• Ricardo Bonacorci

Filmes: O Círculo - A invasão de privacidade em um futuro não tão distante


O Círculo (The Circle: 2017)

Em tempos de exposição excessiva das pessoas nas redes sociais, do quase extermínio da privacidade pessoal, do desenvolvimento exponencial do Big Data e da concentração de poder em empresas monopolistas, assistir ao filme "O Círculo" (The Circle: 2017) é muito elucidativo. Confesso que saí da sala de cinema pensando nos hábitos que temos atualmente. Até onde nossa fixação pela tecnologia irá nos levar, hein?!

"O Círculo" é novo filme de James Ponsoldt, diretor de "O Fim da Turnê" (The End Of The Tour: 2015) e "O Maravilhoso Agora" (The Spectacular Now: 2013). Lançada no final do mês passado, esta produção teve um orçamento de U$ 18 milhões e contou em seu elenco com nomes de peso como Tom Hanks, Emma Watson e Bill Paxton (em seu último trabalho antes de falecer no início do ano). O filme é uma adaptação do livro homônimo de Dave Eggers, um jovem escritor norte-americano. O romance foi publicado, em 2013, nos Estados Unidos e, no ano seguinte, aqui no Brasil. A adaptação da história das páginas impressas para a telona ficou a cargo de Ponsoldt.

O Círculo (The Circle: 2017) - Dave Eggers

O enredo do filme se passa quase que integralmente dentro do O Círculo, a poderosa empresa de tecnologia que domina o mercado mundial. A companhia sediada na Califórnia, provavelmente no Vale do Silício, é algo como a somatória do Facebook e do Google. Em uma comparação mais abrangente, ela pode também ser vista como a união dessas duas empresas com a Microsoft e a Apple. Imagine só o poder de uma organização empresarial fruto dessa junção?! O Círculo se tornou uma companhia dessa magnitude ao adquirir todas as demais empresas de tecnologia do planeta. Onipresente (e por que não, onisciente) no mercado, ela atua desde a operação de e-mails e o gerenciamento das mídias sociais até a intermediação das transações bancárias e a administração dos sistemas de compras.

É no O Círculo que Mae Holland (interpretada por Emma Watson), uma jovem interiorana, vai trabalhar. Ajudada por uma amiga, que é executiva na empresa, Mae consegue o cargo de assistente de atendimento aos clientes de e-mail. A moça se sente realizada na função. Mais divertido do que a atividade profissional em si é a rotina dela no campus da companhia. Os milhares de funcionários do O Círculo moram e trabalham na sede da empresa. Nas horas de folga, eles são agraciados com intermináveis festas e shows que podem durar a noite toda. Bebida e comida são itens que todos podem consumir à vontade. Há também incontáveis opções de lazer e de entretenimento no local. Mae não acredita na sorte que teve. Ela está em um lugar idílico. O Círculo é onde nove entre dez jovens do planeta sonham em trabalhar.

Contudo, à medida que a novata vai conhecendo os bastidores do O Círculo e vai sendo promovida, ela percebe que sua organização não é tão maravilhosa assim. O domínio sobre a vida das pessoas e a influência em relação aos governos e aos países fazem da empresa um agente corrosivo para a sociedade. O Círculo e seus principais executivos, Eamon Bailey (Tom Hanks) e Tom Stenton (Patton Oswalt), fundador e CEO, respectivamente, são antiéticos e pouco preocupados com o bem-estar coletivo. Mae só irá descobrir esse aspecto da sua empregadora quando tiver se tornado a garota propaganda de um dos produtos mais ambiciosos da instituição. Aí, poderá ser tarde de mais para ela corrigir os rumos que deu para sua vida.

O Círculo (The Circle: 2017) - Tom Hanks

"O Círculo" é uma distopia que dialoga intimamente com a nossa realidade atual. O ponto mais interessante do seu roteiro é ver até onde pode chegar o mundo com a evolução de hábitos, tecnologias e comportamentos contemporâneos (um futuro, de certo modo, não tão distante assim). Impossível não relacionar a empresa retratada na ficção com o jeitão do Facebook e do Google em tratarem seus clientes/usuários e em cativarem seus funcionários. Neste sentido, "O Círculo" se diferencia muito de outros filmes do gênero. "Jogos Vorazes" (The Hunger Games: 2012), "Maze Runner - Correr ou Morrer" (The Maze Runner: 2014) e "Divergente" (Divergent: 2014), por exemplo, são muito mais distópicos e futuristas. A produção de James Ponsoldt é mais real e contemporânea do que seus similares.

Gostei principalmente do futuro descrito em "O Círculo" ser relacionado ao mundo atual de maneira indireta. A força dessa narrativa está nas entrelinhas e não em sua mensagem literal. Assim, o espectador precisa ser crítico e inteligente para entender o conteúdo passado pelo filme.

Se o roteiro é ousado e inteligente, por outro lado, sua história demora muito até empolgar. Mais da metade do filme caminha em ritmo lento, explicando ao público as características da empresa e os detalhes das personagens. Se tal expediente em um romance é fundamental para construir o clima da trama, em uma produção cinematográfica de 1 hora e meia, essa demora talvez seja um grave problema para os espectadores mais ansiosos.

O Círculo (The Circle: 2017) - Emma Watson

Apenas no quarto final, o drama de Mae Holland se torna realmente empolgante e com algumas surpresas interessantes. O final é de longe o instante em que "O Círculo" se torna mais emocionante e com muita ação. Apesar do carisma de Tom Hanks e da boa atuação de Emma Watson, a sensação é que o desenrolar desta produção poderia ter sido acelerado em seu início.

Saí da sessão com a impressão de que o filme tem uma proposta espetacular, mas que não conseguiu executar com a intensidade necessária o que almejava. Assim, "O Círculo" é somente uma produção razoável. Se você quiser assistir a um debate mais rico sobre os atuais problemas causados pela tecnologia, o recomendável é ver alguns dos episódios do seriado "Black Mirror". Lá sim o roteiro é, na maioria das vezes, bem executado e com um resultado final surpreendente e satisfatório.

Veja o trailer de "O Círculo":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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