• Ricardo Bonacorci

Livros: A Mão e a Luva - O xeque-mate no romantismo


Na semana passada, começamos o Desafio Literário de 2017 (leitura das obras de Machado de Assis) por um livro de poesias. "Crisálidas" (Martin Claret) é uma coletânea de poemas românticos de 1864. Atualmente, o lado poeta de Machado é uma das faces menos estudadas do trabalho do principal escritor brasileiro. Afinal, o que o tornou famoso não foi a poesia e sim a prosa. Foi através dos romances que ele se tornou um mestre na arte de contar histórias. É por isso que vamos agora entrar na análise deste gênero narrativo.

Machado de Assis é considerado o principal romancista do Realismo Brasileiro (e um dos principais da América do Sul e da língua portuguesa como um todo). Alguns críticos literários chegam a colocar o escritor carioca como um dos principais autores mundiais desta escola literária. Contudo, Machado não "nasceu" realista. Antes de publicar, em 1889, "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (Martin Claret), obra precursora do Realismo no Brasil (e que será analisada na semana que vem), ele lançou quatro romances românticos: "Ressurreição" (Ática), em 1872, "A Mão e a Luva" (Globo), em 1874, "Helena" (Ática), em 1876, e "Iaiá Garcia" (Globo), em 1878. Ou seja, esta é a fase romântica do romancista.

Desta fase da carreira de Machado, selecionei para nossa leitura e para nossa análise o livro "A Mão e a Luva". Para mim, esta obra é importantíssima, pois indica uma primeira tentativa de mudança no estilo do autor. Apesar dos especialistas o classificar como sendo romântico, este romance já possui muitas características do Realismo. De certa forma, ele pode ser visto como um livro de transição. Já em seu segundo romance, Machado de Assis já mostrava sinais acintosos de que era muito mais um autor que se interessava pelos meandros psicológicos das suas personagens e pelas necessidades sociais delas. A passionalidade mórbida e o amor platônico, itens estes tão valorizados pelos autores ultrarromânticos, acabavam ficando em segundo plano.

Em "A Mão e a Luva", conhecemos o drama de Estevão, um carioca criado no bairro de Botafogo. O estudante de direito, vindo de uma família simples, era apaixonado desde a adolescência pela bela e tímida Guiomar. A menina era órfã e estudava em um colégio interno. Entretanto, a jovem nunca quis saber do rapaz, recusando todas as suas investidas para um namoro sério. Estevão, desesperado pelo amor não correspondido, pensa em se matar.

Ele é, então, consolado por Luís Alves, seu colega de faculdade. Os conselhos do amigo fazem com que Estevão consiga esquecer Guiomar por alguns anos. Algo que ajudou neste sentido foi a distância da moça (Estevão fazia faculdade em São Paulo, enquanto a menina permaneceu no Rio) e a dedicação do rapaz aos estudos. A combinação destes fatores ajudou-o a curar provisoriamente as dores do coração.

Depois de formado, Estevão volta a morar no Rio de Janeiro, onde passa a atuar como advogado ao lado de Luís Alves. Em uma visita à casa do amigo, ele reencontra Guiomar. A moça é vizinha de Luís Alves. O inesperado encontro dos dois faz florescer os antigos sentimentos do rapaz. Depois de uma conversa com a jovem, Estevão está novamente apaixonado por ela. Desta vez, contudo, a jovem não está mais tão desamparada e pobre como no passado. Ela havia sido "adotada" por uma baronesa rica e viúva. A moça levava agora uma vida de luxo no casarão da madrinha (como era chamada a mãe adotiva).

A simpatia demonstrada por Guiomar naquele reencontro fez com que o jovem advogado imagine que ela possa estar apaixonada por ele. "Quem sabe ela não foi sempre apaixonada por mim?", cogita de forma um tanto platônica. Com a ajuda de Luís Alves, Estevão se torna o advogado da baronesa, frequentando a casa dela. Assim, ele passa a conviver com Guiomar no dia a dia, ratificando todo o amor que tem pela moça. Após se declarar outra vez para ela, Estevão ouve uma segunda recusa dela. Ela afirma não o amar. "Por que será que ela age assim?", pensa ele.

Alguns dias depois do novo fora recebido por Estevão, um sobrinho da baronesa, Jorge, descrito como frio e arrogante, apresenta a intenção de se casar com Guiomar. Ela também não ama o rapaz, mas pode se inclinar a aceitar o casamento para deixar sua madrinha feliz. Segundo Mrs. Oswald, a governanta inglesa da baronesa, o sonho da patroa é ver a afilhada casada com seu sobrinho.

Nesta disputa pelo coração de Guiomar, surge ainda um terceiro e surpreendente pretendente. Luís Alves coloca de lado a amizade com Estevão e também passa a cortejar a vizinha. No momento de escolher quem será seu futuro marido, Guiomar evidencia a força de sua personalidade. Ela analisa os candidatos muito mais pela razão do que pela emoção. Assim, irá calcular as vantagens e as desvantagens sociais que cada um deles pode proporcionar a ela.

