• Ricardo Bonacorci

Filmes: Logan - O ponto final na saga de Wolverine


Neste final de semana, fui ao cinema e assisti ao filme "Logan" (2017). Sendo exibido em poucas salas tanto aqui em São Paulo quanto nas demais cidades do país, o novo longa-metragem de Wolverine está agora de saída do circuito comercial nacional. "Logan" estreou nos cinemas brasileiros no dia 3 de março. Completa hoje, portanto, exatamente um mês em cartaz. Por isso, é natural a dificuldade de ainda encontrá-lo em exibição. Sinceramente, não sei se ele ainda estará disponível nos cinemas a partir da próxima semana. É provável que não.

Acabei preterindo esta produção várias vezes nas últimas semanas, deixando-a quase para o último momento, por um simples motivo: não sou muito fã das histórias de super-heróis. Quando garoto, por exemplo, sempre preferi os gibis da Turma da Mônica ou os quadrinhos do Ziraldo às tramas da Marvel ou da DC Comics. Meus personagens favoritos eram o Chico Bento e o Menino Maluquinho e não o Homem-Aranha ou os X-Men. Admito que só entrei na sala de cinema para ver "Logan" neste sábado por falta de opção. Este era o único filme disponível para o horário em que eu podia ver. Era este ou nenhum. Preferi a primeira alternativa, obviamente. Coisas de quem não pode passar uma tarde sem uma sessão na sala escura...

Dirigido por James Mangold, diretor consagrado em "Johnny & June" (Walk the Lin: 2005) e responsável pelo último filme do Wolverine, "Wolverine: Imortal" (The Wolverine: 2016), "Logan" tem como grande mérito a coragem de se colocar um ponto-final na saga do principal personagem da Marvel. Ainda com Hugh Jackman como intérprete do mutante criado pela dupla Wein & Romita (Jackman fez todos os papéis de Wolverine e se tornou um rosto conhecido no universo cinematográfico justamente por este desempenho), o longa-metragem inova por apresentar um aspecto quase inexistente nas tramas dos super-heróis: um verdadeiro desfecho para a série.

Este sempre foi o aspecto que mais me incomodou nas tramas dos super-heróis. A falta de um final para os protagonistas sempre tornou os enredos mais inverossímeis e fantasiosos. Tudo bem que eles voem, sejam fortes, tenham poderes sobrenaturais e sejam imbatíveis. Isso eu até engulo. O que nunca tolerei é o fato das personagens principais destas histórias não morrerem ou se aposentarem. Você já reparou nisso? Eles também nunca envelhecem nem dão oportunidade para a nova geração substituí-los. Vivem em um mundo em que não há decadência física e mental, velhice, doença, limitações e finitude. A maioria não se casa, não constitui família, não evolui psicologicamente, não amadurece e nem supera seus traumas mais profundos. São eternamente iguais, independentemente da fase da vida, repetindo erros e acertos por décadas e séculos.

Exatamente por isso, o lançamento da "A Morte do Super-homem" marcou muito minha adolescência. Era metade da década de 1990 e o fato de ver, enfim, o falecimento de uma personagem de tal envergadura me motivou a correr até a banca de jornal e comprar a revista em quadrinhos. "A Morte do Super-homem" foi a quebra de um importante paradigma cultural. Mesmo não sendo fã da série, adquiri na hora a revista (era uma época em que a garotada visitava as bancas com empolgação). Minha frustração foi imensa quando no mês seguinte saiu a continuação daquela história. Não acreditei quando li o título: "A Volta do Super-homem". "Como assim?", pensei incrédulo naquele momento. "Como ele pode voltar se morreu?". Eu e todos os leitores tínhamos sido enganados! Clark Joseph Kent não tinha morrido coisa nenhuma (e jamais morrerá, creio eu). Era apenas um recurso para se vender mais revistinhas.

Estou contando sobre esta minha frustração histórica e sobre minha grande antipatia pelas narrativas dos super-heróis (sejam elas nos quadrinhos ou nas telas de cinema) para explicar o quanto saí do cinema, neste final de semana, impressionado positivamente com "Logan". O que sempre procurei em uma trama deste tipo, enfim, encontrei agora. Uhu! O filme é o capítulo final (sim, há um desfecho plausível!) da história de Wolverine, o personagem mais famoso e lucrativo da história da Marvel.

