• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Macunaíma


Darico Nobar: Olá, Brasil! O Talk Show Literário chega ao seu sexto programa trazendo o melhor dos clássicos nacionais. Nosso convidado de hoje é o herói modernista Macunaíma, criação de Mário de Andrade. Boa noite, Macunaíma. E obrigado por aceitar o convite para comparecer à entrevista.

Macunaíma: Vai dar muito trampo este bagulho de gravação?!

Darico Nobar: Acredito que não. São apenas alguns minutinhos de bate-papo. Você poderá permanecer sentado aí no sofá enquanto responde às minhas perguntas. Garanto que você não irá se cansar nadinha. Será preciso apenas conversar comigo.

Macunaíma: Ai que preguiça!

Darico Nobar: Eu tinha preparado outra questão para iniciar essa entrevista, mas, agora diante de você e da sua aparência, fiquei em dúvida sobre sua verdadeira identidade. Você é mesmo o Macunaíma, o protagonista do famoso romance?!

Macunaíma: Ih... Tá me estranhando, é? Sou eu, sim senhor! Por que a dúvida?!

Darico Nobar: Não imaginava que você fosse japonês.

Macunaíma: A treta é que estou sempre me transformando. Até hoje não sei como essa parada maluca acontece. Ano passado, eu estava no corpo de um sertanejo. Sertanejo daqueles que têm cabeça chata e que passam fome lá no Nordeste, não daqueles que cantam música para corno em Goiás. Ano retrasado, eu tinha o aspecto de um gaúcho. Há dois meses, pulei da cama e olhei no espelho. Eu era um japonês. Pensei comigo: "Puta que pariu!". O desespero só aumentou quando fui tomar banho. Aí descobri que o estrago era mais embaixo...

Darico Nobar: Ficar mudando sempre de corpo e de fisionomia não atrapalha sua imagem perante o público leitor? Ninguém deve reconhecê-lo na rua, não é?

Macunaíma: Nunca quis ser famoso. Até porque, quase nenhuma personagem literária tem esse poder no Brasil. Se eu fosse jogador de futebol, artista de TV, traficante, cantor de música ruim ou político, talvez tivesse essa preocupação. Acho que as pessoas até gostam de me ver transmutado em figuras populares, iguais a elas. Há, além do mais, uma vantagem sensacional nessas transformações. Até descobrirem que mudei de rosto, posso permanecer oculto de todos. Isso é ótimo quando estou fugindo. O lado ruim é quando eu fico com a cara do Grande Otelo. Aí é triste!

Darico Nobar: Você tem problemas com a polícia ou com a Justiça, Macunaíma?

Macunaíma: Minhas confusões são normalmente com os homens casados e com os sujeitos que me emprestam dinheiro. Não sei o que se passa, mas eles estão sempre querendo me pegar. É difícil agradar esse tipo de gente!

Darico Nobar: Você se incomoda de ser chamado de "herói sem nenhum caráter"?

Macunaíma: É claro que não! Se eu morasse na Suécia ou no Japão, talvez me incomodasse um pouco. Como vivo no Brasil, dá para tirar isso de letra. Em nosso país, existem poucas pessoas que realmente possuem caráter rígido. Assim, não sou diferente dos meus conterrâneos que optam pela versatilidade das práticas éticas.

Darico Nobar: Você trabalha com o quê?

Macunaíma: Como assim?

Darico Nobar: Qual a sua profissão?

Macunaíma: Eu não tenho profissão.

Darico Nobar: E como você faz para ganhar dinheiro?

Macunaíma: Eu não preciso de muita grana para viver. Não sou ambicioso nem consumista. Um pouquinho já me é suficiente. Recebo um tostãozinho do Bolsa Família que o governo me paga mensalmente desde que eu era nordestino. O restante, eu ganho aqui e ali, fazendo uma coisinha ou outra.

Darico Nobar: E o que seria fazer "uma coisinha ou outra"?

Macunaíma: A gente está sempre andando pelas ruas, conhecendo pessoas, né? É normal os amigos quererem emprestar um dinheirinho vez por outra. Há também aqueles que fazem questão de aplicar capital em alguma boa ideia que tenho. É assim que vou levando: recebo um vintém aqui e outro vintém acolá.

Darico Nobar: Você disse que as pessoas aplicam dinheiro em suas ideias, certo?! Então, você atua como um empresário ou um empreendedor, não é?

Macunaíma: É. Acho que posso dizer isso sim... Sou igual àquele ricaço que recebia investimentos de todo mundo. Não lembro o nome dele... Aquele que é careca e usava uma peruca com topete. Sabe quem é, né? A mulher dele era uma gostosona de parar a avenida. Durante o carnaval, ela desfilava com uma coleira com o nome dele pendurada no pescoço.

Darico Nobar: Você está falando do Eike Batista?

