• Ricardo Bonacorci

Livros: Crisálidas - A primeira obra poética de Machado de Assis


Comecei a análise das obras de Machado de Assis por um livro de poemas. "Crisálidas" (Martin Claret) foi publicado em 1864 e faz parte da fase romântica do autor. Curiosamente, muitos leitores e fãs de Machado não sabem que ele também se dedicou à poesia. "Crisálidas" tem um grande valor histórico porque foi o primeiro livro efetivamente publicado de Machado de Assis. Antes de esta publicação chegar às livrarias, o escritor carioca só tinha produzido peças teatrais e pequenas narrativas (contos e crônicas) nos jornais da época.

"Crisálidas" tem 29 poemas. Eles foram escritos entre 1858 e 1864, período em que Machado de Assis tinha entre 19 e 25 anos. Ou seja, esta é uma fase da vida da qual o autor ainda era imaturo e estava fazendo experimentações estéticas em sua literatura. Por isso, não espere encontrar, aqui, um poeta calejado e consolidado como artista. Depois de "Crisálidas", Machado lançaria mais três outros livros de poesia: "Falenas" (1870), "Americanas" (1875) e "Ocidentais" (1880). Contudo, o trio fora ofuscado pela prosa realista do autor, que foi recebida com entusiasmo pela crítica e pelo público no final do século XIX. Em 1901, o escritor publicou "Poesias Completa", coletânea com seus principais trabalhos neste gênero literário. Doze poemas de "Crisálidas" foram publicados novamente, com algumas alterações, em "Poesias Completa".

Os poemas originais de "Crisálidas" são: "Musa Consolatrix" (1864), "Stella" (1862), "Lúcia" (1860), "O Dilúvio" (1863), "Visio" (1864), "Fé" (1863), "A Caridade" (1861), "A Jovem Cativa" (1861), "No Limiar" (1863), "Quinze Anos" (1860), "Sinhá" (1862), "Erro" (sem data), "Elegia" (sem data), "Aspiração" (sem data), "Embirração" (sem data), "Cleópatra - Canto de um Escravo" (sem data), "Os Arlequins" (1864), "Epitáfio do México" (1862), "Polônia" (1982), "As Ondinas" (sem data), "Maria Duplessis" (1859), "Horas Vivas" (1864), "As Rosas" (sem data), "Os Dois Horizontes" (1863), "Monte Alverne" (1858), "As Ventoinhas" (1863), "Alpujarra" (1862) e "Versos a Corina" (1864).

O prefácio foi escrito em prosa lírica pelo poeta Caetano Filgueiras, amigo do jovem Machado. Nesta parte do livro, Filgueiras explica sua relação com o autor da obra e rasga elogios a ele. O encerramento do livro é feito por um conjunto de poesias de Machado que são numeradas por capítulos.

Ler a poesia de Machado de Assis é como ver uma partida de futebol em que Pelé esteja em campo, mas atue como goleiro ou zagueiro. "Qual a graça nisso?", podem se perguntar as pessoas. Respondo sem hesitação: nenhuma! Por mais que Pelé e Machado se esforcem para agradar o público, fora de suas melhores posições eles se tornam convencionais e sem brilho. Em minha opinião, Joaquim Maria Machado de Assis não deveria sair da prosa, assim como Edson Arantes do Nascimento jamais poderia atuar longe do ataque.

Juro que não consegui achar beleza ou graça em nenhuma das poesias de "Crisálidas". Elas são típicas criações da segunda-fase do Romantismo. Estão ali os cantos aos primeiros amores do poeta, a idealização da mulher amada, o louvor à natureza, o saudosismo de um passado idílico, citações patriotas de momentos históricos (do exterior), referências à morte e exaltação do tédio e da introversão do poeta. Ou seja, o que temos neste livro é um conjunto amplo de temas abordados pelo autor. Essa característica torna a obra mais plural, porém contribui para não deixá-la impactante nem marcante.

Machado de Assis, como a maioria dos poetas românticos, abre mão da forma para ressaltar o conteúdo de seus poemas. O próprio Caetano Filgueiras cita esta característica no prefácio da obra: "Qual o sistema métrico que adotou? Nenhum. (...) A escola de Machado de Assis é o sentimento; Seu sistema de inspiração: sua musa liberdade. Tríplice liberdade: liberdade na concepção; liberdade na forma; e liberdade na roupagem. Tríplice vantagem - originalidade, naturalidade e variedade".

