• Ricardo Bonacorci

Livros: "Norwegian Wood" - A obra-prima de Haruki Murakami


Li, no último final de semana, o livro "Norwegian Wood" (Alfaguara) de Haruki Murakami. Publicado em 1987, esse romance é considerado a obra-prima do escritor japonês. E ele é realmente excelente. Depois de ter ficado maravilhado com "Caçando Carneiros" (Alfaguara) na semana passada, achei que não fosse encontrar nada mais interessante no trabalho de Murakami. Estava redondamente enganado. "Norwegian Wood" é ainda melhor do que a obra anterior.

Esta publicação consolidou a carreira literária do seu autor como um dos principais escritores contemporâneos. Sucesso imediato no Japão, o livro vendeu mais de dez milhões de exemplares no país asiático. No exterior, foram três milhões de unidades comercializadas. "Norwegian Wood" se transformou em um ícone cultural de sua geração, sendo publicado em mais de quarenta países e traduzido para mais de trinta idiomas. Haruki Mirakami tornou-se, assim, um superstar entre os jovens japoneses na virada da década de 1980 para a de 1990. Esse público leitor, enfim, via refletida na literatura suas inquietações e seus dramas mais íntimos. Se "Caçando Carneiros" foi um sucesso comercial retumbante e virou um livro best-seller, "Norwegian Wood" é uma obra desde já clássica.

Com fortes traços autobiográficos, "Norwegian Wood" trata com lirismo as angústias da juventude. A temática principal é o amor incompleto e fragmentado, típico dos tempos modernos. Em um romance reflexivo, filosófico e muito erótico, Murakami coloca o dedo na ferida ao desnudar as complicações dos relacionamentos afetivos. Em um ambiente mórbido e com personagens extremamente confusas e perturbadas, a história é o retrato de uma geração ao mesmo tempo deprimida e oprimida.

O enredo do livro se passa essencialmente em Tóquio no ano de 1968. Porém, a trama começa com uma cena fortuita que ocorre em 1986, na Alemanha. Um avião pousa no aeroporto de Hamburgo. Enquanto os passageiros aguardam a aeronave estacionar, no autofalante do Boeing toca uma canção dos Beatles. Trata-se de uma versão orquestrada de "Norwegian Wood". A música emociona um dos passageiros, um japonês de 37 anos. A melodia traz automaticamente lembranças de sua juventude e do grande amor de sua vida. Em questões de segundos, os pensamentos da personagem viajam para quase duas décadas atrás. Ao acompanharmos essas lembranças, voltamos com ele ao Japão e aos anos finais da década de 1960.

Tem-se, então, o início do romance propriamente dito. O jovem Toru Watanabe é um universitário de 19 anos que se mudou recentemente de Kobe para Tóquio para cursar Teatro. É ele quem narra a trama em primeira pessoa. O protagonista vive de maneira solitária em um alojamento estudantil de sua universidade. Apaixonado por literatura e pela música, Toru passa seus dias de maneira trivial. Sua rotina banal é constituída pela leitura de obras clássicas, longas caminhadas solitárias a pé pela cidade e a limpeza de seu pequeno apartamento.

Ele quase não tem amigos. Essa sua postura antissocial é fruto de uma tragédia do passado ainda não totalmente digerida por ele. Seu grande amigo de infância, Kizuki, se suicidou aos 17 anos. As lembranças desse episódio transformaram a personagem principal em uma pessoa extremamente introspectiva, melancólica e descrente em relação ao futuro. A perda do amigo afetou diretamente sua capacidade de conviver com os outros e de constituir novas amizades. Toru Watanabe interage com apenas dois colegas na universidade. O primeiro é seu colega de quarto. Apelidado de Nazista, o rapaz é bitolado por geografia e maníaco por higiene. O segundo é um colega mais velho. Nagasawa é um moço rico, mimado e arrogante que se diverte traindo a namorada com o maior número de parceiras.

Watanabe é apaixonado pela bela Naoko. Esse sentimento, entretanto, não é correspondido por ela. A moça é ex-namorada de Kizuki. O suicídio do adolescente aproximou Naoko, que também se mudou para Tóquio para cursar faculdade, e Toru Watanabe. A dupla se encontra frequentemente para caminhar em silêncio. Os dois são grandes amigos, apesar de conversarem muito pouco. Naoko tem sérios problemas psicológicos que afetam seus sentimentos amorosos e seus comportamentos. Ela não consegue gostar de ninguém e vive depressiva. Sua frigidez torna tudo ainda mais complicado. A crise mental se agrava e ela vai parar em um sanatório. Com Naoko distante, a paixão de Toru pela amiga fica mais platônica.

Quem é apaixonada por Watanabe é Midori Kobayashi, uma colega de universidade do protagonista. Midori é extremamente diferente de Naoko. Divertida, lasciva, extrovertida e companheira, Midori faz com que os sentimentos de Toru por Naoko se tornem confusos. A personagem principal terá que se decidir: espera seu grande amor se recuperar dos problemas mentais ou se joga imediatamente aos braços da jovem colega que o ama perdidamente?

