• Ricardo Bonacorci

Músicas: A Volta do Boêmio - O auge de Nelson Gonçalves


A canção "A Volta do Boêmio", lançada em 1957, representou o auge artístico de uma das mais improváveis parcerias da história musical brasileira. Afinal, quem iria imaginar que um ex-pugilista se tornasse um dos mais importantes cantores nacionais ao interpretar sambas-canção criados por um português compositor de fados?! Apesar de improvável, esta história é verídica e teve um final feliz. Os destinos do cantor e do compositor se cruzaram no início da década de 1950, o que alterou completamente a lógica de suas vidas. A dupla conquistou o país com seu talento e é lembrada até hoje como sinônimo de boa música.

Nelson Gonçalves, chamado também de "Rei do Rádio", "Rouxinol" e "Frank Sinatra Brasileiro", e o compositor Adelino Moreira (menos conhecido do que o cantor, mas tão importante quanto) foram responsáveis pelo lançamento conjunto de mais de 160 canções. Nelas, basicamente, o primeiro entrava com a voz potente e com a interpretação intensa e o segundo com a criação de letras melancólicas e com melodias afinadas.

O álbum "A Volta do Boêmio" é o maior sucesso da dupla. O disco vendeu mais de um milhão de cópias. Este número se torna ainda mais fabuloso quando lembramos que a indústria fonográfica brasileira ainda engatinhava nos anos de 1950. Pela primeira vez na história nacional, um disco ultrapassava os seis dígitos em vendagem. "A Volta do Boêmio", a música principal daquele LP, ficou tão associada à figura de Nelson Gonçalves que nenhum outro artista teve coragem de regravá-la por muito tempo. Era consenso na época que ninguém conseguiria produzir uma versão melhor do que a realizada pelo gaúcho de Santana do Livramento.

Apesar de ser uma música incrível, "A Volta do Boêmio" não era a única grande canção daquele disco. Normalmente, um grande LP se fazia pelo conjunto de vários sucessos. O álbum é aberto com "Meu Vício é Você". Ainda no lado A, havia "A Flor do Meu Bairro" e "Mariposa". "A Volta do Boêmio" inaugurava o Lado B. Na sequência, vinha "Fica Comigo Esta Noite". Este lado ainda tinha "Deusa do Asfalto". Não é preciso dizer que todas estas músicas foram compostas por Adelino Moreira. Completam as doze músicas deste disco: "Escultura", "Queixas", "Enigma", "Chore Comigo", "Êxtase" e "Ultimato". Ouça o álbum "A Volta do Boêmio" na íntegra. Ele tem pouco mais de meia hora de duração.

A canção "A Volta do Boêmio" é, na verdade, uma continuação de outra música composta, em 1952, por Adelino Moreira e Sebastião Santana (e cantada por Nelson Gonçalves, é claro). "Última Seresta" falava de um homem que abandonava a boemia por iniciativa própria, após achar a mulher de sua vida. Ele largava a noite, a festa, os amigos e as serenatas para ficar junto do seu maior amor. A única coisa que ele levava para a nova vida era o antigo violão. Veja a letra desta música e ouça a interpretação de Nelson Gonçalves:

Última Seresta (1952):

Nesta última seresta

Tenho o coração em festa

Quando devia chorar

Sigo triste por deixar a boemia

Porém cheio de alegria

Por ela me acompanhar

Digo adeus às serenatas,

Aos montes, rios, cascatas,

E às noites de luar

Adeus, adeus minha gente,

Uma canção diferente

Vai o boêmio cantar.

Adeus amigos leais,

Que não deixaram jamais

Fazer-me qualquer traição

Vosso amigo vai partir

Mas vai feliz , a sorrir,

Com ela no coração,

Adeus seresta de amor

Adeus, boêmio cantor,

Perdoa a ingratidão

Pois, para o meu novo abrigo

Eu levo apenas comigo

Ela e o meu violão.

Em 1957, surgia "A Volta do Boêmio", a continuação da história de "Última Seresta". O homem boêmio regressava aos amigos, arrependido por ter deixado a noite e a farra. Curiosamente, o eu lírico da canção afirmava que tinha sido sua mulher quem o havia autorizado a retornar para a antiga rotina. Veja a letra de "A Volta do Boêmio" e, depois, ouça esta canção na voz inconfundível de Nelson Gonçalves.

A Volta do Boêmio (1957):

Boemia, aqui me tens de regresso

E suplicante te peço, a minha nova inscrição.

Voltei pra rever os amigos que um dia

Eu deixei a chorar de alegria,

Me acompanha o meu violão.

Boemia, sabendo que andei distante,

Sei que essa gente falante vai agora ironizar:

"Ele voltou! O boêmio voltou novamente.

Partiu daqui tão contente. Por que razão quer voltar?"

Acontece que a mulher que floriu meu caminho

De ternura, meiguice e carinho, sendo a vida do meu coração,

Compreendeu e abraçou-me dizendo a sorrir:

"Meu amor, você pode partir, não esqueça o seu violão.

Vá rever os seus rios, seus montes, cascatas.

Vá sonhar em novas serenatas e abraçar seus amigos leais.

Vá embora, pois me resta o consolo e alegria

De saber que depois da boemia

É de mim que você gosta mais"

A canção é, portanto, uma apologia à celebração da vida noturna e a gandaia. A parceria entre Adelino Moreira e Nelson Gonçalves rendeu outros grandes sucessos ao longo dos anos: "Meu Vício É Você", "Fica Comigo Esta Noite", "A Flor do Meu Bairro" e "Meu Dilema" são as minhas outras preferidas. Contudo, a música que marcou esta improvável dupla para sempre foi mesmo "A Volta do Boêmio".

Nelson Gonçalves é apontado, até hoje, como sendo o terceiro maior vendedor de discos da história do Brasil. Com 75 milhões de álbuns vendidos, ele só perde para a dupla sertaneja Tonico & Tinoco (150 milhões) e Roberto Carlos (120 milhões). Dos seus inúmeros sucessos e do seu grande repertório, "A Volta do Boêmio" é a mais lembrada pelo público. Esta canção completa, em 2017, 60 anos de vida. É importante as novas gerações conhecerem este belo exemplar de nossa música e as antigas gerações relembrarem este velho sucesso.

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#NelsonGonçalves #AdelinoMoreira

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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