com os outros.

Dito tudo isso, parece impossível alguém não gostar do caminho traçado nos últimos anos pela indústria fonográfica. Contudo, admito (um pouco envergonhado, é verdade) que nada disso me atrai. Eu continuo ouvindo minhas músicas nos bons e velhos aparelhos de rádio. E adoro apreciar os meus álbuns favoritos no tradicional CD player. Ainda não vejo problema nenhum em utilizar essas tecnologias do século passado, ao menos quando estou sozinho. O único problema é ter tal comportamento em público. Aí, acabo sempre virando alvo fácil do bullying das pessoas mais modernas e menos saudosistas.

Item 3 da Lista de 12 Indícios que Envelheci Antes da Hora: Ouvir rádio e CD.

Sei que não é bonito escancarar minha desatualização tecnológica, mas eu ainda gosto de ouvir música nas estações de rádio. Faço isso principalmente quando estou em casa. Por mais que esse seja um hábito em desuso, ainda prefiro que escolham para mim as canções do que ter de selecionar a minha própria playlist. Também não fico preso a uma única emissora da FM. Ouço várias, sem medo do desconhecido. Dessa maneira, acabo sabendo o que está rolando de novo e de diferente em vários gêneros musicais. Sempre encarei as pessoas que SÓ (reparem na palavra SÓ colocada nessa frase) ouvem suas próprias listas como indivíduos mimados, egocêntricos, preconceituosos e pouco versáteis musicalmente. Provavelmente estou errado em meu julgamento, mas é a forma como os vejo (desculpem-me pelo meu preconceito infantil).

Quando quero ouvir algo específico (sim, porque às vezes também tenho essa vontade), vou até minha coleção de CDs e coloco o álbum desejado para tocar no CD player. É muito bom, em alguns momentos, aprofundar o ouvido em algo específico. E não vejo motivos para substituir algo que esteja funcionando tão bem por uma opção mais moderna. Por mais interessantes que sejam os novos aparelhos, o CD e o CD player conseguem me atender perfeitamente.

"Então, por que você não ouve música pela Internet?", costumam me interrogar amigos, familiares e a namorada. Simplesmente por falta de hábito, respondo. A rádio e a minha coleção de CDs suprem minhas necessidades de música. Além disso, é muito legal ouvi-las. O único problema é que não posso fazer isso na frente de ninguém. Quase sempre sou alvo de bullying quando me veem ouvindo rádio e, principalmente, CD.

Sabendo disso, prefiro não comentar com ninguém nem mostrar esses meus hábitos antiquados. Nos últimos anos, ouço radio e CD sozinho, bem escondido de todos. É tanta vergonha que sinto que jamais falei para alguém que (prepara-se: lá vai uma bomba) ainda ouço as estações de rádio da AM. De manhãzinha, ligo na AM para ouvir as notícias do dia, enquanto tomo o café da manhã. Também guardo em meu quarto (cuidado: lá vem outra bomba ainda mais forte) algumas fitas K7 (se não souber o que é isso, pesquise no Google ou visite algum museu). Tenho várias delas. As minhas favoritas são as do Raul Seixas, gravadas por um tio há mais de trinta anos. Entretanto, não tenho coragem de ouvi-las. Não vá pensar que ainda ouço K7, por favor. Não ache que sou um dinossauro. Se admitisse isso, na certa ninguém mais continuaria lendo a série "Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora". Há coisas que fogem dos limites aceitáveis da sociedade moderna. Mesmo que sejamos obrigados a mentir um pouco, não podemos reconhecer nossos comportamentos mais retrógrados.

É melhor terminar logo esta crônica. Daqui a pouco vão pensar que ainda ouço disco em vitrola. Já imaginou ter vários discos de vinil em casa?! Inacreditável como pode existir pessoas tão obsoletas ainda hoje...

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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