• Ricardo Bonacorci

Livros: O Paciente Inglês - O best-seller de Michael Ondaatje


No último final de semana, li o romance "O Paciente Inglês" (Editora 34). Esta é a obra mais famosa do multicultural Michael Ondaatje, escritor nascido no Sri Lanka, educado na Inglaterra e naturalizado canadense. Sua família é de origem holandesa, tâmil, cingalesa e portuguesa. Atualmente com 73 anos de idade e morando no Canadá desde 1959, Ondaatje ficou conhecido pelo público internacional pelo seu trabalho como romancista. Contudo, ele também se dedicou às novelas, aos contos e à poesia. Fora da literatura, seu trabalho abrange a música e o cinema.

"O Paciente Inglês" foi lançado em 1992 e rapidamente se tornou um sucesso de público e crítica. Neste mesmo ano, a obra conquistou o Brooker Pize, o mais importante prêmio da literatura inglesa. No final do ano seguinte, o livro já era best-seller nos Estados Unidos e na Europa. Este sucesso chamou a atenção dos produtores cinematográficos. Na segunda metade da década de 1990, "O Paciente Inglês" (The English Patient: 1996) virou filme. A superprodução dirigida e roteirizada por Anthony Minghella foi estrelada por Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Willem Dafoe e Juliette Binoche. O resultado final deste trabalho pode ser resumido pela conquista de nove estatuetas do Oscar em 1997, inclusive as de melhor filme e de melhor diretor.

Contendo 205 páginas, o livro "O Paciente Inglês" se passa na Itália no ano de 1945. Este é o período final da Segunda Guerra Mundial. No alto de uma montanha em uma pequena cidade da Toscana, vivem quatro pessoas. O lugar está devastado pelo conflito bélico. Se não fosse a permanência destes poucos indivíduos, poderíamos dizer que aquele era um local totalmente desabitado. O casarão onde a história se passa já fora uma riquíssima biblioteca. Nos últimos anos, porém, ele fora transformado em um hospital para os soldados. Com a migração da população, dos militares, dos médicos e dos feridos para o norte do país, a construção ficou vazia e semidestruída.

Isolado de tudo e de todos, o casarão no alto da montanha é agora a residência de Hana (uma jovem enfermeira canadense que se recusou a seguir o caminho feito pelas suas companheiras de profissão), David Caravaggio (um espião italiano que fora atraído para aquela cidade abandonada), Kip (um soldado indiano responsável por desativar as bombas que foram espalhadas na região pelos alemães em fuga) e um homem muito ferido e misterioso chamado simplesmente de Paciente Inglês. De certa maneira, os destinos destas personagens estão entrelaçados.

Hana está desiludida com a vida. As barbaridades que a moça viu ao longo dos últimos anos, a perda de um filho que estava em seu ventre e a recente morte do pai na guerra a deixaram descrente quanto ao futuro. Por isso, ela se nega a seguir com as demais enfermeiras para o norte da Itália. Hana opta por permanecer ao lado de seu paciente mais grave.

O homem que ela julga ser inglês tem o corpo todo queimado. Ele sobreviveu à queda de um avião, porém seu estado é delicadíssimo. Sem possibilidade para seguir viagem para um lugar mais seguro, ele teve de permanecer no casarão no alto da montanha italiana. Por isso, Hana ficou com ele e não desgruda dele por nada. De certa forma, um precisa do outro. A enfermeira oferece todos os cuidados necessários ao paciente, enquanto ele dá um motivo para ela continuar vivendo. O momento predileto da moça é quando ela pode ler algo para o inglês. A leitura dos livros daquela residência levam seus moradores para bem longe dali.

Após algum tempo vivendo sozinhos no casarão, Hana e seu paciente recebem a visita de mais duas pessoas. O primeiro é David Caravaggio. Antigo ladrão italiano, ele trabalhou como espião durante toda a guerra. Tio de Hana, ele segui até aquele remoto lugar para ficar com sua sobrinha. Já Kip é um soldado indiano que se alistou nas tropas inglesas. Ele foi enviado para aquela localidade para desativar todas as bombas espalhadas pela região. O rapaz se arrisca diariamente para tornar aquele local mais seguro.

A trama de "O Paciente Inglês" gira em torno do convívio entre estes quatro protagonistas. Curiosamente, a história do romance não avança quase nada durante a maior parte do livro. A obra simplesmente narra o dia a dia do grupo naquela cidade abandonada e devastada da Itália. O enredo foca principalmente o drama psicológico de cada personagem. Para compreender os sentimentos e as emoções de cada um deles, Michael Ondaatje usa e abusa do recurso do flashback. Este é uma história que não anda para frente e sim para trás. Ou seja, a chave para a compreensão da realidade está no estudo do passado. À medida que o romance retrocede aos eventos anteriores ao ano de 1945, conseguimos entender as características e o perfil de Hana, David Caravaggio, Kip e do Conde László de Almásy (o paciente misterioso). O autor dedica cada capítulo a uma das suas personagens centrais.

"O Paciente Inglês" é um romance psicológico com elementos poéticos. A beleza desta história está na descrição da paisagem, na rotina aparentemente banal das personagens e, principalmente, nos dramas pessoais. A pouca ambição dos protagonistas e a falta de preocupação deles com o futuro indicam o estado de melancolia de suas almas.

O ponto alto do livro está na trágica história de amor narrada pelo paciente inglês. Deitado na cama, o enfermo passa a divagar sobre seu passado. De certa forma, ele não consegue abandonar a vida precedente à eclosão da guerra. Ele conta aos amigos o envolvimento que teve com uma mulher casada, o grande amor de sua vida. Katharine Clifton era esposa de um colega de trabalho dele. Os dois (Katharine e o paciente) se tornaram amantes gerando conflitos de várias naturezas. A fixação do doente pela figura da mulher amada faz com que ele pareça um louco a delirar.

Outro ponto muito interessante é o desfecho deste livro. A história de amor entre Hana e Kip tem um final surpreendente. Quando o leitor acha que a trama terá uma determinada conclusão, em poucas palavras e nas derradeiras linhas o autor consegue mudar totalmente os acontecimentos. Trata-se de um fim que faz o queixo do leitor cair, tamanha é a beleza e a singularidade dos fatos narrados.

Se "O Paciente Inglês" parece um pouco estranho no começo (com suas várias descrições de lugares e pessoas) ou muito cansativo no meio (com a narrativa de uma história que não avança nunca), ele se torna uma obra memorável à medida que nos aproximamos do seu final. Só neste momento podemos compreender a complexidade das várias pedrinhas do quebra-cabeça psicológico deixadas pelo autor.

Este não é, definitivamente, um livro fácil. As várias citações filosóficas e literárias abrilhantam seu conteúdo, mas podem parecer enfadonhas para quem não as conhece ou não está disposto a refletir profundamente sobre cada aspecto da vida das personagens.

Gostei tanto deste romance que fiquei com vontade de assistir ao filme. Apesar de "O Paciente Inglês" ser um clássico do cinema contemporâneo, admito que ainda não conferi o longa-metragem. Quem sabe não o faça neste final de semana. Estou curioso para saber como são Hana, Caravaggio, Kip, Almásy e Katharine na versão de Anthony Minghella.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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