Análise Literária: Régine Deforges

Chegou o momento de produzirmos, aqui no Blog Bonas Histórias, uma análise abrangente da literatura de Régine Deforges. Para tal, seis obras da escritora francesa foram lidas e comentadas durante o mês de junho. Os títulos selecionados pelo "Desafio Literário" foram: "O Diário Roubado", "A Revolta das Freiras", "A Bicicleta Azul", "Vontade de Viver", "O Sorriso do Diabo" e “Sob o Céu de Novgorod”. Com essa bagagem adquirida, vamos às apresentações das conclusões obtidas.

 

Régine Deforges se tornou mundialmente famosa nas décadas de 1980 e 1990. Seu maior sucesso é a série "A Bicicleta Azul", composta por dez livros que narram as aventuras de Léa Delmas, uma jovem funcionária da Cruz Vermelha internacional. A coleção começou com uma trilogia ambientada na Segunda Guerra Mundial. Escrito na primeira metade dos anos 1980, o enredo dos três livros iniciais se passa essencialmente na França. Quando a série se tornou best-seller, Deforges publicou, de 1991 a 2007, mais sete livros com a continuação das peripécias de Léa. Nesse segundo momento, a protagonista viaja pelo mundo e vivencia fatos históricos na América do Sul (Perseguição aos nazistas na Argentina), na América Central (Revolução Comunista em Cuba), na África (Guerra de Independência da Argélia) e na Ásia (Guerra de Independência do Vietnã). 

 

O trabalho literário de Régine Deforges, contudo, não se restringe à série "A Bicicleta Azul". A escritora também produziu novelas, ensaios, crônicas, contos e outros romances. Desse portfólio variado de obras, os principais gêneros narrativos da francesa foram o conto e o romance. Enquanto o primeiro foi mais voltado para as histórias eróticas e se tornou mais conhecido dentro da França, o lado romancista de Deforges está atrelado às narrativas históricas e ficou mais famoso fora do seu país natal.

Os contos eróticos de Régine Deforges sofreram com a censura e o boicote das livrarias francesas. O conservadorismo do país europeu atrapalhou muito a escritora no início de sua carreira. Régine era vista como uma despudorada pela sociedade e pelos críticos da época. Apenas anos depois de publicadas, as histórias eróticas da francesa passaram a ser reconhecidas pelo mercado e pelo público leitor como tendo qualidade. Como tive dificuldade de achar os livros de contos da autora aqui no Brasil, acabei optando por analisar apenas seus romances.

 

Até mesmo os romances de Deforges não são tão fáceis de serem encontrados hoje em dia em nosso país. Como a fama da francesa ficou concentrada entre os anos de 1980 e 1990, muitos de seus livros são desconhecidos do público mais jovem. Esta característica prejudica o leitor no momento de procurar essas obras no mercado. As publicações da francesa não estão no catálogo tradicional das livrarias nem das editoras. Alguns títulos possuem apenas edições de algumas décadas atrás. Para comprá-los, é necessário reservá-los às editoras internacionais ou recorrer aos sebos das grandes cidades. 

 

Os romances de Régine Deforges possuem algumas características marcantes. A seguir, vou listar os oito pontos que mais chamam a atenção na literatura da escritora francesa:

1) O primeiro elemento é a forte presença de protagonistas femininas, que monopolizam as tramas. Os enredos da autora são sempre sobre mulheres corajosas que enfrentam fortes imposições da sociedade machista e violenta de diferentes épocas da história. Os homens são retratados normalmente de maneira pejorativa. Enquanto eles são poucos confiáveis, cruéis, grosseiros e gananciosos, elas são honradas, inteligentes e destemidas. As personagens principais de Deforges são sempre jovens muito bonitas e mulheres à frente do tempo. Todas carregam a bandeira do feminismo. Segundo essa ideologia, elas têm os mesmos direitos do que os homens. Não há nada que elas não possam ou devam fazer.

