• Ricardo Bonacorci

Músicas: Lábios que Beijei - 80 anos do auge da valsa


Em 1937, Orlando Silva era um rapaz de 22 anos que estava dando os primeiros passos na carreira de cantor. Em março daquele ano, ele entrou no estúdio para gravar seu disco. A expectativa da gravadora RCA Victor era tanta que ela selecionou sua principal orquestra, comandada pelo maestro Radamés Gnattali, para acompanhar o jovem intérprete. Em um dos lados do compacto seria cantado o samba "Juramento Falso", enquanto no outro a valsa "Lábios que Beijei".

A música "Lábios que Beijei" tinha sido composta pela dupla J. Cascata e Leonel Azevedo. Naquela primeira gravação, a canção recebeu o acompanhamento de Pixinguinha na flauta. A valsa era um gênero musical que fazia muito sucesso na década de 1930. A voz potente de Orlando Silva acabou casando perfeitamente com o destacado naipe de cordas deste tipo de canção. O sucesso de "Lábios que Beijei" acabou servindo de referência para as demais valsas que foram criadas depois.

Pode-se dizer que este foi o primeiro grande sucesso da carreira de Orlando Silva, que passou a integrar, depois do lançamento deste compacto de 1937, o primeiro time de músicos da sua gravadora. Era o começo da ascensão do "Cantor das Multidões".

Veja, a seguir, a letra de "Lábios que Beijei" e ouça a interpretação original de Orlando Silva de março de 1937:

Lábios que Beijei - J. Cascata e Leonel Azevedo (1937)

Lábios que beijei

Mãos que eu afaguei

Numa noite de luar, assim,

O mar na solidão bramia

E o vento a soluçar, pedia

Que fosses sincera para mim.

Nada tu ouviste

E logo que partiste

Para os braços de outro amor.

Eu fiquei chorando

Minha mágoa cantando

Sou estátua perenal da dor.

Passo os dias soluçando com meu pinho

Carpindo a minha dor, sozinho

Sem esperanças de vê-la jamais

Deus tem compaixão deste infeliz

Porque sofrer assim

Compadecei-vos dos meus ais.

Tua imagem permanece imaculada

Em minha retina cansada

De chorar por teu amor.

Lábios que beijei

Mãos que afaguei

Volta vem curar a minha dor

A letra dessa canção narra o drama de um eu lírico masculino que foi abandonado pela mulher amada. As lembranças da imagem dela e, principalmente, dos "lábios que beijou" e das "mãos que afagou", provocam grande tristeza no rapaz. A cura para a melancolia desta vida de saudosismo é a volta da amada. Para o eu lírico, não há outro remédio para afagar suas mágoas.

Os anos de 1930 representaram o auge da valsa. "Lábios que Beijei" é apontada, até hoje, como uma das melhores canções deste estilo musical. Na década seguinte, a valsa perdeu rapidamente espaço nas rádios. Em pouco tempo, este tipo de canção passou a ser vista como música da "velha-geração". O baião, o samba-canção e os boleros passaram a dominar as paradas de sucesso, monopolizando as atenções dos músicos, das gravadoras, das rádios e dos ouvintes. Nunca mais a valsa conseguiu se tornar tão popular. Ouvir este tipo de música, hoje em dia, é voltar a um passado um tanto distante e esquecido da música nacional.

Em 1994, Caetano Veloso chegou a regravar "Lábios que Beijei". Repare no vídeo, a seguir. Nele, o cantor baiano encena uma volta ao passado, indo diretamente para os tempos onde as valsas eram populares. Neste álbum, intitulado "Fina Estampa", Caetano canta vários sucessos sul-americanos de diferentes épocas. Estão ali, juntamente com "Lábios que Beijei", "O Samba e o Tango", "Canção de Amor", "Suas Mãos", e "Você Esteve Com Meu Bem".

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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