• Ricardo Bonacorci

Livros: A Revolta das Freiras - Romance histórico de Deforges


No início do ano de 1981, Régine Deforges não era uma escritora tão renomada em seu país. Naquele momento, ela era vista pelo mercado editorial francês mais como uma editora (empresária) do que uma autora ficcional (artista das letras). Ou seja, no papel de escritora, Régine ainda buscava afirmação perante os leitores. É verdade que ela já tinha publicado algumas novelas e ensaios. Porém, nenhum havia alcançado um grande êxito comercial. Seus maiores sucessos até ali estavam concentrados nos seus polêmicos contos eróticos, que dividiam opiniões. Tinha quem os adorasse e tinha também aqueles que abominavam este tipo de literatura.

Nesse contexto, Régine Deforges lançou, em 1981, o romance "A Revolta das Freiras" (Best Seller). Esse livro marcou uma etapa importante na construção da sua carreira autoral. Pela primeira vez, a francesa deixava os gêneros narrativos curtos (contos, novelas e ensaios) e publicava uma trama mais robusta. Além disso, é possível notar que os principais aspectos estilísticos da autora já estavam consolidados quando "A Revolta das Freiras" chegou às livrarias. A publicação é muito parecida, por exemplo, ao livro “Sob o Céu de Novgorod”, de 1989, e possui muitos pontos em comuns à série "A Bicicleta Azul", o maior sucesso da francesa que também foi lançado na primeira metade da década de 1980.

"A Revolta das Freiras" conta a história de Vanda, uma jovem bonita, destemida, amante da liberdade e apaixonada pela natureza. A trama se passa no começo da Idade Média, mais especificamente no século VI. O cenário é onde hoje é o território francês, que na época era composto por vários pequenos reinos independentes e em busca de consolidação. Trata-se, portanto, de um momento da história francesa com grande instabilidade política, elevado número de guerras, intensos conflitos sociais e forte domínio da Igreja Católica.

O romance é inspirado em fatos e pessoas reais. Muitos personagens foram retirados diretamente dos livros de história para compor esta narrativa. Outros, por sua vez, são criações ficcionais da autora. Parte da graça do livro está nessa mistura muito bem arquiteta entre realidade e invenção. Por exemplo, Vanda, a protagonista, é uma personagem fictícia. Por outro lado, sua mãe adotiva, a rainha Radegondes, existiu de verdade e teve sua vida retratada, ao longo do livro, com boa dose de liberdade criativa por parte de Régine Deforges.

Vanda, a personagem principal, perdeu sua família quando tinha dois anos de idade. Sua mãe foi atacada no meio da floresta enquanto viajava pelas estradas do país. A filha, que estava junto no momento do ataque, acabou poupada. Porém, ficou largada sozinha no meio da mata. Sem nenhum homem ou mulher para cuidar do pequeno bebê, ele padeceu de fome, frio e sede por alguns dias. Assim, uma mãe loba, que acabara de dar à luz a cinco filhotes, adotou a criança.

A partir daí, Vanda passou a viver com a mãe loba e seus irmãozinhos. A floresta era sua casa e os animais selvagens eram sua nova família. A menina mamava diretamente na loba e era alimentada pela sua "mãe adotiva". Além disso, a criança passava o dia a brincar com os lobinhos. Rapidamente, Vanda criou uma forte ligação com os animais, se sentindo uma legítima integrante daquela matilha.

Algum tempo depois, um camponês gaulês, Romulf, em viagem pela estrada encontrou o bebê vivendo no meio dos lobos. Aterrorizado com o que presenciou na floresta, Romulf retirou a criança daquele ambiente que julgou inóspito e a levou para um convento. Vanda foi entregue aos cuidados das freiras locais. A menina foi adotada pela rainha Radegondes, que desde a separação do rei vivia no monastério. Vanda tornou-se, assim, filha adotiva de Radegonges e do camponês Romulf.

Quando cresceu, Vanda sofria com o preconceito das freiras do convento. Sua forte ligação com os lobos era vista como um problema por quase todo mundo dentro da instituição religiosa. Até mesmo os moradores do povoado viam a moça com desconfiança. A jovem gostava de andar pela floresta e conversava com sua família de lobos. Os animais selvagens a obedeciam incondicionalmente. Para as religiosas, isso deveria ser coisa do demônio. Para Vanda, essa peculiaridade era algo natural de quem fora criada entre a matilha.