Macunaíma: Bingo! Na essência, sou igualzinho a ele. Pego dinheiro dos outros para fazer investimentos pessoais. Compro coisas que tenho interesse ou que são importantes para a manutenção da minha qualidade de vida.

Darico Nobar: Estou começando a entendê-lo... Quais são, afinal, suas ideias de empreendimento?

Macunaíma: Minha grande meta é construir um negócio altamente rentável com o mínimo esforço. Só assim, poderei ter tranquilidade e conforto sem precisar trabalhar. O foco do empreendimento está no recebimento do dinheiro dos sócios e não na produção de algo. Produzir, vender e entregar são atividades muito desgastantes. Elas não combinam comigo. Só de pensar nelas, dá uma preguiça. Ai que preguiça!

Darico Nobar: E as pessoas aceitam colocar dinheiro nesse seu projeto?

Macunaíma: Claro! É o que todos no Brasil querem: ganhar dinheiro de maneira rápida, prática e na moleza. Sou o porta-voz de um sonho nacional.

Darico Nobar: Macunaíma, o Eike Batista foi preso pela polícia. Isso não o assusta?

Macunaíma: Sério?! Não sabia disso. Para falar a verdade, essa situação deve incomodar mais a ele do que a mim, né? E se ele foi pego, é porque é burro ou molenga. Eu não sou de vacilar. Sou muito inteligente. Jamais serei preso!

Darico Nobar: Como você pode garantir tal coisa?

Macunaíma: Sou um herói, não sou? Minha principal característica é a capacidade de fugir dos meus inimigos. Muita gente já quis me pegar, mas nunca ninguém conseguiu. É assim há quase cem anos. Se eu consegui fugir de Capei, Piaimã e Ceiuci, por que iria ser apanhado pela Polícia Federal e pelo Ministério Público?

Darico Nobar: Você não acredita na força das instituições do nosso país e no poder delas de garantir a lei e a ordem?

Macunaíma: E o jacaré acredita? Nem eu!

Darico Nobar: Quando li o romance do Mário de Andrade pela primeira vez, tive a sensação que... O que você está fazendo, Macunaíma?

Macunaíma: Ai que preguiça! [O entrevistado deita-se no sofá, indicando a vontade de tirar um cochilo].

Darico Nobar: Não é para dormir! A entrevista ainda não acabou. Fique acordado!

Macunaíma: Chame, então, aquela boniteza de vestido azul para vir se deitar comigo nesse sofá. Só assim para eu não cair no sono. Essa nossa conversa está muito chata. Com certeza, a moça conseguirá me alegrar mais do que você.

Darico Nobar: De quem você está falando, Macunaíma? Aquela loira ali na plateia é a minha esposa! Ela veio assistir ao programa desta noite no auditório.

Macunaíma: Ótimo, irmão. Peça para ela vir se deitar comigo. Vou mostrar umas brincadeiras novas para ela. Ela vai me agradecer depois.

Darico Nobar: O que é isso, Macunaíma?! Ninguém vai se deitar com você, muito menos minha esposa. E fique acordado porque temos mais uma parte do programa.

Macunaíma: Ai que preguiça!

Darico Nobar: Por falar em mulher, você continua apaixonado por Ci? Ela foi mesmo o grande amor da sua vida?

Macunaíma: Acho que sim. Nunca mais encontrei uma mulher como aquela. E olha que eu procurei bastante por aí. Para isso, nunca tive preguiça.

Darico Nobar: Você tem algum arrependimento em sua vida, Macunaíma?

Macunaíma: Só de ter perdido o muiraquitã.

Darico Nobar: Isso é algo que não consigo entender. Se essa pedra era tão importante para você e para sua tribo, por que você a perdia sempre por aí?

Macunaíma: Não sei explicar... Eu geralmente a perdia quando estava desatento. Era eu ficar de pernas para o ar que o povo aproveitava para me roubar. Brasileiro é um povo traiçoeiro. Se você pisca o olho, ele rouba algo seu. E por falar nisso, qual o nome da sua mulher? Ela é uma potranca bem azeitada, hein?

Darico Nobar: Pessoal, preciso encerrar o programa um pouco mais cedo hoje para resolver um negocinho aqui. No mês que vem voltamos com mais um Talk Show Literário. Obrigado pela audiência de vocês. Abraço!

Quinteto musical: Ser corno ou não ser/ Eis a minha indagação/ Sem você vivo sofrendo/ Pelos botecos bebendo/ Arrumando confusão...

[A banda encerra o programa cantando "Bois Don't Cry" do grupo Mamonas Assassinas].

Darico Nobar: Volte aqui, seu desgraçado!!! Não fuja que eu te pego.... Quero ver você mexer com minha mulher de novo... [O apresentador corre atrás do entrevistado no palco. Enquanto isso, os microfones são cortados e os créditos sobem na tela].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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