• Ricardo Bonacorci

Filmes: Clash - Fragmento da história recente do Egito


Semana passada, fui à estreia de "Clash" (Eshtebak: 2016) no circuito nacional. Esse filme foi o representante egípcio no Oscar de 2017. Dirigido e roteirizado por Mohamed Diad, de "Decor" (Decor: 2014) e "Cairo 678" (678: 2011), o longa-metragem acabou preterido pela academia de cinema de Los Angeles, não chegando a ficar entre os finalistas da categoria de melhor produção estrangeira. Isso não impediu que o filme de Diad recebesse muitos elogios em vários países onde foi exibido.

O roteiro de "Clash" aborda o período tumultuado que o Egito passou em 2013. Para entender o longa-metragem, é preciso saber o que se passava no cenário político e social do país africano naquele ano. Para quem não lembra ou não soube o que se passou ali, o longa-metragem faz uma rápida contextualização. No início do filme, apresenta-se, através de legendas, o panorama do Egito entre os anos de 2011 e 2013. Assim, o expectador rapidamente entra no clima da produção.

Em 2011, uma revolta popular, inspirada na Primavera Árabe que tomou conta de vários países islâmicos naquele ano, levou a deposição do ditador egípcio. Hosni Mubarak estava no poder havia três décadas e tinha o apoio das Forças Armadas. O resultado mais prático do fim do regime político foi o estabelecimento de eleições gerais para a presidência, que ocorreram no ano seguinte. A expectativa da nação inteira era que ela se tornasse, enfim, uma democracia sólida e inclusiva e não um país ditatorial e militarizado como nas últimas décadas.

O presidente eleito, em 2012, foi Mohamed Morsi. O problema do novo mandatário é que ele era ligado à Irmandade Muçulmana, partido político de ideias radicais que pretendia transformar o Egito em um país islâmico. Ou seja, os novos líderes políticos eram, paradoxalmente, contra a vontade de grande parte da população. A Irmandade Muçulmana não queria saber dos princípios democráticos e laicos. Ela queria implementar uma teocracia no país.

No início de 2013, medidas mais contundentes e radicais de Morsi visando à instauração de um governo religioso foram aprovadas pelo parlamento egípcio. Neste momento, parte da população egípcia voltou às ruas para protestar e pedir a renúncia do presidente. Muitos clamavam pela volta das Forças Armadas ao comando da nação. No meio do caos social que o país se encontrava, os militares agiram rapidamente. Eles destituíram Mohamed Morsi e colocaram uma junta militar no poder.

Aí, as ruas do Cairo se transformaram em campo de batalha. O país praticamente entrou em guerra civil. O grupo pró-Irmandade Muçulmana enfrentava o grupo Pró-Militares em sangrentos conflitos pela cidade. No meio de tudo, a polícia tentava, sem sucesso, apaziguar os ânimos dos revoltados.

É esse o cenário de "Clash". O filme se passa exatamente no período mais tenso de 2013, durante a onda de protestos populares do Egito. Dois jornalistas da Associated Press que cobriam uma passeata pacífica foram presos pelos policiais, que acreditavam que eles eram espiões internacionais. O que chamou a atenção dos agentes de segurança foram as câmeras que a dupla carregava.

Colocados em um camburão, os jornalistas alegam inocência e pedem ajuda à população que passava pelo local. Os manifestantes que apoiavam os militares, acreditando que os jornalistas eram da Irmandade Muçulmana, começam a atirar pedras na direção do caminhão da polícia. Os policiais entendem que estão sendo atacados e prendem vários manifestantes do grupo Pró-Militares, jogando-os no camburão junto com os jornalistas. Os novos presos são pessoas comuns: famílias inteiras e grupos de amigos. Por isso, há crianças, mulheres e idosos entre os confinados. Logo depois, estoura um violento conflito entre os policiais e os apoiadores da Irmandade Muçulmana, que também passavam pelo local. Novamente, algumas pessoas são presas e atiradas no camburão.

Assim, o interior do caminhão da polícia se torna um local cheio de pessoas que se odeiam. Apoiadores dos militares, partidários dos muçulmanos e jornalistas (vistos como espiões estrangeiros por todos) estão em lados opostos. O clima no interior do veículo, entre os presos, é muito tenso. Enquanto eles brigam entre si, também são alvos da ira dos policiais, que exigem obediência absoluta. Isso tudo ocorre enquanto as ruas do Cairo passam por violentas brigas, presenciadas por todos.

