• Ricardo Bonacorci

Livros: O Sorriso do Diabo - Parte 3 da série A Bicicleta Azul


Cheguei, enfim, ao livro "O Sorriso do Diabo" (Best Bolso), a terceira parte da série “A Bicicleta Azul”. Esta obra integra o que se convencionou chamar de Trilogia de Régine Deforges. A coleção é também composta por “A Bicicleta Azul” (Best Bolso) e por “Vontade de Viver” (Best Bolso). A história dos três livros é a mesma. Ou melhor, trata-se de uma sequência narrativa. Em todos esses livros, a jovem francesa Léa Delmas está envolvida com os dramas e os horrores da Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, a série começa em 1939 (início do conflito armado) e termina em 1945 (quando a guerra tem seu fim).

"O Sorriso do Diabo" tem 420 páginas. Ele começa exatamente onde o livro anterior, “Vontade de Viver”, terminou. Estamos agora no ano de 1944. A ascensão e o domínio nazista na França (e no mundo) sofrem os primeiros revesses. Os alemães têm importantes derrotas e começam a dar sinais que podem perder a guerra. Assim, a Resistência francesa intensifica suas ações no país. O objetivo é derrubar os governantes apoiados por Hitler.

Novamente, a França é palco de intensos conflitos armados. Neste ambiente caótico, Léa precisa cuidar de sua família, cada vez mais fragmentada. Os Delmas vivem doentes e na pobreza. Ao mesmo tempo, Léa segue sua atuação como uma rebelde (integrante da Resistência) e dedica-se a conquistar o coração de François Tavernier, agora seu grande amor.

Ou seja, a protagonista precisa se virar para atingir todas as suas intenções (contraditórias entre si). Ora ela está batalhando para conseguir dinheiro e comida para a família. Logo depois, Léa está fugindo da SS, a polícia nazista, acusada de conspiração contra o governo. Neste meio tempo, ela larga tudo para viver alguns momentos de sexo selvagem com François.

Esta característica da trama faz com que a jovem esteja em constante deslocamento. A personagem principal vive em um ciclo que se repete interminavelmente: Preocupação com a família - fuga dos nazistas - sexo com Sr. Tavernier - preocupação com a família - fuga dos nazistas - sexo com Sr. Tavernier - preocupação com a família. A correria de Léa de um lado para outro dá dinamismo à trama. Contudo, a história perde em verossimilhança. O leitor deve se perguntar: “Como alguém consegue ficar atravessando ruas, estradas e cidades em meio ao tiroteio sem ser atingido?” e “Como alguém procurado pelos nazistas pode viajar tanto em pleno território inimigo?”. Dúvidas que só a ficção é capaz de produzir.

A fase decisiva da guerra também aumenta a violência. Os perigos são constantes tanto para aqueles que estão na linha de frente do conflito quanto para a população civil. Temos aqui, o ápice da barbárie. Se você achou “Vontade de Viver” um livro forte e com cenas pesadas, prepara-se para a leitura de ”O Sorriso do Diabo”. Muitos personagens importantes morrem de maneira dramática. Algumas destas mortes já são esperadas, contudo, há algumas que surpreendem o leitor. Neste aspecto, ponto positivo para Régine Deforges. Ela não alivia na hora de apresentar os resultados tristes de uma guerra sangrenta que durou aproximadamente seis anos.

Se as mortes conferem uma grande tristeza à história, ao menos é possível se alegrar com a virada do jogo político. Aproveitando a derrota nazista na frente oriental (guerra contra os russos), a Resistência francesa derruba o governo colaboracionista que a Alemanha tinha colocado no poder. O fim da guerra traz paz ao povo e a volta dos franceses exilados. Os patriotas sobem ao poder levando alegria aos franceses.

Neste terceiro romance da série, temos as descrições mais intensas dos acontecimentos políticos e históricos da Segunda Guerra Mundial. O final do conflito é farto em episódios significativos. São vários capítulos com muitas páginas dedicadas às cenas e aos personagens reais. A trama da família e dos amigos de Léa Delmas, em várias oportunidades, fica em um segundo plano em “O Sorriso do Diabo”. Pode ser que esse recurso torne a leitura um pouco enfadonha para alguns leitores mais interessados na narrativa de Léa do que nos episódios reais passados na França durante a metade da década de 1940. Por outro lado, quem gosta de história e dos detalhes das guerras, irá se apaixonar por essas descrições.

Para escrever a série “A Bicicleta Azul”, Régine Deforges precisou fazer uma grande pesquisa histórica sobre o período narrado. A Segunda Guerra Mundial é descrita em detalhes muito bem fundamentados. Por vezes, é difícil saber se este é um romance histórico ou um livro de história com elementos ficcionais.

