• Ricardo Bonacorci

Filmes: Fragmentado - Suspense das múltiplas personalidades


"Fragmentado" (Split: 2017) é o novo filme do diretor Manoj Night Shyamalan. Orçada em US$ 100 milhões, esta produção estreou ontem nos cinemas brasileiros e promete agradar em cheio aos fãs do diretor. Shyamalan é especialista em construir tramas de terror e suspense. Além do clássico "O Sexto Sentido" (The Sixth Sense: 1999), o indiano naturalizado norte-americano também esteve à frente dos ótimos "Corpo Fechado" (Unbreakable: 2000), "Sinais" (Signs: 2002) e "A Vila" (The Village: 2004).

Conhecendo o excelente histórico de Shyamalan, fui à sessão de cinema desta quinta-feira com a expectativa lá nas alturas. O trailer que havia visto há algumas semanas acabou intensificando ainda mais a minha suposição de que se tratava de um bom filme. Minha conclusão ao sair do cinema ontem é que "Fragmentado" é realmente uma ótima opção em cartaz. É verdade que ele pode estar em um patamar bem abaixo de "O Sexto Sentido" e não conseguir se igualar a "Sinais" e "A Vila", mas é um belo longa-metragem de suspense. Não concordo com os críticos que acham que Shyamalan não traz mais tantas novidades como na virada dos anos 1990/2000 e que tenha se tornado um diretor previsível. "A Visita" (The Visit: 2015) e, principalmente, "Fragmentado" mostram o quanto o indo-americano ainda é talentoso na arte de assustar e intrigar a plateia com tramas inovadoras e desconcertantes.

Em "Fragmentado", o expectador fica com a atenção presa à tela ao longo das duas horas de produção, sofrendo com as personagens e tentando descobrir o que se passa na cabeça do desequilibrado protagonista. Se a princípio o longa-metragem pode parecer um típico drama juvenil de terror (afinal, seu início tem todos os ingredientes deste tipo de filme), à medida que avança a história mostra toda a sua complexidade psicológica. O grande tema em questão é o do Transtorno Dissociativo de Identidade, o TDI no jargão da psiquiatria. Para o público em geral, esta é a doença mental conhecida como Múltipla Personalidade. Se este não é um assunto novo no cinema, ao menos ele foi muito bem utilizado aqui.

O longa-metragem começa com três adolescentes sendo sequestradas no estacionamento de um shopping center. As garotas despertam em um quarto misterioso. Elas estão trancadas ali e não sabem quem as prendeu e por quê. Rapidamente, surge a figura de Dennis (interpretado por James McAvoy). O sombrio rapaz se identifica como o sequestrador e tenta abusar de uma das jovens. As adolescentes se desesperam e começam a traçar planos de fuga.

A trivialidade do enredo acaba por aí. Aos poucos, as moças percebem que o problema maior daquela casa misteriosa e daquele homem que as aprisiona está na múltipla personalidade do raptor. Dennis se transforma em Patrícia, uma mulher autoritária e fria. Logo depois, ele passa a se comportar como uma criança de nove anos. Hedwin, como ele se identifica nesta nova versão, passa a fazer amizade com as garotas e se solidariza com o drama delas. Enquanto isso, o trio Dennis/Patrícia/Hedwin também dá vez a um talentoso estilista de moda, que frequenta o consultório da Dra. Karen Fletcher (interpretado por Betty Buckley), psiquiatra especializada em Transtorno Dissociativo de Identidade. Ela é a única que sabe que seu paciente possui 23 personalidades diferentes, que emergem "a luz" dependendo da situação.

Enquanto as três jovens precisam lidar com o medo e as incertezas do que seus vários sequestradores (todos no corpo de um único homem) farão, a história ainda conta com o drama interno do protagonista-vilão. O rapaz com TDI precisa lidar com uma batalha particular travada em sua própria mente por suas distintas personalidades. Uma dupla destas personalidades, que ficara adormecida por muitos anos e que possui claras intenções de provocar o mal, voltou à ativa e quer dominar as ações do rapaz. Este lado sombrio do sequestrador afirma que há uma vigésima quarta faceta que está na iminência de ser aflorada. Trata-se da versão mais forte e destruidora do TDI.

A graça de "Fragmentado" está, primeiramente, em entender a complexidade deste enredo aparentemente absurdo (porém, comprovado como possível através das pesquisas na área da psicologia humana). A riqueza da história está intimamente associada ao quão pitoresco é a vida de Dennis/Patrícia/Hedwin e todas as demais 20 personalidades que habitam o mesmo corpo. Depois de compreendido o que se passa na cabeça da personagem principal, o suspense fica para saber como a intriga interna da sua mente irá afetar a vida das três infelizes garotas que tiveram o azar de caíram em suas garras.

O desfecho do filme é muito bom. A tensão e a dramaticidade do longa-metragem vão crescendo continuamente até desembocarem em um clímax eletrizante e assustador. É no momento final que todas as peças da história se convergem, construindo um bom panorama. Manoj Night Shyamalan, que sempre gostou de produzir o roteiro dos seus filmes, mostra-se novamente um ótimo roteirista. Não é à toa que suas melhores produções foram justamente aquelas que tiveram sua autoria no roteiro.

Talvez, o único ponto negativo de "Fragmentado" tenha sido as últimas cenas, aquelas que compõem o fechamento da trama (após o desfecho). Percebi no cinema que algumas pessoas não entenderam o finalzinho do filme. Para compreendê-lo, é preciso algum repertório cinematográfico, como por exemplo, o motivo do aparecimento na última cena de Bruce Willis e de seu David Dunn, personagem de "Corpo Fechado", filme do próprio Shyamalan.

Curiosamente, apesar da complexidade e da agilidade do enredo, "Fragmentado" tem basicamente cinco atores contracenando quase todo o tempo. As garotas são interpretadas pelas jovens Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson e Jessica Sula e a dupla psiquiatra-paciente é conduzida pelos experientes Betty Buckley e James McAvoy. Anya Taylor-Joy (como a problemática Casey) e Betty Buckley (como a dedicada doutora) até trabalham muitíssimo bem, mas é impossível tirar os olhos de James McAvoy. Ele consegue emocionar o público com seus vários personagens, ora assustando, ora divertindo. Sem sombra de dúvidas, este foi o papel mais desafiador da carreira deste talentoso ator inglês, que nos últimos anos acabou trabalhando mais em produções de super-heróis e de ação (obviamente escolhas com menores graus de desafio cênico).

Assim, "Fragmentado" é uma ótima opção em cartaz para quem quer passar algum medo, levar sustos e se aventurar por uma mente complexa e paranoica de um homem que sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade. Este filme só não é indicado para quem quiser levar crianças ao cinema. Pode parecer um tanto óbvio falar isso aqui, mas na minha frente tinha um homem acompanhado por uma menina de nove ou dez anos de idade assistindo à sessão. Ou a garotinha é uma alucinada precoce por tramas do gênero suspense/terror ou o provável pai errou feio na escolha do programa com a filha. Pela forma como saíram do cinema, acho que a segunda alternativa é a mais provável. Ambos estavam completamente desnorteados. Pelo menos neste sentido, o filme se mostrou muito bom.

Veja o trailer:

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#ManojNightShyamalan

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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