• Ricardo Bonacorci

Livros: A Bicicleta Azul - O grande sucesso de Régine Deforges


Na semana passada, li os três livros originais da série "A Bicicleta Azul", o maior sucesso editorial de Régine Deforges. Essa trilogia é composta por "A Bicicleta Azul" (Best Bolso), "Vontade de Viver" (Best Bolso) e "O Sorriso do Diabo" (Best Bolso). As obras foram publicadas, respectivamente, em 1981, em 1983 e em 1985. Essa coleção narra a história de Léa Delmas, uma jovem francesa que é obrigada a amadurecer abruptamente, deixando a vida adolescente e migrando para o mundo adulto. O motivo é a eclosão da Segunda Guerra Mundial, que devastou a França entre o final da década de 1930 e a primeira metade da década de 1940. É esse o período histórico retrato pela trama. Enquanto sofre com as restrições e os perigos impostos pelo conflito armado, Léa descobre o prazer do sexo, desvendas os enigmas do amor e investe na defesa dos seus ideais sociais e políticos.

O sucesso da série foi retumbante. Os livros da trilogia atingiram a marca de milhões de unidades vendidas na França e no mundo, transformando sua autora em best-seller internacional. Desta maneira, nas duas últimas décadas do século XX, Régine Deforges deixava de ser uma escritora polêmica e conhecida apenas pela abordagem erótica das suas narrativas para ser vista também como uma romancista bem-sucedida e popular.

Para aproveitar o êxito comercial da série "A Bicicleta Azul", Régine Deforges deu continuidade à trama de sua personagem mais famosa ao final da trilogia. Assim, as aventuras de Léa Delmas estendem-se para fora da França em mais sete publicações. A bela protagonista vivenciou momentos marcantes da história em outras regiões do planeta nos livros: "Tango Negro" (Best Seller), "Rua da Seda" (Best Seller), "A Última Colina" (Best Seller), "Cuba Livre!" (Best Seller) e "Argel, Cidade Branca" (Best Seller). "Les Généraux du Crépuscule" e "Et quand viendra la fin du voyage", o nono e o décimo livro, ainda não foram traduzidos para o português. O lançamento da primeira obra desta nova fase é datado de 1991, enquanto a última é de 2007..

Em "Tango Negro", Léa e François Tavernier (o inseparável parceiro da protagonista) viajam para a Argentina para combater os nazistas que por lá tentam se esconder após o término da Segunda Guerra. Em "Rua da Seda" e "A Última Colina", o casal vai parar o Vietnã, em plena guerra de independência do país asiático. Na sequência, Léa e François partem para Cuba em plena revolução comunista ("Cuba Libre!) e para a Argélia na época da guerra de independência da nação africana ("Argel, a Cidade Branca"). A dupla realmente gosta de uma confusão, hein?!

Por ora, vou me ater à série original da "A Bicicleta Azul", composta pelos três primeiros livros da coleção. Neste post, comentarei o primeiro livro da trilogia. Nos próximos dias, analisarei também, em posts específicos, as obras "Vontade de Viver" e "O Sorriso do Diabo". Para o Desafio Literário de 2017, não iremos estudar os livros da extensão da série, publicados ao longo da década de 1990 e no início dos anos 2000.

"A Bicicleta Azul" (o livro) se passa entre 1939 e 1942, os anos iniciais da Segunda Guerra Mundial. Em Montillac, no interior francês, Léa Delmas é a filha do meio de ricos proprietários rurais. A moça de 17 anos é muito bonita e é cortejada pela maioria dos rapazes da localidade. Ela, porém, é apaixonada por Laurent d'Argilat, filho de outro proprietário de terras da localidade. O problema é que o rapaz está de casamento marcado com Camile, prima dele.

Com o início da Guerra, Laurent é enviado para a linha de frente do combate. Antes, ele se casa às pressas com a prima em Paris. Léa, então, vive em constante angústia: teme a morte do amado nas batalhas e continua tentando seduzi-lo, não se importando em desempenhar o papel de amante. Além disso, a jovem ainda precisa cuidar de Camile, grávida. Assim, a adolescente vive entre Paris (residência de Camile) e a fazenda em Montillac (casa de sua família).

Apesar de continuar apaixonada por Laurent, Léa se envolve amorosamente com outros parceiros. Um amigo dela em Paris, François Tavernier, é o homem que tira sua virgindade. É com ele que a jovem vai para a cama quando está na capital francesa. Em Montillac, o parceiro amoroso da moça é outro, Mathias Fayard, filho do administrador da fazenda. Ou seja, os dois rapazes servem para consolar a adolescente pelo fato de ela viver longe de Laurent.

Enquanto tem suas primeiras experiências sexuais, Léa Delmas precisa encarar os perigos concretos da guerra, cada vez mais violenta e próxima. Os alemães invadem a França e se aproximam de Paris. A adolescente, encarregada de cuidar da gravidez de Camile, precisa proteger a esposa do homem que ama, tirando-a da capital. As duas moças viajam sozinhas até Montillac, cruzando o país pelas estradas francesas em meio ao bombardeiro aéreo alemão.

"A Bicicleta Azul" é um ótimo livro, que consegue cativar os leitores. Suas 490 páginas apresentam uma trama recheada de personagens contraditórias, conflitos que obrigam a protagonista a viajar constantemente e um fidedigno retrato do período histórico no qual a narrativa é ambientada. Este último elemento é o que mais gostei do romance.

