• Ricardo Bonacorci

Livros: Pinball, 1973 - A segunda novela de Haruki Murakami


O livro que vamos analisar agora no Desafio Literário é "Pinball, 1973" (Alfaguara). Essa é a segunda novela criada por Haruki Murakami. Ela foi publicada em 1980, dois anos após o lançamento de "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara), a estreia do autor japonês na literatura. "Pinball, 1973" é basicamente a sequência da trama anterior e foi produzida em uma fase da vida em que Murakami não era ainda um escritor profissional. Naquela época, ele administrava um bar em Tóquio. A literatura era apenas um hobby e sua produção era realizada de madrugada na mesa da cozinha de sua residência.

No final de 2016, a Alfaguara lançou, pela primeira vez no Brasil, essas duas novelas de Murakami. Na novíssima edição, "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973" foram publicados em um único livro. O projeto editorial contou com a tradução diretamente do japonês para o português (permitindo uma maior semelhança com o estilo literário das obras originais) e teve o acréscimo de um prefácio produzido pelo autor. Além disso, o projeto gráfico da obra é memorável. Esta edição é daquele tipo de livro para se ler e, também, para se contemplar visualmente. Muito provavelmente, essa foi a obra mais bonita que adquiri nos últimos anos. Seu acabamento é espetacular! Realmente, os trabalhos iniciais de Murakami mereciam uma atenção deste tipo por parte da editora brasileira.

A história de "Pinball, 1973", como seu próprio nome faz menção, se passa no ano de 1973. Ou seja, a narrativa se dá três anos após o término de "Ouça a Canção Vento". O narrador é o mesmo e continuamos sem saber seu nome. Uma vez concluída a faculdade, o protagonista permanece morando em Tóquio, mas não quer mais saber da Biologia, sua antiga paixão. Ele é agora sócio de um escritório de traduções. A empresa é especializada em traduzir para o idioma japonês obras literárias clássicas.

A vida do rapaz é monótona, solitária e entediante. A melancolia continua sendo a base de sua existência. A novidade é o surgimento misterioso de duas jovens gêmeas no apartamento da personagem principal. Elas passam a viver com o rapaz, dando vazão ao antigo desejo sexual masculino de ter duas mulheres ao mesmo tempo. Passada a excitação inicial dessa incomum composição doméstica, a vida do protagonista volta ao marasmo corriqueiro.

Nem mesmo o fato de ter duas gêmeas nuas ou seminuas em casa (elas têm pouca roupa e preferem passam o dia mais à vontade) é capaz de trazer alguma alegria para a vida do narrador da novela. A grande motivação dele será a procura por uma antiga máquina de fliperama que desapareceu do seu bairro. As luzes, os barulhos, a empolgação do jogo e a movimentação frenética da bolinha do pinball parecem ser as únicas coisas capazes de trazer alguma alegria e sentido à existência humana.

Enquanto acompanhamos o dia a dia do protagonista, também ficamos sabendo da vida de Rato, amigo de longa data da personagem principal. Rato permanece morando em sua cidade natal. Apesar do tédio e da infelicidade de viver na pequena cidade litorânea, inexplicavelmente ele não consegue deixar o local. Sem um relacionamento amoroso sério e não trabalhando, ele segue frequentado J's Bar quase que diariamente. Se a vida do narrador é melancólica, a rotina de Rato é assustadoramente deprimente. Seu dia se resume a beber, beber, beber e a se lamentar.

"Pinball, 1973" é muito parecido a "Ouça a canção do Vento" (não é à toa que seja uma sequência narrativa, né?). Sua trama é desconexa e entrecortada. Os capítulos são curtos e seguem sem qualquer sequência cronológica. A linguagem é simples e direta, sem rodeios. A história tem um caráter reflexivo e um tanto onírico. As cenas banais do cotidiano amargo dos indivíduos continuam dando o tom.

