• Ricardo Bonacorci

Músicas: Los Hermanos - 20 anos da formação da banda


Em 2017, completam-se duas décadas da formação de uma das bandas brasileiras mais icônicas do século XXI. "Los Hermanos" nasceu de uma experimentação artística de estudantes da PUC do Rio de Janeiro. Marcelo Camelo, Rodrigo Barba e Bruno Medina uniram a agressividade dos acordes do Rock N' Roll harcore com a leveza poética das letras românticas. O resultado foi uma música que mistura doses de indie rock, rock alternativo, ska punk, MPB, marchinha de carnaval, Jovem Guarda, Bossa Nova, batidas circenses e samba. Ainda em 1997, os músicos Rodrigo Amarante e Patrick Laplan uniram-se ao trio original da PUC. Em 2001, com a saída de Laplan, "Los Hermanos" passou a se apresentar como um quarteto.

Em 1999, essa combinação musical incomum rendeu os primeiros frutos. A banda assinou seu primeiro contrato profissional com a Abril Music, uma das principais gravadoras do país. O primeiro CD, chamado simplesmente de "Los Hermanos", foi lançado naquele mesmo ano. O álbum contou com a produção de Rick Bonadio (um dos principais reveladores de bandas do país) e teve 14 faixas. Quase todas as composições são de autoria de Marcelo Camelo (apenas "Quem Sabe" e "Onze Dias" são de Rodrigo Amarante).

Em relação à vendagem, este foi o trabalho mais bem-sucedido do grupo. Com mais de 300 mil unidades comercializadas, o álbum de estreia do "Los Hermanos" resultou na conquista do Disco de Ouro. Ele também foi indicado ao Grammy no ano seguinte e conquistou alguns prêmios em âmbito nacional. Os maiores sucessos deste CD inicial foram a melosa canção "Ana Júlia" e o poético single "Primavera".

"Ana Júlia" é até hoje a música mais conhecida do grupo. Recentemente, a revista Rolling Stone Brasil a classificou como uma das 100 principais músicas brasileiras de todos os tempos. Exagero ou não, é inegável que a canção tenha deixado sua marca. É difícil encontrar alguém ainda hoje que não a conheça. Sua letra foi criada por Marcelo Camelo a partir da paixão do produtor da banda por uma estudante universitária.

O sucesso da canção se propagou no exterior. "Ana Júlia" foi gravada em outros idiomas. Os integrantes do "Los Hermanos", porém, nunca gostaram dessa música. A balada romântica em nada combinava com o estilo do grupo e foi uma imposição da gravadora para o lançamento do álbum. Por isso, pouco a pouco, "Ana Júlia" foi sendo desprezada pela banda, que se recusava a cantar seu grande sucesso comercial em shows e na televisão. Veja o videoclipe:

"Primavera" também é uma música calma, cadenciada e romântica. Entretanto, ela se aproxima mais das características do "Los Hermanos" do que "Ana Júlia". Percebe-se um maior esmero na letra e uma diversidade melódica um pouco maior. Há, por exemplo, o acréscimo do saxofone e uma batida mais forte para marcar a passionalidade da letra. Veja o videoclipe de "Primavera":

Deste primeiro álbum, destacam-se também "Descoberta", "Tenha Dó", "Quem Sabe" e "Pierrot". Na verdade, são essas as faixas que têm a cara da banda. Elas possuem uma batida mais forte e uma alta intensidade dramática nas letras. Minha favorita deste CD é "Lágrimas Sofridas". Ouça-a:

O segundo álbum do grupo foi lançado em 2001 e se chamou "Bloco do Eu Sozinho". Com o sucesso inicial, Marcelo Camelo e seus companheiros conseguiram fazer um trabalho totalmente autoral desta vez. Ou seja, eles não aceitaram a inclusão de canções de apelo comercial por parte da gravadora. Além disso, o grupo mudou bastante de estilo. Diminuiu-se consideravelmente o harcore e acrescentaram-se elementos mais melancólicos. As influências mais fortes, dessa vez, são do Samba e da Bossa Nova. Para completar, Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante começaram a compor juntos (três canções foram feitas pela dupla). O esmero na composição das letras se manteve intacto, sendo o grande diferencial do trabalho do grupo desde o início.

As 14 músicas do "Bloco do Eu Sozinho" agradou a banda e seu público cativo. Porém, elas representaram a saída do "Los Hermanos" do hall dos artistas midiáticos do país. A criação de canções de apelo mais alternativo ia claramente contra as vontades populares da maioria do mercado fonográfico nacional. O disco vendeu pouquíssimo (cerca de um décimo das unidades comercializadas pelo álbum anterior). Assim, o grupo deixou de se apresentar para multidões e de aparecer com tanta frequência na televisão. Os shows também se tornaram mais intimistas e realizados para grupos bem menores de ouvintes.

Vale ressaltar que esse movimento foi calculado pela banda. "Los Hermanos" estava mais interessado em produzir algo de qualidade e com uma cara própria do que fazer músicas populares e que não representassem a essência do grupo.

As principais músicas de "Bloco do Eu Sozinho" foram "Todo Carnaval Tem Seu Fim" (minha música favorita da banda), "A Flor" e "Sentimental". A letra de "Todo Carnaval Tem Seu Fim", faixa de abertura do álbum, é uma obra-prima. "Veja Meu Bem", "Mais Uma Canção" e "Assim Será" também são ótimas. Ouça esse CD na íntegra:

Com "O Bloco do Eu Sozinho", "Los Hermanos" pavimentou um caminho interessante e incomum. Seus integrantes fugiram definitivamente do público massivo (interessado apenas em canções comerciais) e se aproximaram mais de uma galera alternativa (interessada em canções de um maior refinamento musical). Assim, tornam-se cult.

Essa opção foi seguida à risca com os lançamentos seguintes. "Ventura", em 2003, e "4", em 2004, constituíram o terceiro e o quarto álbum da banda, respectivamente. Em 2007, o grupo, naquele instante com dez anos de existência e quatro discos lançados, optou por dar uma parada em seus trabalhos. "Los Hermanos" voltou a se apresentar esporadicamente depois disso, principalmente em 2011 e 2014. Nestas oportunidades, a banda realizou pequenas turnês pelo Brasil e cantou seus antigos sucessos. Atualmente, os integrantes da banda seguem trabalhando individualmente.

"Los Hermanos" é conhecido até hoje como a banda que abriu mão do sucesso comercial para poder produzir um trabalho mais autoral e de uma qualidade superior. Incrível como isso, em tempos de busca obsessiva pelo sucesso, pela fama e pelas marcas grandiosas de vendagem, é tão raro.

Essa banda icônica completa agora vinte anos. Parabéns, "Los Hermanos"! Seu som continua sendo tão interessante quanto foi lá no início dos anos 2000.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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