A poesia mais famosa deste livro é "Versos a Corina", na qual o jovem Machado se declara apaixonadamente para uma dama da corte carioca. Os biógrafos do escritor não conseguiram identificar quem era esta mulher. Assim, preferiram apontá-la como sendo uma idealização do poeta e não uma pessoa real, de carne e osso. Machado fez, ao longo das décadas seguintes, outros poemas a tal "Corina", que se tornou sua musa inspiradora. A seguir, vai a versão original e integral da primeira poesia à Corina, conforme publicada em 1864.

"Versos a Corina" (Machado de Assis)

Tu nasceste de um beijo e de um olhar. O beijo

Numa hora de amor, de ternura e desejo,

Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor,

Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor;

Depois, depois vestindo a forma peregrina,

Aos meus olhos mortais, surgiste-me, Corina!

De um júbilo divino os cantos entoava

A natureza mãe, e tudo palpitava,

A flor aberta e fresca, a pedra bronca e rude,

De uma vida melhor e nova juventude.

Minha alma adivinhou a origem do teu ser:

Quis cantar e sentir; quis amar e viver;

A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura,

Palpitou, reviveu a pobre criatura;

Do amor grande, elevado, abriam-se-lhe as fontes;

Fulgiram novos sóis, rasgaram-se horizontes;

Surgiu, abrindo em flor, uma nova região;

Era o dia marcado à minha redenção.

Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim:

Corpo de fascinar, alma de querubim;

Era assim: fronte altiva e gesto soberano,

Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano,

Em olhos senhoris uma luz tão serena,

E grave como Juno, e bela como Helena!

Era assim, a mulher que extasia e domina,

A mulher que reúne a terra e o céu: Corina!

Neste fundo sentir, nesta fascinação,

Que pede do poeta o amante coração?

Viver como nasceste, ó beleza, ó primor,

De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.

Viver, — fundir a existência

Em um ósculo de amor,

Fazer de ambas – uma essência,

Apagar outras lembranças,

Perder outras ilusões,

E ter por sonho melhor

O sonho das esperanças

De que a única ventura

Não reside em outra vida,

Não vem de outra criatura;

Confundir olhos nos olhos,

Unir um seio a outro seio,

Derramar as mesmas lágrimas

E tremer do mesmo enleio,

Ter o mesmo coração,

Viver um do outro viver...

Tal era a minha ambição.

Donde viria a ventura

Desta vida? Em que jardim

Colheria esta flor pura?

Em que solitária fonte

Esta água iria beber?

Em que encendido horizonte

Podiam meus olhos ver

Tão meiga, tão viva estrela,

Abrir-se e resplandecer?

Só em ti: — em ti que és bela,

Em ti que a paixão respiras,

Em ti cujo olhar se embebe

Na ilusão de que deliras,

Em ti, que um ósculo de Hebe

Teve a singular virtude

De encher, de animar teus dias,

De vida e de juventude...

Amemos! diz a flor à brisa peregrina,

Amemos! diz a brisa, arfando em torno à flor;

Cantemos esta lei e vivamos, Corina,

De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.

A poesia que mais gostei foi "Embirração". Nela, de forma bem-humorada, Machado declara repúdio aos versos alexandrinos, ao mesmo tempo em que os usa para compor sua obra. Hilário! Repare que mesmo criticando o formalismo poético, o autor soube construir o poema com uma estrutura rígida (tanto em relação às sílabas métricas quanto às rimas). Este é o verdadeiro Machado de Assis: irônico e crítico, até mesmo fazendo poesia.

"Embirração" (Machado de Assis)

A balda alexandrina é poço imenso e fundo

Onde poetas mil, flagelo deste mundo,

Patinham sem parar, chamando lá por mim.

Não morrerão, se um verso, estiradinho assim,

Da beira for do poço, extenso como ele é,

Levar-lhes grosso anzol; então eu tenho fé

Que volte um afogado, à luz da mocidade,

A ver no mundo seco a seca realidade.