Contudo, o problema maior da protagonista era outro. Ao mesmo tempo em que amava a vida na floresta e a liberdade de uma mulher normal, Vanda precisava lidar com as obrigações e as restrições do ambiente católico. Afinal, ela morava em um monastério e estava sendo preparada para se tornar freira. Sem a menor vocação para a rotina eclesiástica, Vanda não queria viver no convento nem desejava se tornar freira. Sua mãe adotiva sabia disso e não fazia grandes exigências à jovem, deixando-a viver como preferisse.

Os dias alegres e de liberdade de Vanda acabaram com a morte da rainha Radegondes. Uma nova freira assumiu o comando do monastério, tornando-se uma ferrenha opositora às vontades da filha dos lobos. A nova madre superior exigiu que Vanda se inclinasse com afinco à vida religiosa. Não querendo este tipo de rotina para si, Vanda se rebelou contra a tirania da inimiga. Muitas noviças seguiram a filha de Radegondes e se opuseram à comandante do convento. Uma grande rebelião se precipitou. Estava iniciada o que o povo chamou de a Revolta das Freiras.

Além do aumento das vendas (se comparado aos tímidos resultados precedentes), "A Revolta das Freiras" também ratificou alguns elementos narrativos utilizados em obras anteriores por Régine Deforges. A sexualidade aflorada de suas personagens, a construção de protagonistas embutidas de uma forte ideologia feminista e a linguagem simples e direta renovam-se. Estas características foram vistas, por exemplo, na novela "O Diário Roubado" (Klick), lançada em 1978 e comentada aqui no blog na última terça-feira.

Além disso, esse romance serviu de base para o aparecimento de outros elementos estilísticos que seriam amplamente utilizados a partir de então por Régine Deforges (e que marcariam sua literatura para sempre). A preferência pelo gênero romanesco (ao invés das novelas e ensaios), narrativas com níveis extremos de violência, tramas históricas, enredos que misturam realidade e ficção, histórias em que os personagens estão em constante deslocamento (viagens) e romances com elevadíssimo número de personagens são algumas dessas marcas. Se pensarmos bem, esses são os ingredientes de todos os principais sucessos editoriais da escritora.

"A Revolta das Freiras" é uma história surpreendente e gostosa de ser lida. A relação da protagonista com os lobos é divertidíssima, emocionando o leitor. Os animais selvagens (considerados irracionais) tornam-se amigos e companheiros da jovem por toda sua vida. Em muitos momentos, os lobos são mais leais e amorosos do que os seres humanos. Os homens, por sua vez, são retratados como traiçoeiros, violentos e muito perigosos. Curiosa esta inversão de valores.

Apesar de o fato de uma criança ser alimentada por uma loba na infância parecer uma história um tanto batida e pouco original (o mito de Rômulo e Remo está na mente da maioria das pessoas), Régine Deforges consegue construir uma trama empolgante e criativa. Rapidamente, esquecemo-nos dos irmãos fundadores de Roma e somos seduzidos por Vanda, uma protagonista com fortes elementos narrativos.

Vanda é uma típica personagem romântica: bonita, inteligente, sensível, corajosa, honrada, amorosa e aventureira. Ao mesmo tempo, ela é uma mulher à frente do seu tempo. A personagem principal não apenas sabe viver sozinha na floresta como também sabe lutar bravamente contra os homens que ameaçam sua integridade. Ela carrega consigo uma espada e não hesita em apontá-la para alguém. Trata-se de uma mulher independente e decidida. Vanda enfrentará com coragem todos os perigos típicos da Idade Média. Ela precisará encarar diretamente a força da Igreja Católica, uma instituição que durante o século VI era até mais poderosa do que os monarcas europeus.

Este romance de Régine Deforges tem uma linguagem direta e simples e um grande dinamismo narrativo. Os acontecimentos se sucedem rapidamente, deixando a leitura ainda mais agradável. O fato das personagens estarem o tempo inteiro na estrada, viajando de um lado para outro, também intensifica essa sensação de celeridade narrativa. Não é à toa que as cenas mais marcantes e importantes do livro acontecem justamente na beira da estrada.