 

2) O forte erotismo é segundo aspecto que merece ser destacado nos livros de Régine Deforges. Os romances foram influenciados, de alguma maneira, pelo estilo dos contos da autora. As narrativas da francesa têm normalmente muito sexo. A libido corre solta nas tramas. As personagens estão sempre transando ou querendo transar, sem se preocuparem com as consequências ou com a opinião dos outros. Até mesmo a vida sexual das heroínas é agitada e relatada em detalhes. Não se surpreenda se a protagonista for para a cama com vários homens durante as histórias. Também não fique abismado(a) se ela praticar ménage à trois, se for homossexual (ou bissexual), se recorrer à masturbação de vez em quando e se for apaixonada por mais de um homem ao mesmo tempo. Régine Deforges é liberal em relação ao sexo e suas protagonistas espelham esse conceito. Em alguns casos, a liberalidade une-se à libertinagem.  

 

3) Outra característica típica da autora é a intensa violência de suas tramas. Os enredos dos livros de Régine Deforges se passam sempre em períodos de guerra ou em momentos históricos onde a barbárie impera. A Idade Média e a Segunda Guerra Mundial são seus períodos favoritos. Assim, a violência é variada e extrema. Há todo tipo de maldade possível e imaginável: Roubos, estupros, amputações genitais, torturas físicas e psicológicas, genocídios, sodomias, prisões arbitrárias, assassinatos, humilhações, suicídios, vinganças, autoflagelações e canibalismos. Em alguns casos, isso tudo acontece quase que simultaneamente. É preciso estômago forte para encarar muitas das cenas relatadas nas páginas destas publicações. 

 

4) Os romances históricos da francesa são muito bem construídos. Algo que a escritora gostava de fazer era misturar realidade e ficção. Esse pode ser considerado o quarto ponto característico de Régine Deforges. Os enredos de seus livros eram desenvolvidos a partir de fatos e personagens que existiram de verdade. Nota-se, portanto, um forte trabalho de pesquisa bibliográfica. Em alguns casos, Régine Deforges construiu sua ficção a partir de fatos históricos. Em outros momentos, ela detalhou acontecimentos marcantes do passado de maneira ficcional. Ler Deforges é viajar para períodos turbulentos do passado. Além disso, seus romances servem como verdadeiras aulas de história.

 

5) Outra característica das tramas de Deforges é o constante deslocamento físico de suas protagonistas. As heroínas dos romances da francesa estão sempre viajando de um lugar para outro. Raramente, elas ficam paradas em um mesmo lugar. Não importa se o país está em guerra, se vândalos dominam as estradas ou se os inimigos estão procurando-as. As destemidas personagens de Régine lançam-se em viagens com o objetivo de valer suas vontades e opiniões. Essa postura mostra o inconformismo delas em relação a determinadas situações e demonstra a valentia feminina em buscar os seus sonhos por conta própria. Assim, as obras de Régine Deforges adquirem sempre um tom de "Road Story".   

 

6) Um elemento que incomoda um pouco o leitor (principalmente a ala masculina) é a mania de Régine Deforges em descrever os aspectos relacionados ao vestuário das personagens e a culinária servida em cena. A autora destaca as roupas usadas pelas personagens e os cardápios das refeições realizadas nos livros como se esses fossem aspectos fundamentais para se compreender a história narrada. Sinceramente, essa característica transmite muito mais a sensação de futilidade do que de rigor narrativo. Não que a moda e a culinária não sejam importantes. Não é isso o que estou dizendo. O que torna os livros de Régine Deforges um pouco fúteis é o excesso de descrições sobre esses temas quando há outros elementos narrativos mais relevantes acontecendo paralelamente. Por exemplo, em pleno bombardeio aéreo da Segunda Guerra Mundial, a protagonista do romance retorna para o quarto para escolher qual vestido usar em seu passeio noturno. Saída de casa à noite em pleno bombardeio?! Como assim?!!! Ao invés de explicar isso, a autora descreve o vestido escolhido para o passeio...

