• Ricardo Bonacorci

Livros: Vontade de Viver - Parte 2 da trilogia de Régine Deforges


Minha intenção neste Desafio Literário era ler apenas "A Bicicleta Azul" (Best Bolso), o primeiro livro da trilogia homônima escrito pela francesa Régine Deforges. Porém, quando cheguei ao final desta obra, descobri que ela não tinha um desfecho. A trama continuava em "Vontade de Viver" (Best Bolso). Por isso, li o segundo livro também. Ao fim dele, havia a informação que a história continuava em "O Sorriso do Diabo" (Best Bolso). Assim, li todas as três publicações em sequência, em um total de mais de 1.200 páginas (ufa!). Levei menos de uma semana (seis dias) para concluir esta empreitada (exatamente dois dias por obra).

Com isso, descobri na prática que a série "Bicicleta Azul" é, na verdade, uma história só, dividida em três livros. Por isso, é impossível querer ler só uma de suas partes. Na semana passada, já analisei "A Bicicleta Azul". Agora, neste post, vou debater "A Vontade de Viver", a segunda parte da série. Na semana que vem, a discussão será sobre "O Sorriso do Diabo", a terceira e última obra da trilogia.

"Vontade de Viver" é, como já foi explicado, o segundo livro da coleção "A Bicicleta Azul". A história de Léa Delmas prossegue exatamente onde o livro anterior parou. Com 378 páginas, essa obra começa no ano de 1942 e termina em 1944. Agora temos uma França totalmente ocupada pelas tropas alemãs. Se os nazistas dominam a capital e a maior parte do território francês, há ainda uma região ocupada pela Resistência, grupo de franceses que não desistiu de combater o invasor. Dessa forma, a guerra prossegue, porém ela não é realizada apenas nos campos de batalha e nas trincheiras. A guerra é agora mais sutil e diplomática. Os inimigos convivem lado a lado nas cidades, cada um temendo as ações da outra parte. Por isso, Léa encara desta vez os perigos da delação, o horror da tortura e a violência do novo governo de seu país (controlado pelos alemães). Cada vez mais a jovem e seus familiares estão envolvidos com a Resistência, colocando todos em uma situação de constante alerta e perigo.

Esse livro mostra os momentos mais tensos da ocupação germânica na França. A pegada da narrativa de Régine Deforges se mantém a mesma. Há vários personagens interagindo com a protagonista, muitos deles apresentados no início do primeiro livro da coleção. Isso, por vezes, pode confundir o leitor, que não se recorda de todos eles (Nem pense em começar este livro sem ter lido o anterior, por favor!). Creio que a trama tenha no mínimo duas centenas de personagens. Haja criatividade para construir uma narrativa desta magnitude.

As descrições dos acontecimentos históricos da Segunda Guerra continuam sendo bem explorados. Além disso, a autora prossegue na apresentação de cada uma das experiências sexuais de Léa Delmas. Se a personagem principal não choca mais o leitor por dividir a cama com vários homens (nos acostumamos com a liberdade sexual da protagonista), aqui a moça torna-se mais experiente. Assim, ela promove algumas inovações nesta área, que podem não agradar os mais conservadores. As viagens de Léa pela França também continuam. A moça vai de um lado para outro (em plena Guerra) com a naturalidade de quem passeia no parque ao lado de casa.

O que muda em "Vontade de Viver" em relação ao livro inicial da série é o aumento da violência. A história que iniciou como romântica em “Bicicleta Azul” torna-se agora uma trama de terror. Há cenas fortes e escatológicas de assassinatos, espancamentos, traições, mutilações e estupros, além do detalhamento do que aconteceu com os judeus nos campos de concentração nazistas. Para evitar o progresso alemão, os franceses que ainda combatiam os inimigos também precisaram elevar o tom de violência. Vários atentados são perpetuados pelos revoltosos, tornando a França um verdadeiro barril de pólvora. Como consequência, os partidários da Resistência são duramente perseguidos pelos alemães e pelos seus conterrâneos colaboracionistas. A impressão é que a violência se eleva em um ciclo interminável de barbárie. Cuidado para não apertar muito as páginas desse livro. Há o risco de escorrer sangue por elas.