A composição do cenário histórico foi muito bem feita. Nota-se, nitidamente, o intenso trabalho bibliográfico por parte da autora para a construção desta trama. Repare nos documentos históricos anexados ao romance, que embasam a ficção e, ao mesmo tempo, não se desvinculam da história verdadeira que aconteceu. É quase impossível saber o que é ficção e o que é realidade neste livro. Para matar a curiosidade do leitor, Régine Deforges montou, ao final da publicação, uma lista completa com o nome de todas as personagens citadas, indicando quem é quem na história e se a pessoa foi real ou é fictícia. Essa ferramenta também é de grande valia durante a leitura. Ao longo das mais de 300 páginas de "A Revolta das Freiras", surgem mais de 150 personagens. Sim, você leu direito: são mais de 150 pessoas! Não há memória humana capaz de guardar tantos nomes. Por isso, a lista no final pode (e deve) ser usada sempre que alguma confusão surgir na cabeça do leitor.

Um ponto que chama a atenção é o excesso de violência durante a trama. É preciso estômago forte para encarar os acontecimentos descritos nas páginas do livro. Há todo tipo de violência possível e imaginável. Pense em uma cena forte e aterrorizante. Pensou? Pois acredite: é bem possível que ela tenha sido descrita ao menos uma vez neste romance. Estupros, amputação genital, torturas físicas e psicológicas, sodomia, prisões arbitrárias, assassinatos, suicídios e canibalismo são alguns dos ingredientes de "A Revolta das Freiras". Jovens virgens sendo violentadas na beira da estrada por grupo de homens é algo tão habitual que ocorre praticamente em quase todo capítulo. Chega uma hora que você se acostuma com isso.

Seguindo a tendência da novela "O Diário Roubado", o componente erótico é um dos pontos fortes de "A Revolta das Freiras". Apesar da protagonista se manter casta e sem vontades libidinosas durante boa parte da narrativa, os demais personagens se fartam. Eles transam o tempo inteiro. Os homens são descritos como animais ávidos por sexo, independentemente da forma como o ato é praticado e se tiveram (ou não) o consentimento de suas parceiras. Régina Deforges não se furta em descrever as várias cenas de sexo e de estupros que ocorrem durante toda a trama. Ela parece ter certo prazer em apresentar aos leitores esses detalhes.

O único ponto falho, em minha opinião, de "A Revolta das Freiras" está em seu desfecho. Ele é muito fraco. Praticamente não há um clímax. A trama toda caminha para o julgamento das freiras revoltosas pelos clérigos responsáveis pela Igreja na França. Imagina-se, portanto, um grande evento no qual as moças serão acusadas e precisarão se defender. Porém, isso não acontece na prática. A sentença final do julgamento é dada, no capítulo final, em uma linha. E no mesmo parágrafo, descreve-se o destino de cada uma das revoltosas. Ou seja, a autora preferiu encerrar o livro ao invés de investir no momento mais dramático da narrativa. É uma pena! A sensação é que a história foi interrompida na melhor parte.

Além disso, a cena de sexo de Vanda (afinal, ninguém é de ferro, né?) no momento final da história também me pareceu artificial e incompatível com a personalidade da moça. A jovem, que nunca pensou em transar e nunca se preocupou com sua virgindade, resolveu se atirar nos braços (e em algo mais) do primeiro rapaz que surgiu na sua frente. Sem dúvida nenhuma, ela estava ávida por começar uma nova vida fora do convento... Só não vou dizer com quem ela fez sexo para não estragar a história de quem ainda não leu o livro. Não sou de contar o spoiller, mas adianto que é alguém que o leitor jamais imaginaria.

O fato de Vanda transar não tem, obviamente, nada de mais. Ela pode transar onde, como, com quem e sempre que ela quiser. O problema é transformar isso em algo romântico. Vanda nunca demonstrou nenhum sentimento por aquele homem durante todo o livro. E aí, em questões de segundos, já está perdidamente apaixonada por ele. Atrelar o sexo à paixão romântica não combinou com o contexto da trama nem com o estilo de Régine Deforges.

Apesar deste deslize final, "A Revolta das Freiras" é um ótimo livro. Não se impressione com sua capa e seu título, claramente antiquados. Eles não retratam o quão interessante é a obra.

Terminada essa leitura, vou agora me dedicar ao romance "A Bicicleta Azul" (BestBolso), o maior sucesso da carreira de Régine Deforges. Você é meu(minha) convidado(a) nesta aventura. Leia o livro simultaneamente comigo. Na quarta-feira da semana que vem, dia 14, estarei de volta para comentar este clássico contemporâneo da literatura francesa. Até mais!

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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