 

7) Os romances de Régine Deforges possuem uma extensa lista de personagens. Quando digo que há muitas pessoas nas tramas, acredite em mim. São muuuuuuuuitos mesmo. Há livros que têm mais de duas centenas de pessoas interagindo. Em suas obras mais comedidas, Deforges constrói histórias com pouco mais de uma centena de personagens. O leitor precisa de uma boa memória para acompanhar a narrativa ao longo das páginas.

 

8) A linguagem e o estilo narrativo de Deforges são os mais simples possíveis. O texto possui tom coloquial e as construções sintáticas são enxutas e objetivas. O leitor também não encontrará grandes recursos literários nos romances da francesa. Deforges procura simplificar suas histórias ao máximo, delimitando os personagens em mocinhos e vilões. O maniqueísmo prevalece durante as obras e segue imutável do início ao fim. Não espere, portanto, grandes reviravoltas, surpresas ou mistérios durante as tramas.   

Régine Deforges nasceu em Montmorillon, em 1935. A pequena cidade do interior francês é caracterizada por ter uma população conservadora e muito religiosa, sendo sede de várias instituições católicas. Desde cedo, a jovem Régine adorava ler e escrever. Seus hábitos indicavam que a garota iria, no futuro, trabalhar com algo relacionado ao mercado editorial. Ainda na adolescência, a família da futura escritora deixou o interior e se mudou para Paris. 

 

Na capital francesa, a paixão de Régine Deforges pela literatura aumentou. Desde cedo, ela passou a trabalhar como vendedora de livros, encadernadora, editora, patrocinadora de bibliotecas públicas e colecionadora de obras literárias. Sua paixão pelo universo da escrita a fez mergulhar de cabeça neste mercado.

 

Em 1968, usando o dinheiro do marido industrial, Régine abriu sua própria editora, a Or du Temps. Essa decisão causou certo alvoroço no mercado editorial francês, que naquele momento não estava acostumado com uma mulher à frente dos negócios. O ambiente machista da época não concebia uma mulher empresária neste ramo de atividade. Além disso, ao apostar em títulos polêmicos (com temáticas eróticas e com enredos feministas), Deforges se tornou persona non grata pelas livrarias.

Apesar dos vários inimigos em todos os elos da cadeia de mercado, Deforges conseguiu impor sua marca no universo editorial francês durante a década de 1970. Contudo, os processos, as multas e a censura da sociedade levaram, ao longo dos anos, a falência da Or du Temps. Obstinada, Régine Deforges abriu (e fechou) várias outras editoras ao longo de sua vida.

 

Ao mesmo tempo em que atuava como editora, Régine Deforges também passou a tentar a carreira de escritora. As primeiras obras narrativas de Régine Deforges não despertaram grande interesse do público. Foi o caso de "O M'a Dit" (Sem tradução para o português), de 1975, e "Blanche et Lucie" (Também sem tradução), de 1976. O primeiro é um ensaio em que Deforges apresenta uma série de entrevistas com um importante escritor do seu país, enquanto o segundo é uma novela sobre a vida de suas avós.

 

A primeira importante publicação autoral de Régine Deforge foi a novela "O Diário Roubado" (Klick), de 1978. A relevância da obra tem dois motivos. Esta é uma história com elementos autobiográficos e, ao mesmo tempo, esse livro já apresenta alguns elementos estilísticos da autora que seriam suas marcas literárias no futuro. "O Diário Roubado" apresenta o drama da adolescente Léone. A moça de quinze anos teve seu diário roubado. O responsável pelo crime foi um rapaz que a odiava. Nas páginas de seus relatos, Léone narrava em detalhes sua relação amorosa e sexual com Mélie, uma colega de escola. Quando o diário é divulgado para a cidade inteira, o homossexualismo de Léone se torna público.

 

Um episódio parecido ocorreu com Régine Deforges em sua adolescência. Um rapaz roubou o diário da jovem e divulgou suas anotações para a cidade de Montmorillon. Nesta época, Régine era apaixonada por uma garota de sua escola e os relatos de sua paixão homossexual se tornaram públicos. Regine sofreu tanto preconceito que sua família precisou se mudar para Paris.