Diante de tanta adversidade, fica evidente, mais do que nunca, o grau de maturidade atingido por Léa Delmas. Ela amadureceu muito ao longo da trama. Ela não lembra em nada a menina tola, fútil e ingênua do início da "A Bicicleta Azul". Agora ela é uma verdadeira heroína. Integrante ativa da Resistência francesa, ela é uma espiã contra o governo alemão. Essa sua inclinação política faz com que ela se torne alvo cada vez mais direto da repressão da SS, a polícia nazista. Ao mesmo tempo em que atua na política do seu país, Léa também é a responsável por cuidar da fazenda da família em Montillac. A moça cuida das finanças à lavoura, colocando a mão na massa.

Lendo "Vontade de Viver", lembrei muito de "Amor em São Petersburgo" (Best Bolso), romance do alemão Heinz G. Konsalik. A diferença é que a história de Deforges retrata a guerra contra a Alemanha sob o ponto de vista francês, enquanto na obra de Konsalik a narrativa é feita sob o olhar russo. A guerra é a mesma, o que muda é a geografia do conflito (uma obra se passa na Europa Ocidental e a outro na Europa Oriental).

Também é possível, durante a leitura, se lembrar de "E o Vendo Levou..." (Best Bolso), de Margaret Mitchell. Neste caso, Léa pode ser comparada a Scarlett O'Hara (só que uma Scarlett muito mais ousada e lasciva). Régine Deforges, inclusive, faz menção à obra da norte-americana nos três livros da série, mostrando que se inspirou efetivamente nela.

Um detalhe que não pode passar despercebido pelos leitores é em relação aos sentimentos amorosos de Léa. Aqui, ela continua apaixonada por Laurent d'Argilat. O amor platônico se transforma em algo mais carnal. Os dois chegam a fazer sexo, consumando a traição à Camile. Porém, a jovem Delmas também está apaixonada por François Tavernier. Se no primeiro livro ela fazia sexo com ele e aceitava sua companhia porque não tinha mais ninguém interessante ao seu lado, agora a questão muda. Ela se joga nos braços de François porque sente algo forte por ele, apesar de não admitir isso ou de não compreender essa alteração em seus sentimentos. Se em "A Bicicleta Azul" o coração de Léa era 90% de Laurent (sendo apenas 10% de François), em "Vontade de Viver", ele está dividido igualmente. Pode-se declarar um empate técnico: 50% para Laurent e 50% para François.

Muitos leitores (geralmente o público masculino) e alguns críticos literários se aborrecem com Régine Deforges pelo hábito da francesa em descrever detalhadamente as roupas das personagens e os cardápios das refeições realizadas no livro. Sinceramente, isso não me incomodou tanto. Apesar de não apreciar este tipo de aspecto da narrativa, compreendo que tais elementos possam ser importantes para alguns leitores (no caso, leitoras) e, principalmente, para a autora. Como a personagem principal é uma jovem de aproximadamente 20 anos (sonhadora e vaidosa), é natural que se queira mostrar o que ela usava e vestia. Em relação ao cardápio, os protagonistas da trama passaram fome (estamos em período de guerra, lembre-se!). Por isso, me parece natural explicar a alegria que sentiam quando estavam comendo algo diferente do habitual (ou simplesmente quando conseguiam matar a fome e a sede). Léa, no caso, tinha um apetite voraz, chamando a atenção de todos pela sua gula.

"Vontade de Viver" é um bom livro. Se você gostou do anterior, “A Bicicleta Azul”, irá gostar com certeza deste. Gostando de ambos, arrisco a dizer que você irá ler “O Sorriso do Diabo”, a parte derradeira da famosa trilogia de Régine Deforges. A análise de “O Sorriso do Diabo” ficará para quinta-feira desta semana. Não perca o próximo post do Desafio Literário.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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