• Ricardo Bonacorci

Filmes: Corra! - Um terror original e inteligente


Há quem diga que os filmes de terror são, na maioria das vezes, muito parecidos. Para os adeptos dessa teoria, as tramas deste gênero giram sempre em torno de uma residência assombrada, uma alma penada que invade corpos inocentes, rituais ou jogos fantasmagóricos feitos por adolescentes, bonecas demoníacas que ganham vida, crianças enigmáticas, vídeos perturbadores e serial killers que atacam jovens em viagens de férias. Até mesmo eu, que sou um grande fã deste tipo de produção, preciso admitir certa dose de verdade nesta avaliação. É muito difícil fugir destes estereótipos quando se analisa as opções que entraram em cartaz nos cinemas nos últimos anos.

Por isso, foi com alegria e (admito) surpresa que, na semana retrasada, saí da sessão de estreia de "Corra!" (Get Out: 2017). Este thriller psicológico é extremamente original e inteligente. Apesar de ter sido produzido com um orçamento baixíssimo para os padrões de Hollywood (aproximadamente US$ 4,5 milhões), o resultado final de "Corra!" é empolgante. Não é à toa que o longa-metragem recebeu muitos elogios da crítica e teve uma boa bilheteria nos países onde já foi lançado. Seu faturamento até o momento está na casa dos US$ 180 milhões. Um lucro nada desprezível para seus produtores, hein?

"Corra!" marcou a estreia na direção do ator cômico Jordan Peele. Admito que é surpreendente, em um primeiro momento, vê-lo se aventurando (e sendo bem-sucedido) pelos caminhos do suspense e do terror. Não deve ser nada fácil para alguém famoso nos palcos de stand-up comedy migrar para o drama na telona. Peele também foi o responsável pelo desenvolvimento do ótimo roteiro do filme. O elenco foi composto essencialmente por atores e atrizes novatos (Daniel Kaluuya, Caleb Landry Jones e Lil Rel Howery), estreantes (Allison Williams) e do segundo escalão do cinema norte-americano (Catherine Keener e Bradley Whitford).

Com uma hora e quarenta e cinco minutos, "Corra!" foi filmado muito rapidamente. As gravações ocorreram em menos de um mês nas cidades de Fairhope e Mobile, no Alabama. A velocidade de produção e a escolha do set de filmagens, assim como a escalação de atores desconhecidos do grande público, se deram pelo baixo orçamento que Jordan Peele teve à sua disposição. Curiosamente, as limitações causadas pela baixa verba não se fazem notar durante a sessão. Neste quesito, o trabalho do diretor é impecável. O filme foi muito bem produzido e seu roteiro consegue criar uma forte tensão no expectador. Tirando um ou outro detalhe técnico (especificamente no quesito efeito visual), a impressão do público é que "Corra!" esteja mais próximo de uma superprodução do que de um filme independente.

O enredo deste longa-metragem se passa em um final de semana. Chris Washington (interpretado por Daniel Kaluuya) é um jovem negro que namora Rose Armitage (Allison Williams), uma moça rica e branca. Depois de cinco meses juntos, o casal decide viajar para a casa de campo da família dela, localizada em uma região remota. Aproveitando o encontro, Rose irá apresentar pela primeira vez o namorado negro aos pais, Missy e Dean Armitage (Catherine Keener e Bradley Whitford, respectivamente). Antes da viagem, Chris fica preocupado com a receptividade dos sogros, mas a moça demonstra muita tranquilidade. Ela afirma que seus pais não são racistas. "Ele inclusive votou no Obama", revela a jovem otimista.

Ao chegar à residência dos sogros, o namorado se sente desconfortável. Há algo de muito estranho naquele local e com aquela gente. O Sr. e a Sra. Armitage tentam ser cordiais e simpáticos com Chris, mas acabam sempre assustando o convidado com seus atos e com comentários enigmáticos. Os funcionários da casa são um caso à parte. Eles são todos negros e parecem um tanto robóticos. O visitante fica, então, em dúvida se ele está sendo paranoico com os anfitriões ou se realmente está correndo perigo ao visitar àquelas pessoas tão esquisitas.

O clima do filme é de total tensão. A plateia fica nervosa do início ao final de "Corra!". É impossível piscar os olhos da tela enquanto não descobrimos o que está se passando naquela estranha casa do interior dos Estados Unidos. E uma vez descoberto o enigma central da histórica, a trama só aumenta em dramaticidade. Ou seja, prepara-se para quase duas horas de fortes emoções.

Na primeira metade da sessão, "Corra!" é mais um longa-metragem de suspense psicológico do que de terror. Afinal, queremos porque queremos compreender os enigmáticos acontecimentos vivenciados por Chris. Uma vez revelado o segredo do filme, a narrativa muda totalmente de patamar. Ela passa, a partir daí, a ser mais efetivamente um terror. Não faltam cenas e momentos de sustos e de medo. A maioria destas sensações é provocada mais pelo estado de espírito de tensão do expectador do que por instantes realmente decisivos ou de perigos sofridos pelo protagonista.

O principal ponto positivo de "Corra!" é seu roteiro muito bem construído. Juro que não sei se Jordan Peele está melhor como diretor ou como roteiristas. Nas duas funções, ele está primoroso nesta produção. A trama é muito bem costurada do início ao fim e foi muito bem executada no vídeo. Cada personagem, cada cena e cada situação, por mais banais que possam parecer em um primeiro momento, têm funções relevantes para o contexto da história. Nem mesmo a falta de verossimilhança no segredo da família Armitage (diria que ele é um tanto escrachado) nem a atuação limitada de alguns atores secundários prejudica o filme.

Gostei também das sucessivas reviravoltas na trama ocorridas na sequência final do longa-metragem. Quando pensamos que "Corra!" irá terminar com a "vitória" de um dos lados, somos imediatamente surpreendidos, mudando nossa opinião. E, aí, novas surpresas acontecem e outras mais aparecem, o que altera nossa expectativa pelo desfecho. Só é possível precisar a "vitória" na última cena. Antes disso, não queira fazer prognósticos antecipados.

A boa trilha sonora, a temática diferenciada (é raro alguém abordar o racismo sob a perspectiva do filme), o contraditório clima de leveza e tensão da narrativa e algumas cenas de humor (principalmente as protagonizadas por Lil Rel Howery, que interpreta um segurança de aeroporto, amigo de Chris) contribuem para tornar "Corra!" uma ótima opção em cartaz. Quem gosta de filmes de suspense e de terror, este é um prato cheio. Além de muito original, ele é muito divertido e inteligente.

Veja o trailer de "Corra!":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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