 

"O Diário Roubado" é uma narrativa recheada de elementos eróticos. Sua protagonista possui uma forte ideologia feminista e o texto do livro tem uma linguagem simples e direta. Ou seja, temos aqui parte da receita do sucesso de Deforges. As histórias libidinosas e com heroínas fortes e decididas nascem com essa novela. 

 

No início de 1981, Régine Deforges não era uma escritora tão renomada em seu país. Naquele momento, ela era vista pelo mercado editorial francês mais como uma editora (empresária) do que uma autora ficcional (artista das letras). Ou seja, no papel de escritora, Régine ainda buscava afirmação perante os leitores. Nesse contexto, a francesa lançou dois romances importantíssimos para sua carreira autoral: "A Revolta das Freiras" e "A Bicicleta Azul". A partir daí, sua carreira como romancista decolou.

 

"A Revolta das Freiras" (Best Seller) é o primeiro romance histórico da autora. Com essa publicação, Régine Deforges deixava para trás os gêneros narrativos curtos (contos, novelas e ensaios) e enveredava pelas tramas mais robustas. Além disso, esse livro acrescentava novos aspectos estilísticos à literatura da francesa. A sexualidade aflorada de suas personagens, a construção de protagonistas embutidas de uma forte ideologia feminista e a linguagem simples e direta renovam-se (já apareceram em "O Diário Roubado"). As novidades são: as narrativas com níveis extremos de violência, o surgimento de tramas ambientadas em momentos históricos marcantes, os enredos que misturam realidade e ficção, histórias em que personagens estão em constante deslocamento (viagens) e romances com elevadíssimo número de personagens. Se pensarmos bem, esses ingredientes estão presentes em todos os principais sucessos editoriais da escritora.

 

A protagonista de "A Revolta das Freiras" é Vanda. Essa história se passa no século VI. Quando bebê, Vanda foi alimentada e criada por uma família de lobos na floresta. Depois, ela foi educada em um monastério. Quando Vanda se viu forçada a seguir a vida de freira, ela se revoltou contra a Igreja, levando consigo várias outras jovens freiras. Estava aberto o conflito na França medieval.

 

Vanda é uma típica personagem romântica: bonita, inteligente, sensível, corajosa, honrada, amorosa e aventureira. Ao mesmo tempo, ela é uma mulher à frente do seu tempo. A personagem principal não apenas sabe viver sozinha na floresta como também sabe lutar bravamente contra os homens que ameaçam sua integridade. Ela carrega consigo uma espada e não hesita em apontá-la para alguém. Trata-se de uma mulher independente e decidida. Vanda enfrentará com coragem todos os perigos típicos da Idade Média. Ela precisará encarar diretamente a força da Igreja Católica, uma instituição que durante o século VI era até mais poderosa do que os monarcas europeus.

 

Diferentemente das outras protagonistas de Régine Deforges, Vanda (acredite!) é casta. Ela não tem vontades libidinosas durante boa parte da narrativa. Em compensação, os demais personagens não perdem tempo... Apenas no final da história (afinal, ninguém é de ferro, né?), Vanda entrega-se aos prazeres do sexo.  

 

Ainda em 1981, chegou às livrarias francesas o livro "A Bicicleta Azul" (Best Bolso), primeira obra da série homônima. Com esta publicação, Régine Deforges se transforma definitivamente em uma escritora best-seller. Ela deixa, portanto, de ser vista apenas como uma escritora polêmica de histórias eróticas para entrar no clube dos romancistas bem-sucedidos e populares. Rapidamente, seu trabalho deixa as fronteiras francesas e alcança novos leitores em vários países da Europa e nos Estados Unidos.  