O panorama histórico é o que dá charme ao livro. Régine Deforges consegue retratar com propriedade o drama e os desafios do período inicial da Segunda Grande Guerra. Somos levados à França pré-invasão alemã. Diante dos nossos olhos, passam fatos históricos e personagens reais (tanto do cenário político como do cultural). É uma delícia viver os acontecimentos deste período (por mais tristes que sejam) e verificar como eles impactam a vida das personagens comuns na ficção.

Outro elemento marcante do romance é a constituição da personalidade da protagonista. Léa Delmas, com apenas 17 anos, é uma moça à frente do seu tempo. Ela é decidida, independente e corajosa. A jovem é tão destemida que aprende a dirigir carros, mesmo não tendo idade para adquirir uma carteira de motorista. Vale lembrar que na década de 1930, não era comum uma mulher se prontificar a tal tarefa. Léa não apenas sabe dirigir como vê com naturalidade o fato de estar ao volante durante uma viagem pelas estradas do país em plena guerra. Durante a trama, ela está sempre indo de um lugar para outro, sem temer os perigos e a opinião alheia. Ciente da sua beleza, Léa também provoca os homens por onde passa, não vendo problema em fazer sexo com vários parceiros, sejam eles casados, funcionários da fazenda do pai ou possíveis espiões do governo inimigo.

Neste sentido, chama a atenção logo de cara o tom liberal da sexualidade de Léa. É importante ressaltar que estamos falando de uma personagem de Régine Deforges, a primeira autora europeia moderna a tratar com naturalidade a sexualidade feminina na ficção. Deforges se tornou conhecida por produzir contos eróticos e por introduzir em seus romances cenas de sexo. O livro "A Bicicleta Azul" não é, obviamente, tão parecido com a série "Cinquenta Tons de Cinza", da inglesa Erika Leonard James, que explora intensamente os momentos libidinosos. Nas narrativas da francesa, o sexo acontece naturalmente e sem preconceitos. Se Deforges descreve com mais detalhes esse tipo de momento que os livros tradicionais (dando algumas linhas ao ato sexual e ao prazer sentido pelas personagens), ela, contudo, não avança nos pormenores como nos romances de James.

Não é à toa, portanto, que as cenas inicial e final do livro sejam tão parecidas e envolvam sexo. Esses trechos da trama são simbólicos e representam a conclusão de um ciclo narrativo/dramático. Léa está no estábulo da fazenda do pai, deitada nua no feno, com um parceiro amoroso. Em cada um desses dois momentos, o parceiro é um homem diferente. Ela quer muito fazer sexo com eles. Se no começo do livro, a jovem não consegue, no desfecho do romance ela é bem-sucedida em sua empreitada. Além disso, essas cenas (casal no estábulo deitado no feno) se tornaram, com o passar das décadas, uma marca erótica da cultura ocidental.

O amadurecimento da protagonista, ao longo da história, não é apenas sexual. Léa começa e termina o livro muito jovem. Porém, se no começo ela era uma menina fútil, mimada e sonhadora, no encerramento da trama ela se transforma em uma mulher que comanda a família com pulso firme. A "nova personagem" é engajada politicamente, consciente das adversidades da vida e ciente do seu papel na sociedade francesa. Mesmo François Tavernier, em seu discurso no último capítulo, não vendo diferença entre a Léa inicial e a do final da trama, o leitor reconhece o processo de evolução psicológica que moça sofreu ao longo da história.

Neste caso, é marcante a transformação de Léa de uma menina simples do interior do país em uma importante espiã francesa com atuação nacional. Se as ações de "leva e traz" de documentos e informações para os revoltosos da Resistência à Ocupação Alemã é um tanto forçada no começo da trilogia, pelo menos essa particularidade confere dinamismo e emoção à narrativa.

O principal ponto negativo de "A Bicicleta Azul" é a artificialidade dos encontros das personagens durante o romance. No meio da guerra, as personagens vivem se esbarrando nos lugares mais pitorescos possíveis. "Nossa! Você por aqui?" é uma frase comum. O ápice disso ocorre na viagem de carro de Léa e Camile pela França bombardeada. No trajeto difícil e perigoso, a protagonista encontra vários amigos no meio do tiroteio alemão. Ela, inclusive, tem tempo para fazer sexo com um deles, como se as bombas inimigas não passassem de um detalhe no cenário. Quem lê o livro pode pensar, vendo esses encontros constantes, que a França é uma cidade pequena do interior e não um país de grandes dimensões.

O desfecho do romance é interessante e simbólico. Mesmo não sendo um final concreto (a história segue em suspense - o que pode frustrar quem não deseja se aventurar pelo restante da trilogia), ele representa o fechamento de um ciclo na vida de Léa. Após este primeiro romance da série, a Srta. Delmas deixa de ser uma menina e passa a ser uma mulher de fato. A morte do pai e da mãe (ausência das figuras paternas), a iniciação sexual (biologicamente, ela torna-se adulta), a fuga da irmã mais velha (que deveria assumir, naturalmente, a liderança da família) e a necessidade de comandar a fazenda (função que a transforma agora na matriarca da família) significam o amadurecimento efetivo da jovem.

Na semana que vem, analisarei aqui no Blog Bonas Histórias o livro "Vontade de Viver", a segunda parte da série "Bicicleta Azul". Não perca.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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