• Ricardo Bonacorci

Livros: Alice no País das Maravilhas - A edição da Cosac Naify do clássico de Lewis Carroll


Foi muito triste o encerramento das atividades, no final de 2015, da Cosac Naify. A editora fundada por Charles Cosac e Michael Naify, em 1996, era pródiga em encantar os leitores com publicações de excelente qualidade. Seus livros se destacavam tanto pela inovação editorial quanto pelo apreço estético. Em um país com baixo índice de leitura e pautado essencialmente pelas escolhas comerciais do público, o fim da Cosac Naify era, infelizmente, algo um tanto previsível. Mesmo com o fechamento da editora, muitos dos seus livros ainda estão à disposição dos leitores. E é um prazer descobrir materiais que unem excelente literatura com ótimos projeto e acabamento gráficos.

Digo isso porque reli, neste final de semana, uma obra que há alguns anos tem um espaço especial em minha estante: "Alice no País das Maravilhas" (Cosac Naify). Este é o livro mais famoso da carreira do inglês Lewis Carroll. Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, foi matemático, desenhista e fotógrafo, além de escritor. Apesar de ter produzido contos, romances, ensaios e poesia adulta, ele entrou para a história literária como um dos mestres das tramas infantis. "Alice no País das Maravilhas" é a primeira publicação da trilogia da menina que tinha conversas filosóficas com animais e cartas de baralho em um mundo encantado.

A edição que tenho foi lançada, em 2009, pela editora de Charles e Michael e é de maravilhar até mesmo os leitores mais exigentes. A tradução ficou a cargo do escritor e historiador Nicolau Sevcenko. Em sua versão, Sevcenko usou de muita criatividade para manter o humor nonsense do original e, ao mesmo tempo, encontrar os termos equivalentes em nosso idioma para as invencionices de Carroll. Além disso, o tradutor conseguiu imprimir em seu trabalho uma linha textual que agrada tanto as crianças quanto os adultos (algo que é um dos principais méritos da literatura de Lewis Carroll). Na maioria das vezes, os tradutores brasileiros acabaram optando por um público em detrimento ao outro, desvirtuando, assim, a essência do texto do autor inglês.

"Alice no País das Maravilhas" da Cosac Naify é ilustrado por Luiz Zerbini. Os desenhos do artista paulistano são maravilhosos! Impossível não ficar hipnotizado com as lindas imagens estampadas nas páginas desta obra-prima. A sensação durante a leitura do livro é que as ilustrações de Zerbini acompanham atentamente e de maneira poética a trama (algo meio óbvio, porém ausente em muitos trabalhos). Para completar o primor estético, a diagramação e os materiais gráficos utilizados para a confecção da obra são incrivelmente bonitos. Uma vez visto algo com esse requinte, você não vai achar graça em nenhuma outra edição do livro.

A história da publicação de "Alice no País das Maravilhas" é tão boa quanto o seu enredo. No Verão de 1862, Charles Lutwidge Dodgson saiu para passear de barco com as três filhas do seu amigo Henry Liddell, um reverendo da Igreja Anglicana. Como Dodgson era gago, ele se sentia, muitas vezes, mais à vontade com as crianças do que com os adultos. E a criançada adorava ouvir as tramas ficcionais inventadas pelo adulto engraçado e atencioso.

Sabendo das qualidades narrativas de Dodgson, Alice, uma das irmãs presentes no barco, pediu para o matemático contar uma nova aventura. E para agradar a menina, o rapaz inventou, no meio do passeio, uma história amalucada sobre uma garota também chamada Alice que caía em um buraco mágico no jardim de casa. A personagem acabava presa em um mundo encantado. A Alice verdadeira gostou tanto da narrativa de sua homônima que pediu ao amigo o livro com aquela trama de presente de aniversário. Assim, no final de 1862, Charles Lutwidge Dodgson escreveu a história e confeccionou a mão o livro de único exemplar para Alice Liddell. O título do manuscrito era "As Aventuras de Alice Debaixo da Terra". Nele, além da história contada no Verão anterior havia ilustrações feitas pelo próprio autor.

O livro fez tanto sucesso na casa e entre os familiares dos Liddell que Dodgson se sentiu encorajado a lançar a obra para o grande público. Assim, em 1865, chegava às livrarias inglesas "Alice no País das Maravilhas". As ilustrações agora foram feitas por John Tenniel, um dos mais famosos artistas da época. E o livro ganhou a assinatura de um pseudônimo inventado por Dodgson. Nascia, assim, Lewis Carroll para a literatura inglesa e mundial. Como Lewis Carroll, o escritor lançaria todos os seus livros ficcionais. Como Charles Lutwidge Dodgson, ele lançou ensaios sobre matemática, lógica e defesa dos direitos dos animais.

O sucesso de "Alice no País das Maravilhas" foi tanto que nos anos seguintes Dodgson/Carroll continuaria a saga de Alice em mais dois livros. A trilogia é completada com "Através do Espelho" e "O que Alice Encontrou Lá", ambas as publicações de 1871. Nessas obras, Alice continua viajando para o País das Maravilhas em sonhos.