O momento mais marcante deste livro é uma cena de sexo a três. Léa talvez seja a única protagonista de um romance best-seller que tenha transado com dois homens ao mesmo tempo. Os felizardos são seus amigos de infância: Jean e Raul. Os irmãos, mesmo muito feridos pela guerra, transam com a amiga. Ou seja, a jovem, além de ter vários parceiros sexuais ao longo da série, agora envereda alegremente pelo ménage à trois. Trata-se de uma heroína moderna e corajosa. Impossível não gostar dela.

Enquanto vemos a coleção de parceiros amorosos de Léa se multiplicar, também presenciamos a consolidação do amor dela por François Tavernier. Justamente quando a Srta. Delmas pode ficar com Laurent d'Argilat (afinal, ele regressa da guerra e não está mais casado com Camile), a moça descobre preferir o Sr. Tavernier. Curiosamente, o amor deles é intenso, porém nada romântico. Já vimos que Léa, enquanto esperava pelo amado, fazia sexo com amigos. Ele, por outro lado, deitava-se com prostitutas e com outras militantes políticas durante a guerra. Quando ambos não tinham um parceiro a sua disposição, eles optavam pela masturbação. Ao se encontrarem brevemente no meio do romance, os dois faziam sexo de maneira tórrida e mecânica. Para o casal, não havia qualquer relação entre amor e sexo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa era outra coisa. Simples assim.

Talvez, esta seja a relação amorosa mais liberal estabelecida por um casal de protagonistas na literatura mundial. Os méritos desse fato são todos de Régine Deforges. A autoria francesa teve a audácia de retratar a realidade prática da vida no período da guerra. Ela não fez qualquer concessão ao romantismo idílico e platônico. Possivelmente, depois de se ler a série “Bicicleta Azul”, as personagens românticas se tornem mais artificiais, tolas e sem graça aos olhos dos leitores. Léa Delmas é a representante máxima do feminismo moderno. A personagem age promovendo o "empoderamento" das mulheres, para usarmos um termo em moda atualmente. A moça é contrária ao casamento, à vida doméstica e à maternidade. Nem precisa dizer que ela apoia a liberdade e a revolução sexuais para ambos os sexos.

Além do ménage de Léa, outra cena marcante do livro é o incêndio na casa principal da fazenda em Montillac, local chamado de “Castelo”. De certo modo, a destruição da residência paterna representa o fim definitivo da infância e da adolescência da protagonista. A destruição do lugar onde foi criada significou par Léa a quebra de um importante elo com sua família. Sem o vínculo mais forte com a terra natal e com seus parentes, a moça lança-se em direção ao mundo. Este é o indicativo do que virá mais à frente na série (jornada da personagem principal por outros países). Como integrante da Cruz Vermelha, a jovem desapega-se da família e passa a viver sua vida em prol dos doentes, feridos e necessitados. Agora não é mais as guerras que procuram a jovem. É ela quem procura os locais em conflitos bélicos.

Para terminar, gostaria de abordar algo relativo ao nome da trilogia. A bicicleta azul é o veículo utilizado pela personagem principal para se deslocar durante a guerra. É pedalando, por exemplo, que Léa vai e volta entre o lado do país ocupado pela Resistência francesa e o lado governado pelos nazistas. Curiosamente, a tal bicicleta de Léa só aparece em algumas frases rápidas no terço final da primeira obra. Em minha visão, o veículo de duas rodas não representa algo relevante ou decisivo da trama nesta parte inicial da série. A bicicleta azul ganha um pouco mais de destaque (só um pouco) na segunda parte da trilogia, em "Vontade de Viver". É só no terceiro romance, em "O Sorriso do Diabo", que a magrela ganha um significado maior e simbólico. Ela representa uma dupla contestação por parte da personagem principal. A bicicleta representa uma oposição ao colaboracionismo francês aos nazistas e uma aversão quanto às imposições sexistas da sociedade francesa da década de 1940.

”O Sorriso do Diabo” é um bom livro, porém fiquei frustrado com seu desfecho. Depois de mais de 1.200 páginas e de três romances lidos, a série “A Bicicleta Azul” não termina aqui. “Não é possível!”, pensei. “Não saberei o final da trama”. Régine Deforges encerra ”O Sorriso do Diabo” no meio de uma cena. Para minha surpresa, a cena (e por consequência a história de Léa) continua no livro “Tango Negro”, o primeiro romance da fase internacional da coleção. Ou seja, quem teve a infeliz ideia de chamar os três primeiros livros da série de trilogia se não temos uma conclusão ao final do terceiro romance?! Minha frustração foi perceber que se quisesse saber o desfecho da história, teria que ler mais sete livros da coleção.

Pensando bem, é melhor deixar, definitivamente, a encantadora Léa Delmas de lado. Consigo superar a frustração de viver sem saber o final de sua trama. Vou agora me dedicar a uma nova história de Régine Deforges: “Sob o Céu de Novgorod” (Nova Fronteira). Na próxima segunda-feira, comento a análise deste romance medieval. Até lá!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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