• Ricardo Bonacorci

Desafio Literário de junho/2017: Régine Deforges


Terminado maio, vamos alterar o foco do Desafio Literário. Se no mês passado analisamos, no Blog Bonas Histórias, as obras e a carreira de Machado de Assis, agora, em junho, a proposta é estudarmos Régine Deforges. Trocamos, portanto, um autor brasileiro do século XIX por uma autora europeia do século XX. Sai o realismo sul-americano e entra o pós-modernismo francês. Deixamos um pouco de lado a literatura feita por um homem e mergulhamos nas obras de uma feminista militante. Esta é a diversidade que tanto gosto do Desafio Literário.

Régine Deforges ficou mundialmente famosa durante a década de 1980 e 1990. Por isso, é possível que muitas de suas obras sejam desconhecidas do público mais jovem. Esta característica também prejudica o leitor no momento de procurar os livros da autora no mercado. As publicações de Deforges não estão no catálogo tradicional das livrarias nem das editoras. Alguns títulos possuem apenas edições de algumas décadas atrás. Para comprá-los, é necessário reservá-los às editoras internacionais ou recorrer aos sebos das grandes cidades, um calvário que muitos leitores não estão dispostos a passar. Foi o que vivenciei pessoalmente em maio. Agora, posso dizer que estou com todos os livros que serão lidos ao longo do mês de junho em mãos (ufa!).

A história mais famosa de Régine Deforges é a série "A Bicicleta Azul", composta por vários livros. A trilogia inicial da coleção foi escrita na primeira metade da década de 1980 e se tornou um best-seller internacional quase que instantaneamente. A autora também foi uma importante contista. Sua especialidade eram as histórias eróticas. Suas obras neste estilo sofreram com a censura e o boicote das livrarias. O conservadorismo francês nos anos de 1960 e 1970 também atrapalhou muito a escritora no início de sua carreira. Régine era vista como uma despudorada pela sociedade e pelos críticos da época. Apenas muitos anos depois de publicados, os contos eróticos da francesa passaram a ser reconhecidos pelo mercado e pelo público leitor como tendo alguma qualidade.

Nascida em 1935, na pequena cidade de Montmorillon, no interior da França, Régine Deforges se mudou para Paris ainda na adolescência. Apaixonada pela literatura, desde cedo trabalhou como vendedora de livros, encadernadora, editora, patrocinadora de bibliotecas públicas e colecionadora de obras literárias. Sua paixão pelo universo da escrita a fez mergulhar de cabeça neste mercado.

Em 1968, usando o dinheiro do marido industrial, Régine abriu sua própria editora, a Or du Temps. Essa decisão causou certo alvoroço no mercado editorial francês, que naquele momento não estava acostumado com uma mulher à frente dos negócios. O ambiente machista da época não concebia uma mulher empresária neste ramo de atividade. Além disso, ao apostar em títulos polêmicos (com temáticas eróticas e com enredos feministas), Deforges se tornou persona non grata pelas livrarias.

Apesar dos vários inimigos em todos os elos da cadeia de mercado, Deforges conseguiu impor sua marca no universo editorial francês durante a década de 1970. "Irène", por exemplo, um livro erótico do início do século XX, teve sua primeira edição esgotada em menos de 48 horas pela Or du Temps. Contudo, os processos, as multas e a censura da sociedade levaram, ao longo dos anos, a falência da editora de Régine Deforges. Obstinada, a francesa abriu (e fechou) várias outras editoras ao longo de sua vida.

Apesar de muito interessante, essa atuação de Régine Deforges como editora e empresária não será analisada neste Desafio Literário. O foco deste estudo está na atuação autoral da escritora. Assim, seu primeiro livro que será investigado é a novela "O Diário Roubado" (Klick), de 1978. Esta obra é autobiográfica e narra o desaparecimento do diário de Léone, uma moça de quinze anos. Léone é a narradora da trama e o alter ego da escritora (que vivenciou algo parecido quando morava em Montmorillon). Nas páginas do seu caderno, a jovem narrava suas primeiras experiências sexuais, inclusive com uma colega de escola. O homossexualismo da protagonista torna-se, assim, o principal assunto na pequena cidade do interior francês. O forte teor erótico da novela também causou certa polêmica na época do seu lançamento.

Na sequência, vamos ler "A Revolta das Freiras" (Best-Seller), o primeiro romance histórico de Régine Deforges. A obra foi publicada em 1981. Aqui, a autora mantém as cenas quentes de sexo (comuns em "O Diário Roubado" e em seus contos) e acrescenta dois elementos que marcariam sua literatura: a mistura de personagens e acontecimentos reais à ficção (ambientação histórica) e a construção de uma narrativa com intensa violência. Prepara-se porque vai jorrar sangue para todos os lados...

Depois, será lida a trilogia da "A Bicicleta Azul": "A Bicicleta Azul" (BestBolso), "Vontade de Viver" (BestBolso) e "O Sorriso do Diabo"(BestBolso). Os três livros foram lançados, respectivamente, em 1981, 1983 e 1985. Eles representam o que há de melhor na carreira da autora. A trama, ambientada durante a Segunda Guerra Mundial, se tornou um sucesso mundial. O êxito comercial foi tão grande que Régine Deforges escreveu mais cinco livros contando a continuação das aventuras de Léa Delmas, a protagonista da história. É, portanto, uma série que parece não ter fim...

Para encerramos o Desafio Literário, o sexto livro que será lido é “Sob o Céu de Novgorod” (Nova Fronteira), de 1989. Esse é mais um romance histórico de Régine Deforges com muito sexo, violência e uma narrativa que mistura ficção e realidade. Neste sentido, ele se parece muito com "A Revolta das Freiras".

Este é nosso cardápio de leitura para este mês. Confesso que estou excitado para ler Régine Deforges. Enquanto escrevo essas linhas, estou com todos os livros dela diante de mim. Não vejo a hora de começá-los. Para quem está estranhando o fato de eu analisar seis livros (e não os tradicionais cinco como faço normalmente no Desafio Literário), vale aqui uma explicação. A culpa foi da minha empolgação na hora de adquiri-los. Eu errei na contagem e quando vi tinha comprado seis livros ao invés de cinco. Aí, ao invés de descartar um para o Desafio, coloquei todos na lista de leitura. Acredito que não irei me arrepender.

Nas próximas semanas, colocarei aqui as análises de cada um desses livros, reservando um post, no último dia de junho, para a discussão completa do perfil literário de Régine Deforges. Não perca os próximos passos do Desafio Literário.

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#RégineDeforges

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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