 

A trama do livro "A Bicicleta Azul" se passa entre 1939 e 1942, anos iniciais da Segunda Guerra Mundial. Com o conflito armado, Léa Delmas, uma jovem de 17 anos que morava no interior da França, é obrigada a amadurecer abruptamente. Ela deixa a vida adolescente e migra para o mundo adulto. Enquanto sofre com as restrições e os perigos impostos pelo conflito armado, Léa descobre o prazer do sexo, desvendas os enigmas do amor e investe na defesa dos seus ideais sociais e políticos.

 

Léa Delmas é a personagem mais simbólica de Régine Deforges. Bonita, inteligente, corajosa e libertina, a jovem é a representante máxima do movimento feminista e da liberdade sexual das mulheres. Apesar de ser apaixonada por Laurent, um homem casado que é enviado para guerra, Léa se envolve amorosamente com outros parceiros. Ciente da sua beleza, Léa também provoca os homens por onde passa, não vendo problema em fazer sexo com vários parceiros, sejam eles casados, funcionários da fazenda do pai ou possíveis espiões do governo inimigo. Um amigo dela em Paris, François Tavernier, é o homem que tira sua virgindade. É com ele que a jovem vai para a cama quando está na capital francesa. Em Montillac, cidade interiorana onde a família da moça tem uma fazenda, o parceiro amoroso de Léa é Mathias Fayard, filho do administrador da fazenda. Ou seja, os dois rapazes são usados como consolo pela adolescente enquanto ela espera a volta de Laurent.

 

A força narrativa de Léa Delmas não se fica limitada à sua sexualidade. A jovem é tão destemida que viaja pela França em plena guerra sem temer nenhum mal. Ela também se posiciona como a responsável pelo cuidado da família e pela administração da fazenda paterna. Durante a trama, ela está sempre indo de um lugar para outro, sem temer os perigos e a opinião alheia.

 

O panorama histórico é o que dá charme ao livro. Régine Deforges consegue retratar com propriedade o drama e os desafios do período inicial da Segunda Grande Guerra. Somos levados à França pré-invasão alemã. Diante dos nossos olhos, passam fatos históricos e personagens reais (tanto do cenário político como do cultural). É uma delícia viver os acontecimentos deste período (por mais tristes que sejam) e verificar como eles impactaram a vida das personagens comuns.

 

"Vontade de Viver" (Best Bolso), lançado em 1983, é a segunda parte da história de Léa durante a Segunda Guerra Mundial. Essa obra começa no ano de 1942 e termina em 1944. Agora temos uma França totalmente ocupada pelas tropas alemãs. Se os nazistas dominam a capital e a maior parte do território francês, há ainda uma região ocupada pela Resistência, grupo de franceses que não desistiu de combater os invasores. Dessa forma, a guerra prossegue, porém ela não é realizada apenas nos campos de batalha e nas trincheiras. A guerra é agora mais sutil e diplomática.

 

A transformação da protagonista fica mais evidente em "Vontade de Viver". Se no livro "A Bicicleta Azul" Léa era uma menina fútil, mimada, inexperiente e sonhadora, nesta segunda obra ela já se transformou em uma mulher que comanda a família com pulso firme. Portanto, o amadurecimento da protagonista não é apenas sexual. Em "Vontade de Viver", Léa é uma verdadeira heroína. Integrante ativa da Resistência francesa, ela é uma espiã contra o governo alemão. Essa sua inclinação política faz com que ela se torne alvo cada vez mais direto da repressão da SS, a polícia nazista. Ao mesmo tempo em que atua na política do seu país, Léa também é a responsável por cuidar da fazenda da família em Montillac. A moça cuida das finanças à lavoura, colocando a mão na massa.

 

Outra mudança significativa de "Vontade de Viver" é o aumento da violência. A história que iniciou como romântica em “Bicicleta Azul” torna-se agora uma trama de terror. Há cenas fortes e escatológicas de assassinatos, espancamentos, traições, mutilações e estupros, além do detalhamento do que aconteceu com os judeus nos campos de concentração nazistas.