Por eles, e por mim, receio, caro amigo;

Permite o desabafo aqui, a sós contigo, Que à moda fazer guerra, eu sei quanto é fatal; Nem vence o positivo o frívolo ideal; Despótica em seu mando, é sempre fátua e vã, E até da vã loucura a moda é prima-irmã: Mas quando venha o senso erguer-lhe os densos véus, Do verso alexandrino há de livrar-nos Deus. Deus quando abre ao poeta as portas desta vida, Não lhe depara o gozo e a glória apetecida; E o triste, se morreu, deixando mal escritas Em verso alexandrino histórias infinitas, Vai ter lá noutra vida insípido desterro, Se Deus, por compaixão, não dá perdão ao erro; Fechado em quarto escuro, à noite não tem luz, E se é cá do meu gosto o guarda que o conduz, Debalde, imerso em pranto, implora o livramento; Não torna a ser, aqui, das Musas o tormento; Castigo alexandrino, eterna solidão, Terá lá no desterro, em prêmio da ilusão; Verá queimar, à noite, as rosas esfolhadas, Que a moda lhe ofertara, e trouxe tão cuidadas, E ao pé do fogo intenso, ardendo em cruas dores, Verá que versos tais são galhos, não dão flores; Que, lendo-os a pedido, a criatura santa, A paciência lhe foge, a fé se lhe quebranta, Se vai dum verso ao fim; depois... treme... vacila... Dormindo, cai no chão; mais tarde, já tranqüila, Sonha com verso-verso, e as ilusões floridas, Risonhas, vem mostrar-lhe as largas avenidas Que o longo verso-prosa oculta, do porvir! Sonhando, ao menos, pode amar, gozar, sentir, Que um sono alexandrino a deixa ali em paz, Dormir... dormir... dormir... erguer-se, enfim, vivaz, Bradando: “Clorofórmio! O gênio que te pôs, A palma cede ao metro esguio, teu algoz!” E aspiras, vate, assim, da glória ao ideal? Triste e funesto afã!... tentativa fatal! Nesta sede de luz, nesta fome de amor, O poeta corre a estrela, à brisa, ao mar, à flor; Quer ver-lhe a luz na luz da estrela peregrina, Quer-lhe o aroma sentir na rosa da campina, Na brisa o doce alento, a voz na voz do mar; Ó inútil esforço! Ó é ímprobo luta! Em vez da luz, do aroma, ou do alento, ou da voz, O verso alexandrino, o impassível algoz!... Não cantas a tristeza, e menos a ventura; Que em vez do sabiá gemendo na espessura, Imitarás, no canto, o grilo atrás do lar; Mas desse estreito asilo, escuro e recatado, Alegre hás de fugir, que erguendo altivo brado, A lírica harmonia há de ir-te despertar! Verás de novo aberta a copiosa fonte! Da poesia verás tão lúcido o horizonte, Que a mente não calcula, e onde se perde o olhar, Que nas asas do gênio, a voar pelo espaço, Da perna sacudindo o alexandrino laço, Hás de a mão bendizer que o soube desatar. Do precipício foge, e segue a luz secreta, Essa estrela polar dos sonhos do poeta; Mas, noutro verso, amigo, onde ao mago ideal A música se ligue, o senso e a verdade; — Num destes vai-se, a ler, da vida a imensidade, Da sílaba primeira à sílaba final! Meu Deus! Esta existência é transitória e passa; Se fraco fui aqui, pecando por desgraça; Se já não tenho jus ao vosso puro amor; Se nem da salvação nutrir posso a esperança, Quero em chamas arder, sofrer toda a provança

— Ler verso alexandrino... Oh! isso não, Senhor!

Resumindo: a poesia de Machado de Assis é boa? Não. É ruim, então? Também não! Portanto, o que ela é? Ela é apenas convencional. Se é para ler um poeta romântico, prefiro as obras de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo e de Casemiro de Abreu. Se é para lermos Machado, vamos direto à prosa. Neste outro gênero literário, Machado é sublime. E por falar nisso, o próximo livro que iremos analisar deste autor é "A Mão e a Luva", um romance romântico. Ou seja, ainda permanecemos na fase romântica, mas agora vamos para a narrativa em prosa. Ufa!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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