O enredo de "Alice no País das Maravilhas" começa com sua protagonista sentada no jardim de casa, ao lado da irmã mais velha, em uma tarde quente de Verão. Entediada, Alice não vê graça na leitura que a irmã está fazendo. A procura de algo mais interessante para fazer, a menina vê um Coelho Branco passar correndo por ela. Surpreendentemente, o bicho saca um relógio do bolso do colete (sim, ele está usando roupas) e fala: "Oh, meu Deus! Eu vou chegar muito atrasado!". Então, o Coelho some no meio das árvores do jardim. Curiosa para descobrir quem é aquela figura tão exótica, Alice sai correndo em disparada, seguindo-o. A menina, então, vê o Coelho Branco entrar em um buraco no chão. Sem pensar duas vezes, ela atira-se ali também.

Alice cai por vários minutos em um abismo que parece não ter fim. Quando chega finalmente ao chão, a garota está em um mundo totalmente novo. Ali, ela cresce e diminui de tamanho dependendo do que ela come ou bebe. Ela também conhece várias personagens esquisitas, a maioria bichos e cartas de baralhos que agem como se fossem seres-humanos. Além do Coelho Branco, há o Rato erudito, o Dodô professoral, a Lagarta fumante, a Duquesa mal-educada, o Chapeleiro maluco, o Grilo falante, a Falsa Tartaruga depressiva, a Rainha de Copas violenta, e tantas outras figuras incríveis.

Naquele reino encantado, Alice irá vivenciar várias aventuras, desafiando os moradores do lugar com seu jeito desbocado e irreverente. A menina não respeita nenhum das regras locais e passa a questionar os aspectos mais básicos daquela sociedade. Não é à toa que ela torna-se malvista por quase todo mundo dentro do País das Maravilhas, como o buraco onde caiu é chamado.

"Alice no País das Maravilhas" é um livro que revolucionou a literatura infantil. São vários os motivos que comprovam essa afirmação. Em primeiro lugar, ele inseriu na trama para crianças várias questões filosóficas típicas dos adultos. As discussões travadas por Alice com seus novos amigos são profundas e muito interessantes. Não é possível saber o que Lewis Carroll pretendia com essas reflexões inusitadas, mas o fato é que os debates gerados pelo seu texto até hoje geram infinitas respostas. Assim, essa obra pode ser lida tanto por crianças quanto por adultos (que compreenderam melhor as ironias da narrativa).

Outro elemento importante é a inserção de componentes oníricos à história. Se hoje esse recurso é banal (visto até mesmo como uma artimanha simplista do autor), naquela época foi algo que ampliou os horizontes dos enredos ficcionais. Não foi por acaso que Lewis Carroll tenha usado e abusado desse expediente ao longo da trilogia de Alice. Nesse sentido, "Alice no País das Maravilhas", "Através do Espelho" e "O que Alice Encontrou Lá" são idênticos entre si (sua protagonista viaja para o reino mágico apenas em sonho).

E o que dizer, então, do humor nonsense da literatura de Lewis Carroll, hein?! As histórias do inglês são ambientadas no universo encantado, estimulando a imaginação das crianças e o lado lúdico de seus jovens leitores. Carroll satiriza o mundo adulto com rara felicidade. Ele escancara as maneiras pomposas, a seriedade autodepressiva, os preconceitos bobos, a violência sem sentido, a arrogância desmedida, a intolerância ao diferente e a falta de sentido de vários hábitos das pessoas adultas. Essa crítica de costumes é feita magistralmente do ponto de vista de uma menina (criança). Alice, que vive o dilema entre crescer e ficar eternamente vivendo como uma garotinha, é quem coloca o dedo nas feridas dos mais crescidinhos.

As personagens do livro são excelentes. Alice é a típica heroína rebelde que enfrenta os grandes desafios da vida com espírito extremamente contestador (outra grande inovação em se tratando de literatura infantil). Apesar de desbocada, esquentada e imprevisível (de certa forma, Emília de Monteiro Lobato lembra um pouco a protagonista de Carroll), a menina é encantadora. Divertida, atrevida e corajosa, ela enfrenta tudo e todos com a simplicidade e a inocência típicas da idade. As personagens do País das Maravilhas também são ótimas. Cada um deles (o Coelho, o Rato, o Dodô, a Rainha e o Rei de Copas, a Lagarta, a Duquesa, o Chapeleiro, o Grilo, a Falsa Tartaruga, etc.) representa metaforicamente um tipo social ou uma instituição inglesa da segunda metade do século XIX. Indiretamente, Lewis Carroll satiriza a todos, para deleite dos leitores mais atentos à genialidade do texto.

Lewis Carroll é reconhecidamente um mestre na arte de contar histórias infantis com doses acuradas de humor e de filosofia existencialista. Quanto mais velho e mais instruído for o público do escritor inglês, mais os leitores poderão aproveitar a sagacidade do subtexto dessas narrativas.

E se "Alice no País das Maravilhas" é um livro, por si só, especular, a versão da Cosac Naify consegue torná-lo ainda mais incrível. Impossível não ficar admirado com o resultado estético desse trabalho genial.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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