 

Publicado em 1985, "O Sorriso do Diabo" (Best Bolso) é a terceira parte da série. A história de Léa Delmas continua, mas a Segunda Guerra Mundial está em seu fim. O livro abrange o período de 1944 a 1945. A retomada do poder pelos franceses não é algo tranquilo. Em meio ao caos social, político e econômico, Léa cuida de sua família, cada vez mais fragmentada. Os Delmas vivem doentes e na pobreza. Ao mesmo tempo, Léa segue sua atuação como uma rebelde (integrante da Resistência) e dedica-se a conquistar o coração de François Tavernier, agora seu grande amor. Para completar, a protagonista começa a trabalhar na Cruz Vermelha. 

 

Neste terceiro romance da série, temos as descrições mais intensas dos acontecimentos políticos e históricos da Segunda Guerra Mundial. O final do conflito é farto em episódios significativos. São vários capítulos com muitas páginas dedicadas às cenas e aos personagens reais. A trama da família e dos amigos de Léa Delmas, em várias oportunidades, fica em um segundo plano em “O Sorriso do Diabo”.

 

O momento mais significativo deste livro é uma cena de sexo a três. Léa talvez seja a única protagonista de um romance best-seller que tenha transado com dois homens ao mesmo tempo. Os felizardos são seus amigos de infância: Jean e Raul. Os irmãos, mesmo muito feridos pela guerra, transam com a amiga. Ou seja, a jovem, além de ter vários parceiros sexuais ao longo da série, agora envereda alegremente pelo ménage à trois. Trata-se de uma heroína moderna e corajosa. Impossível não gostar dela.

 

Enquanto vemos a coleção de parceiros amorosos de Léa se multiplicar, também presenciamos a consolidação do amor dela por François Tavernier. Justamente quando a Srta. Delmas pode ficar com Laurent d'Argilat (afinal, ele regressa da guerra e não está mais casado com Camile), a moça descobre preferir o Sr. Tavernier. Curiosamente, o amor deles é intenso, porém nada romântico. Já vimos que Léa, enquanto esperava pelo amado, fazia sexo com amigos. Ele, por outro lado, deitava-se com prostitutas e com outras militantes políticas durante a guerra. Quando ambos não tinham um parceiro a sua disposição, eles optavam pela masturbação. Ao se encontrarem brevemente no meio dos romances, os dois faziam sexo de maneira tórrida e mecânica. Para o casal, não havia qualquer relação entre amor e sexo. Uma coisa é uma coisa e outra coisa era outra coisa. Simples assim.

 

Possivelmente, esta seja a relação amorosa mais liberal estabelecida por um casal de protagonistas na literatura mundial. Os méritos desse fato são todos de Régine Deforges. A autoria francesa teve a audácia de retratar a realidade prática da vida no período da guerra. Ela não fez qualquer concessão ao romantismo idílico e platônico. Depois de se ler a série “Bicicleta Azul”, há grandes chances das personagens românticas se tornem mais artificiais, tolas e sem graça aos olhos dos leitores.

Léa Delmas é a representante máxima do feminismo moderno. A personagem age promovendo o "empoderamento" das mulheres, para usarmos um termo em moda atualmente. A moça é contrária ao casamento, à vida doméstica e à maternidade. Nem precisa dizer que ela apoia a liberdade e a revolução sexuais para ambos os sexos.

 

Quando destacamos os aspectos eróticos da literatura de Deforges e da série "A Bicicleta Azul" é importante fazermos uma ressalva. Os livros da francesa não são parecidos, por exemplo, com a série "Cinquenta Tons de Cinza", da inglesa Erika Leonard James, que explora quase que exclusivamente os momentos libidinosos das suas personagens. Nas narrativas de Régine Deforges, o sexo acontece naturalmente e sem preconceitos, fazendo parte de um enredo maior. Ou seja, o erotismo é parte da trama e não seu elemento principal. Se Deforges descreve com mais detalhes os momentos íntimos das personagens do que nos livros tradicionais (dando algumas linhas ao ato sexual e ao prazer sentido), ela, contudo, não avança nos pormenores como nos romances de James. Assim, hoje em dia, podemos encarar os romances da francesa como possuindo um erotismo soft.

