• Ricardo Bonacorci

Filmes: O Cidadão Ilustre - Debate literário no cinema argentino


Na semana retrasada, fui ao Caixa Belas Artes para assistir à estreia nos cinemas brasileiros do filme argentino "O Cidadão Ilustre" (El Ciudadano Ilustre: 2016). Esta comédia dramática representou seu país no Oscar do ano passado na categoria Melhor Filme Estrangeiro. O longa-metragem participou dos Festivais de Toronto e do Rio de Janeiro em 2016, recebendo muitos elogios tanto da crítica quanto do público. O filme também teve uma das maiores bilheterias da Argentina no ano passado.

A direção é de Mariano Cohn e Gáston Duprat, jovens cineastas que já mostraram seus valores. "Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto" (Querida, Voy a Comprar Cigarrillos y Vuelvo: 2011) e "O Homem ao Lado" (El Hombre de Al Lado: 2009) são os longas-metragens anteriores da dupla. "O Cidadão Ilustre", entretanto, está evidentemente em um patamar bem superior aos trabalhos antecessores de Cohn e Duprat. A nova produção que chega agora aos cinemas brasileiros também contou com as excelentes participações de Andrés Duprat, irmão de Gáston, e de Oscar Martinez. O primeiro foi o responsável pela produção do roteiro, enquanto o segundo foi o ator principal do filme.

"O Cidadão Ilustre" começa com a apresentação da cerimônia de entrega do Nobel de Literatura. O premiado da vez é o escritor argentino Daniel Mantovani (interpretação de Oscar Martinez), que está radicado na Europa há quase quarenta anos. Ele deixou seu país ainda jovem e nunca mais regressou nem mesmo para visitar os familiares. Apesar da distância geográfica, a literatura de Mantovani está baseada totalmente em sua terra natal. Em seus livros, ele descreve o atraso, a ignorância, a violência, a pobreza, o isolamento e os peculiares hábitos de seus conterrâneos, moradores do remoto interior argentino. Segundo o autor, enquanto ele conseguiu sair da Argentina, seus personagens estão eternamente presos aos pequenos e rústicos povoados interioranos do país.

No discurso de "agradecimento" do Nobel, realizado na academia sueca, Daniel Mantovani provoca um mal-estar generalizado. A plateia e os presentes à cerimônia ficam estarrecidos com o comportamento e as palavras proferidas pelo escritor. O argentino acusa aqueles que estão entregando o prêmio de estarem prejudicando seu trabalho literário. O recebimento do Nobel é a sentença de morte do autor e o fim de sua liberdade criativa. Uma vez transformado em um escritor clássico, Mantovani sente que ficará preso para sempre em um rótulo artístico ou em estereótipos literários. A cena é hilária! Ao invés de ficar feliz e orgulhoso com o prêmio, o argentino está triste e decepcionado.

Nos anos seguintes, o vencedor da honraria máxima da literatura mundial recebe infinitos convites para participar de palestras, eventos, noites de autógrafos e debates literários nos quatro cantos do mundo. Muitas editoras também o assediam em busca de novos trabalhos para serem publicados. Com um espírito introspectivo e uma rotina contrária aos holofotes, Mantovani recusa todas as propostas, preferindo viver recluso em sua mansão em Barcelona. Além disso, ele não possui mais nenhuma inspiração para escrever. Parece que sua tristeza por ter recebido o Nobel é legítima. Ele se sente entediado com sua vida e sem criatividade para produzir novos livros.

Neste momento, um convite entre as dezenas de recebidos semanalmente chama sua atenção. A pequena cidade de Salas, no interior da Argentina, organizou um evento de homenagem a Daniel Mantovani e quer sua presença ali. O prefeito da localidade deseja entregar o prêmio de Cidadão Ilustre ao seu conterrâneo mais famoso. Foi em Salas onde o escritor nasceu e foi criado antes de emigrar para a Europa. Por isso, Daniel fica tentado a regressar pela primeira vez. O autor tem curiosidade para saber como estão seus antigos amigos e sua cidade natal. Para surpresa da sua empresária, Mantovani, enfim, aceita um convite. Porém, o destino é a pitoresca cidade argentina.