"Clash" se passa inteiramente dentro do camburão. A imagem é sempre da perspectiva interna do veículo, do local onde os presos estão confinados. O filme começa e termina com esta tomada, sem mudar em nenhum momento. Até mesmo quando se mostra cenas da cidade e dos policiais, a câmera fica dentro do caminhão da polícia. Essa é a primeira decisão ariscada e bem-sucedida do diretor-roteirista. Ao restringir o cenário da produção para o interior do veículo, Mohamed Diad corria o risco de tornar seu filme chato e parado. Não é o que acontece na prática. As quase duas horas de longa-metragem são intensas e viscerais. A câmera agitada, a falta de enquadramento e os sucessivos acontecimentos, que mudavam a dinâmica do enredo o tempo inteiro, transformam esta produção em um drama tenso e muito movimentado. A plateia praticamente não pode piscar os olhos com risco de perder alguma coisa.

O recurso cinematográfico de filmar segundo a perspectiva dos prisioneiros faz com que o expectador tenha a sensação de estar participando do filme. É como se fossemos um dos prisioneiros, o que aumenta nossa angústia e nossa apreensão. Por isso, não se surpreenda se você, durante a sessão, tiver emoções parecidas às das personagens: claustrofobia, sede, fome, frio, medo, raiva, etc. Outros dois elementos que ajudam a aumentar a sensação de pânico da plateia é a ausência de música em boa parte do longa-metragem e a escuridão, típica do camburão. Por falar nisso, repare na fotografia do filme. As cenas noturnas são magníficas. O jogo de luzes contrastando claro e escuro dão um aspecto, ao mesmo tempo, nostálgico e de suspense à trama.

O roteiro é espetacular. Ele parece que foi produzido depois de muito estudo e análise. Além da história geral (do conflito entre os dois lados políticos), o filme mostra os dramas e as angústias pessoais de cada personagem. São aproximadamente 15 pessoas presas no camburão. Há o pai idoso que tenta proteger a filha adolescente; uma dupla de amigos que se torna inimiga quando um descobre que o outro está namorando sua irmã; a família inteira que é presa; o morador de rua que é detido por engano; um ator frustrado que sonha com uma teocracia islâmica; e o jornalista egípcio que cresceu nos Estados Unidos e viajou para seu país natal para fazer a cobertura dos conflitos políticos.

A cada dez ou quinze minutos, os acontecimentos no interior do camburão mudam, jogando os personagens de um lado para outro da história. Ora eles se unem, ora brigam, em um vaivém interminável. É tanta confusão que, no início, cheguei a rir do que estava ocorrendo ali. Trata-se, obviamente, de um humor negro. O fato dos presos não saberem identificar, na maioria das vezes, de quais lados estavam os protestantes nas ruas indica o quanto era despropositada a briga entre eles. Nem mesmo Franz Kafka conseguiria produzir uma trama tão absurda. Absurda, mas ao mesmo tempo muito verossímil. Afinal, quem disse que no meio de uma guerra civil existe lógica?! Em um determinado instante do filme, até mesmo policiais foram jogados no camburão junto com os presos, potencializando a confusão. Hilário!

De certa maneira, o que estava acontecendo no interior do caminhão da polícia era um microcosmo do que estava se passando no Egito como um todo. Compreender as reações dos prisioneiros (e dos policiais) é entender o que ocorria com a população daquele país durante o momento histórico mais turbulento das últimas três décadas.

A sequência de absurdos progride até culminar em um final na qual o grupo de presos não tem saída. Parece que eles se tornaram inimigos de todo o país: tanto da polícia quanto dos dois grupos de protestantes, que acham sempre que eles são do grupo oposto. O desfecho, como não poderia ser diferente em se tratando de um conflito civil violento e irracional, é trágico. Apesar da fatalidade do destino das personagens, o final possui também elementos poéticos. O que dá um lirismo às cenas finais é a forma como o diretor filmou os acontecimentos derradeiros. Aqui chegamos ao auge da fotografia e dos inusitados enquadramentos de câmera.

"Clash" é um filme espetacular. Forte, brutal, visceral, movimentado, dramático e violento. Isso tudo com algumas doses de humor. Este é daquele tipo de produção marcante. Além de ser uma aula de História, o longa-metragem consegue mexer com a plateia de maneira pouco usual.

Agora entendo o inconformismo dos egípcios quando este filme acabou ficando fora dos finalistas do Oscar. Realmente, "Clash" merecia melhor sorte na escolha da academia norte-americana. Em minha opinião, o longa-metragem de Mohamed Diad é superior, por exemplo, ao "Apartamento" (Forushande: 2016), produção do iraniano Asghar Farhadi que venceu o Oscar.

Veja o trailer de "Clash":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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