Esqueça, portanto, a menina doce, apaixonada e sonhadora. O que temos aqui é uma mulher fria, interesseira e muito esperta. Sua decisão sobre o matrimônio é baseada única e exclusivamente no que o futuro parceiro tem a oferecer em relação às conquistas financeiras e sociais. Posição na sociedade, status, dinheiro, prestígio, nome, luxo, riqueza e poder são os atributos principais do marido certo.

É possível dizer que a primeira metade desse livro se caracterize como sendo uma típica história romântica. O enredo, os cenários, os personagens, as situações e os conflitos indicam que a trama irá se desencadear como os demais livros deste gênero artístico. Porém, a segunda metade de "A Mão e a Luva" inverte totalmente esta lógica, transformando-se em uma obra puramente realista. Prova maior deste fato é que o personagem mais passional e emotivo da história praticamente some no terço final da narrativa. Estevão sai do papel de protagonista e torna-se um mero figurante. É como se Machado de Assis cansasse dos personagens românticos e concentrasse suas atenções nas personagens com características mais realistas (e interessantes do ponto de vista narrativo).

Com isso, a impressão que se tem (principalmente para quem está acostumado exclusivamente às tramas românticas) é que a história de "A Mão e a Luva" só tem vilões. O único mocinho é colocado para escanteio. Esta é a primeira grande surpresa deste livro. Na é a toa que o público da época não gostou deste romance. "A Mão e a Luva", ainda com o nome "Um Perfil de Mulher", foi publicado em 20 folhetins no jornal "O Globo" entre setembro e novembro de 1874. A reação dos leitores foi a pior possível. Eles não entenderam como era possível o autor criar um desfecho pouco romântico para uma história de amor que parecia tão bonita. Mal sabiam eles que Machado de Assis iria se consolidar como um dos mais antirromânticos autores nacionais.

Outro elemento interessante que precisa ser destacado em "A Mão e a Luva" é o estilo da narrativa de Machado de Assis. Ele já apresentava, em menor escala, algumas das características que seriam apontadas mais tarde, na "Fase Realista", como sendo suas marcas. Estão presentes aí: "o diálogo com o leitor", "o aprofundamento psicológico das personagens", "os jogos de interesses e vaidades" e "as imposições sociais que a vida burguesa exigia". Juro que consigo ver, durante a leitura de "A Mão e a Luva", "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e "Dom Casmurro" (Ática) sendo construídos.

Para completar, temos uma crítica contundente ao estilo e aos ideais românticos. Estevão é retratado como um bobo por seu sentimentalismo piegas e exacerbado. Sua ingenuidade chega a provocar pena no leitor mais crítico. Em vários momentos, é até cômico acompanhar suas dores de coração. Elas são completamente improdutivas quando comparadas a frieza sentimental e a praticidade dos demais personagens (que não possuem qualquer envolvimento emocional). Estevão acaba visivelmente deslocado da trama principal como se fosse alguém "perdido em outra época". O verdadeiro mundo burguês do século XIX não é para os fracos nem para os sonhadores. Nisso, Machado de Assis acerta em cheio.

Legal também notar a constituição da personagem principal. Guiomar é uma das personalidades mais fortes e contundentes de nossa literatura. Ela navega tenuemente entre o protagonismo e o antagonismo. Ela é tão decidida quanto foi Aurélia Camargo, de "A Senhora", mas não possui o mesmo carisma da personagem de José de Alencar. Se ao final do seu romance, Aurélia consegue se redimir aos olhos dos leitores românticos, o mesmo não pode ser dito de Guiomar. A personagem machadiana é fiel ao seu espírito prático e mundano até o final, não descambando para o Romantismo em nenhum momento.

Neste aspecto, o desfecho de a "Mão e a Luva" é esplendido. Com poucas e exatas palavras, Machado de Assis consegue resumir o retrato dos protagonistas e de suas decisões. A cena do casal entrelaçando as mãos é o retrato magnífico dos jogos de interesses por trás do casamento burguês.

Respeito quem considere este um romance romântico. Para mim, "A Mão e a Luva" é mais uma novela (tem pouco mais de 100 páginas e apenas seis personagens relevantes) realista ou (vá lá) pré-realista. Justamente aí, está a importância desta obra. Ela é muito mais uma experimentação de Machado de Assis para o que viria uma década e meia depois. Não consigo enxergar este livro como sendo um fracasso editorial. Vejo muito mais méritos nesta narrativa intrigante e inovadora do que falhas. Se o público do século XIX não gostou de "A Mão e a Luva" é porque não soube entendê-la como a precursora de um novo estilo literário que estava por eclodir.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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