Em Salas, Daniel Mantovani é, logo de cara, recebido com pompa e alegria. Ele é uma personalidade querida e admirada pela população local. Ele se esforça para agradar a todos e os moradores do município também se dedicam a prestar várias homenagens ao seu conterrâneo mundialmente conhecido. Ao longo da semana que o escritor ficará no povoado, haverá uma intensa programação cultural em volta dele.

Entretanto, à medida que os dias passam, as diferenças culturais entre o escritor e os habitantes de Salas ficam cada vez mais nítidas. Aí começam os problemas. Um a um, os moradores do povoado vão desagradando Daniel Mantovani e, ao mesmo tempo, Mantovani vai causando transtornou à cidade. O que era para ser uma semana de alegria e festa se transforma subitamente em um drama violento e perigoso. Sem querer, rancores, invejas e temas mal resolvidos do passado, que até então estavam adormecidos, voltam à tona de maneira intensa e descontrolada.

"O Cidadão Ilustre" é um belo filme. Durante suas quase duas horas de produção, é possível se emocionar com o drama do protagonista e rir das várias situações inusitadas proporcionadas pela estada do escritor em sua pequenina cidade natal. O desfecho é tenso e enigmático, prendendo a plateia na cadeira da sala de cinema.

Há também vários momentos simbólicos durante o longa-metragem. O principal deles é quando o escritor precisa rasgar páginas de um dos seus livros para fazer uma fogueira no meio da estrada, salvando-se de morrer de frio (demonstrando o valor da literatura para aquela região). Nesta mesma cena, o motorista de carro responsável pela viagem a Salas pede para o conceituado autor contar uma de suas histórias, mas não acha nenhuma graça no que ouve (indicando os problemas futuros que o escritor terá com os moradores da localidade). Outra cena interessante é quando o antigo amigo de Daniel assa cabeças de carneiros para o jantar de confraternização, provocando certo estranhamento no convidado (incompatibilidade cultural entre o visitante e os anfitriões).

E o que falar da cena inicial do filme? Ela é primorosa! O discurso de Daniel Mantovani na academia sueca durante a entrega do Nobel é memorável. Além de muito engraçada, ela é bastante reveladora sobre os dramas dos escritores. Trata-se de uma aula de literatura. Na verdade, o filme inteiro debate pontos muitos interessantes sobre a produção literária. Durante o longa-metragem, abordam-se temas como o pacto ficcional, a inspiração criativa, o desenvolvimento de temas narrativos, a criação de um estilo próprio, o desenvolvimento das personagens e o processo de canonização do autor. É, portanto, um prato cheio para os amantes das letras.

O maior mérito deste filme está na qualidade do roteiro de Andrés Duprat. O jovem roteirista, responsável por "Querida, Vou Comprar Cigarros e Já Volto" e "O Homem ao Lado" e parceiro inseparável dos diretores Mariano Cohn e Gáston Duprat, produz uma trama intrigante, saborosa e engraçada. Ao mesmo tempo, ela é ácida, tensa e desconfortável para o espectador. O choque cultural e ideológico entre os moradores da cidade de Salas e o escritor famoso é o que move toda a narrativa. Temos, assim, um embate nada saudável da tradição, do regionalismo, do isolamento e da ignorância contra a modernidade, o universalismo, o cosmopolitismo e a cultura.

Oscar Martinez está magnífico em "O Cidadão Ilustre". Ele conquistou o prêmio de melhor ator no festival de Veneza do ano passado com a interpretação de Daniel Mantovani. Martinez tem se consolidado, nos últimos anos, como o principal ator do cinema argentino, deixando um pouco Ricardo Darín para trás. Além de fazer várias e ótimas produções, como "Kóblic" (2016), "Paulina" (La Patota: 2015) e "Relatos Selvagens" (Relatos Salvajes: 2014), Martinez, um conhecido ator da televisão e do teatro argentino, tem escolhido muito bem seus recentes papéis no cinema. Ele está tão bem como Daniel Mantovani que, no meio do filme, esquecemos que se trata de uma ficção e acreditamos estar assistindo a um documentário.

Se você gosta de cinema argentino e de literatura, "O Cidadão Ilustre" é um longa-metragem imperdível. Se você gosta de uma boa comédia-dramática, está é a melhor opção em cartaz no cinema no momento. Confira esta produção porque ela é excelente.

Veja o trailer de "O Cidadão Ilustre":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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