O romance é praticamente uma versão japonesa e contemporânea do poema "Quadrilha" de Carlos Drummond de Andrade (aquele em que "João amava Teresa/ que amava Raimundo/ que amava Maria/ que amava Joaquim/ que amava Lili"). Afinal, podemos resumir o livro de Murakami como: Midori amava Toru que amava Naoko que amava Kizuki. Kizuki se suicidou, Naoko foi para o hospício, Toru não decidiu o que fazer, Midori aguardava uma definição e Reiko, que não tinha entrado na história, resolveu enfrentar seus problemas de frente. De certa maneira, esse é um jeito objetivo de se explicar com propriedade o roteiro dessa publicação.

O título do livro, como fica claro na primeira página da obra, remete ao nome de uma canção dos Beatles. "Norwegian Wood" é a música preferida de Naoko. Ela é tocada por Reiko Ishida, colega de Naoko no sanatório, para alegrar a amiga. Assim como a letra da canção da banda inglesa, "Norwegian Wood" de Murakami é o retrato cabal da melancolia, do vazio emocional e da confusão mental dos jovens no instante de entrarem na vida adulta.

Acho que esse romance está em um patamar muito próximo a "O Apanhador no Campo de Centeio" (Editora do Autor), de J. D. Salinger, uma das principais obras sobre o universo juvenil. Também me lembrei de outros autores e livros durante essa leitura: "Quem é Você Alasca?" (Intrínseca), de John Green, pela iniciação sexual na adolescência; "A Insustentável Leveza do Ser" (Nova Fronteira), de Milan Kundera, pela reflexão poética das relações amorosas; "Alta Fidelidade" (Companhia das Letras), de Nick Hornby, pela influência da música e da cultura pop na narrativa; "A Bicicleta Azul" (Best Bolso), de Régine Deforges, pela banalidade do sexo na sociedade contemporânea; e "Veronika Decide Morrer" (Arqueiro), de Paulo Coelho, pelos problemas psicológicos de algumas personagens e pela trama ambientada em um manicômio. De alguma maneira, o romance de Haruki Murakami é a melhor representação literária dos conceitos abordados em "Modernidade Líquida" (Zahar) por Zygmunt Bauman.

A primeira impressão que temos durante a leitura de "Norwegian Wood" é que não há ninguém efetivamente são na obra inteira. Todos os indivíduos possuem níveis elevados e variados de psicopatias. Suas relações interpessoais são precárias e um tanto doentias. Não é à toa que parte da trama se passe em um sanatório. Nesse local, é quase impossível distinguir os pacientes dos médicos. Curiosamente, as pessoas fora da instituição psiquiátrica parecem mais problemáticas do que as que estão dentro.

Outra questão muito forte é o erotismo. Essa é a obra mais sexual de Haruki Murakami. As personagens falam, pensam, querem ou fazem sexo sem parar. Há todo tipo de cena envolvendo aspectos libidinosos das personagens: homossexualismo, masturbação, sexo oral, sexo casual, swing, traição, orgia, sexo com pessoas mais velhas, sexo com menores de idade, etc... Ao mesmo tempo, há uma diferença gigantesca entre a prática sexual e o amor. Muitos casais que se amam ficam sem transar entre si. Eles preferem outras companhias ao do parceiro preferencial. Enquanto os amantes permanecem castos (entre si), eles procuram visitar a cama de outras pessoas (muitas delas desconhecidas) para "aplacar os instintos naturais". Trata-se de um grande paradoxo. A fidelidade conjugal não passa pela monogamia e sim pelo respeito ao corpo da pessoa amada. É muito curiosa essa relação entre o amor e o sexo.

Nesse sentido, as três principais personagens femininas da trama representam simbolicamente as figuras afetivas mais importantes do protagonista. Aos olhos de Toru Watanabe, Naoko, Midori e Heiko simbolizam o amor platônico, o amor carnal e o amor materno, respectivamente. Juntos, o trio compõe o cenário sentimental do homem contemporâneo, que fragmenta seus amores em pessoas e situações distintas.

Outro elemento que assusta durante o romance é a epidemia de suicídios. Grande parte das personagens se mata ou quer se matar. Às vezes, parece que não vai sobrar ninguém para contar a história no final. A vida não tem sentido para as pessoas. A existência e o cotidiano são sinônimos de sofrimento e de amargura. Apesar de essa temática aparecer em todos os romances do autor, é em "Norwegian Wood" que a questão do suicídio se torna epidêmica e mais doentia.

Esse livro mantém algumas das principais características literárias de Haruki Murakami: narrativa em primeira pessoa; protagonista solitário, introspectivo e confuso; personagem com psicopatias e com dificuldade para encontrar o amor e a amizade; clima melancólico e triste; forte referência à cultural popular, principalmente à música e à literatura; erotismo acentuado; linguagem simples e direta, com frases curtas e objetivas; e retrato do cotidiano banal e da vida pacata de forma reflexiva e um tanto poética. Por outro lado, vemos o desaparecimento do humor, do ambiente onírico e dos elementos fantásticos (características estas muito fortes em "Caçando Carneiros").

O final é um tanto previsível. Mesmo assim, esse detalhe não tira a beleza do livro e da história.

"Norwegian Wood" é a magnum opus de Murakami. Aqui temos um autor em sua plenitude e com total domínio na arte de produzir uma narrativa sensível, profunda e inquietante. Este é, sem dúvida nenhuma, um dos melhores livros que li nos últimos anos.

Amanhã, começarei a leitura de "Minha Querida Sputnik" (Alfaguara), o quinto romance de Haruki Murakami deste Desafio Literário. Meu plano é terminar este livro no final de semana. Aí, poderei voltar aqui para comentá-lo. Aguardem novidades!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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