O mutante foi figurinha carimbada nos sete filmes da série X-Men: "X-Men - O Filme" (X-Men: 2000), "X-Men 2" (X2: 2003), "X-Men - O Confronto Final" (X-Men - The Last Stand: 2006), "X-Men Origens - Wolverine" (X-Men Origins - Wolverine: 2009), "X-Men - Primeira Classe" (X-Men - First Class: 2011), "X Men - Dias de um Futuro Esquecido" (X-Men - Days of Future Past: 2014) e "X-Men - Apocalipse" (X-Men- Apocalypse: 2016). Ele também protagonizou uma trama própria recentemente: "Wolverine: Imortal". Ou seja, Wolverine é estrela de primeira grandeza do universo mágico dos heróis do cinema e dos quadrinhos. Assistir seu ocaso e, consequente, fim é algo mágico e bastante simbólico. Assim como todas as frases de um texto possuem um ponto final, todas as tramas, independentemente do enredo, precisam de um ponto final também.

Em "Logan", nos deparamos com Wolverine (Hugh Jackman) vivendo de maneira decadente e sem qualquer glamour. É o ano de 2029 e ele já não é mais o herói que impressionou a todos. Morando escondido no extremo sul do país e cuidando de Charles Xavier (Patrick Stewart) já muito senil e com problemas psicológicos, Logan sofre com o alcoolismo, com a própria velhice e com algumas doenças que teimam em aparecer em seu corpo. A debilidade do "pai" nonagenário também prejudica em muito sua já complicada vida. Neste cenário, o antigo herói ganha a vida dirigindo uma limousine para endinheirados.

Em certo dia, surge uma enfermeira mexicana chamada Gabriela (Elizabeth Rodriguez) que, ao reconhecer Wolverine, deseja contratar seus serviços de motorista particular. O trabalho é levar a filha pequena dela, Laura (Dafne Keen) de cerca de dez anos, para a Carolina do Norte, no extremo norte dos Estados Unidos. Após relutar em fazer tão longa viagem de carro, Logan aceita a oferta da misteriosa mulher. Contudo, ele percebe rapidamente a enrascada em que se meteu. Laura é na verdade X-23, uma jovem mutante desenvolvida artificialmente em um laboratório privado especializado em criar soldados com superpoderes para o governo norte-americano. A guarda particular da organização irá atrás da garota e, por consequência, de Logan para reaver este bem da empresa. O velho herói precisará, assim, proteger a menina dos inimigos e cumprir sua palavra de levá-la ao destino.

"Logan" tem todos os elementos de um típico filme de super-herói: boas cenas de ação, brigas homéricas, perseguição sem fim, maniqueísmo acentuado, violência extrema, doses de humor e conflitos de natureza psicológica envolvendo o protagonista. Desta maneira, fica óbvia a preocupação do roteirista e do diretor em agradar aos antigos fãs da série X-Men, acostumados com este receituário.

Contudo, o longa-metragem vai além deste cenário previsível. Ele insere componentes inovadores à trama. Os conflitos de ordem pessoal da personagem principal se intensificam e ganham novos contornos na medida em que ela fica velha, doente e, de certa forma, impotente para com os destinos da humanidade. Há também o acréscimo de temas inusitados para este tipo de gênero cinematográfico como o debate sobre hereditariedade, paternidade, sucessão, gratidão e legado.

Este é um lado completamente novo na história de Wolverine (e de qualquer outro super-herói). É verdade que todos eles têm pontos fracos e traumas que afetam suas vidas. Porém, o que temos aqui é um grau maior destes conflitos, agravados pela passagem natural do tempo. A doença, a velhice, a decadência física e psicológica e o medo da morte, curiosamente, tornam-se os mais cruéis inimigos de uma pessoa, seja ela humana ou não.

É aqui que está toda a graça deste filme. Esqueça a pancadaria, as cenas de perseguição e as batalhas travadas entre bonzinhos e malzinhos. O maior mérito de "Logan" está no verossímil drama do protagonista, algo em que todos que envelhecem vão passar um dia. Quem escreveu o desfecho da história em quadrinhos de Wolverine e quem teve a coragem de levá-lo para as telonas fez um belo serviço a todos, inclusive a Hugh Jackman. O ator, que já se aproxima dos cinquenta anos, não teria muito fôlego para novas aventuras deste tipo. Provavelmente, esta também foi sua despedida do papel que o levou ao estrelato.

Como é bom ver a aplicação de um ponto final a uma trama tão complexa. Só por isso, vale a pena assistir ao filme de James Mangold. Se soubesse que esta produção tinha tantos elementos interessantes, com certeza a teria visto logo em sua estreia.

Veja o trailer de "Logan":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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