 

“Sob o Céu de Novgorod” (Nova Fronteira) é outra novela histórica de Deforges baseada em fatos reais. Publicada em 1989, a trama é ambientada no século XI. Aproveitando-se de acontecimentos da Idade Média, Régine Deforges elaborou uma intrincada narrativa ficcional com personalidades da corte francesa, inglesa e russa. Ou seja, ao invés de construir um romance calcado em um determinado momento histórico (como ocorreu com os livros de série “A Bicicleta Azul”), Régine Deforge opta, aqui, por dramatizar a vida e os sentimentos de personagens que existiram de fato (algo que Régine já fizera, por exemplo, em "A Revolta das Freiras"). Usam-se os trabalhos e os estudos históricos como matéria-prima para a produção de uma narrativa ficcional.

 

Em “Sob o Céu de Novgorod”, a protagonista é Ana, uma jovem princesa russa. Ela se transforma em rainha francesa, em 1051, após se casar com Henrique I, rei da França. Acostumada a caçar, cavalgar, passear e viajar pelos campos e pelas florestas de seu país, Ana se sente enclausurada na França. A moça também estranha o comportamento de Henrique I. O rei é homossexual assumido e prefere a companhia dos seus valetes à da rainha. Mesmo amada por todos no novo país, Ana se sente solitária e desprestigiada no reino francês.

 

Como um bom livro de Régine Deforges, vamos encontrar aqui uma trama construída em cima de uma mulher jovem, muito bonita e de personalidade forte. Destemida e muito caridosa, Ana tem valores e pensamentos muito à frente do seu tempo. A novidade desse romance é a presença de um homem ultrarromântico. Fiel a valores como honra, fidelidade, coragem e abnegação, Filipe (amigo de infância da protagonista) possui características de um herói à moda antiga. Ele leva uma vida em prol de Ana (sua amada), chegando a se esquecer de si próprio. Trata-se do único personagem masculino importante dos romances de Deforges com essas características. 

 

Outros três elementos corriqueiros nas obras de Régine Deforges e que estão presentes aqui são a grande violência, o erotismo acentuado e o excesso de personagens. O ponto fora da curva é o casamento de Ana (heroína) com o conde Raul de Crépy (o vilão). A rainha, uma vez viúva, aceitou as investidas de um dos maiores crápulas do romance e sobe no altar com ele. A justificativa é hilária: ela alega estar carente de afeto e precisar de um homem viril a seu lado. Depois de anos casada com um homem que a desprezava na cama, Ana encontrou alguém que a desejasse intensamente. Aos olhos da rainha, enfim ela teria um homem que a satisfaria sexualmente. Aí, não importava o quão cruel Raul era com os outros. Ele podia matar, espancar, estuprar e roubar o quanto fosse fora de casa. A esposa só via o quanto o marido era bom para ela e para seus filhos.

 

Este, talvez, seja um dos casais mais improváveis da literatura. A união de Ana e Raul de Crépy provoca certo mal-estar no leitor. “Como isso é possível?” é a pergunta que todos se fazem. A sensação de inconformismo só aumenta quando a protagonista afirma viver os melhores anos de sua vida com aquele homem cruel e repugnante. As maravilhas que ele faz na cama, o carinho genuíno dele para com ela e apoio financeiro de Raul às causas sociais de Ana o transformam no melhor marido do mundo aos olhos da personagem principal.

Em 2014, Régine Deforges faleceu em Paris. Deixou dois filhos, cada um de um casamento. A escritora é até hoje reconhecida como a principal representante da literatura erótica francesa. A série "A Bicicleta Azul", sua principal obra, vendeu mais de seis milhões de exemplares e marcou toda uma geração.

 

Essa foi a autora analisada nesse mês de junho no "Desafio Literário". Em julho, o escritor que estará no radar do Blog Bonas Histórias é Haruki Murakami, um dos mais premiados e cultuados autores japoneses da atualidade. Não perca a continuação das análises literárias do "Desafio Literário" em 2017.

 

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