As neuroses e os medos das personagens, contudo, parecem se tornar mais sérios. A psicopatia de cada uma das figuras descritas no livro atingem níveis altíssimos e inacreditáveis. Ao mesmo tempo, essas pessoas seguem conformadas com suas vidas e seus destinos, não fazendo nada para mudar o cenário pessimista da qual estão inseridas. Neste caso, Rato torna-se o símbolo máximo de mutismo, solidão, melancolia e indecisão. Ele tem sérias dificuldades para assumir as responsabilidades típicas da vida adulta.

Apesar dos elementos sombrios, essa não é uma novela pesada e com um ambiente opressor (por mais paradoxal que possa parecer). Pelo contrário. "Pinball, 1973" chega a ser uma narrativa leve e encantadora. As explicações para essa característica é o humor perspicaz de Murakami e a enxurrada de elementos da cultura pop inseridos na trama.

O bom humor de Haruki Murakai aparece com mais intensidade nessa novela do que na anterior. Tudo é motivo para sacadas hilárias do autor. O surgimento de personagens secundárias mais bem desenvolvidas e a construção de cenas de total nonsense auxiliam nessa empreitada. O ápice é o enterro de um caixa de força pelas gêmeas desmioladas. Impossível não rir!

"Pinball, 1973", assim como aconteceu com "Ouça a Canção Vento", também usa e abusa da inserção de trilhas sonoras e de comparações literárias. A trama ganha em musicalidade (e sinestesia) com as citações e os comentários sobre as canções populares da época. Ouvi-las durante a leitura permite ao leitor entrar no clima da história com mais intensidade. As reflexões extraídas de autores clássicos da literatura, por sua vez, confere um caráter ao mesmo tempo erudito e filosófico à novela. Muitas das opiniões e das sensações das personagens são externadas por passagens extraídas de outros livros.

As referências culturais não se restringem ao universo da música e da literatura. A enxurrada pop engloba de filmes e programas de televisão a esportes e hábitos de lazer. Destaque, nesse caso, para o mundo dos games. O pinball torna-se um ícone cultural para os jovens japoneses durante a década de 1970. O fliperama atrai o fanatismo dos seus usuários e os leva, como uma droga eletrônica, ao vício e a dependência. Muito interessante a inclusão desse aspecto na história.

Minha impressão é que "Pinball, 1973" é uma trama mais complexa e melhor trabalhada do que "Ouça a Canção do Vento". Aqui, Haruki Murakami desenvolve com mais intensidade os aspectos principais da história. Há um pouco mais de ação e uma variedade maior de personagens secundárias. Ele também acrescenta de maneira bem-sucedida alguns recursos narrativos novos e aprimora outros. O humor, a sexualidade mais aflorada, o universo filosófico e a riqueza do conteúdo dos diálogos são os melhores representantes dessa característica.

"Pinball, 1973" é uma boa novela. Encaro-a como sendo uma continuação natural da obra de estreia de Murakami. Por isso, recomendo a leitura de ambas na sequência. Nesse sentido, a edição da Alfaguara englobando as duas novelas em um mesmo livro foi acertadíssima. Ela mostra o quanto as duas narrativas são complementares e estão unidas intrinsecamente. O livro com as duas tramas tem 264 páginas. Eu li as duas novelas no final de semana passado. Conclui "Ouça a Canção do Vento" na viagem de ônibus para Minas Gerais e finalizei "Pinball, 1973" na jornada de retorno a São Paulo.

Quem quiser continuar lendo as aventuras melancólicas do protagonista sem nome e de seus estranhos amigos Rato e de J, saiba que as tramas envolvendo essas personagens não acabam aqui. Haruki Murakami deu prosseguimentos às narrativas com essas figuras nos romances "Caçando Carneiros" (Alfaguara), de 1982, e "Dance Dance Dance" (Alfaguara), de 1988.

Confesso que estou curioso para saber como é "Caçando Carneiros", o primeiro romance do autor japonês. Essa obra foi a responsável por tornar Murakami um artista de sucesso no Japão. Seu lançamento aconteceu em 1982 e marca, segundo o próprio autor, a transformação dele em um escritor profissional. Vou ler esse livro e na próxima sexta-feira, dia 14, retorno ao Desafio Literário para comentá-lo. Até mais!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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