• Ricardo Bonacorci

Livros: Caçando Carneiros - O primeiro sucesso de Murakami


Só depois de ler "Caçando Carneiros" (Alfaguara), compreendi os motivos que levaram Haruki Murakami a desprezar suas duas primeiras novelas. Se "Ouça a Canção do Vento" (Alfaguara) e "Pinball, 1973" (Alfaguara) são obras interessantes, "Caçando Carneiros" é uma criação espetacular do escritor japonês. Percebe-se um maior cuidado do autor com a narrativa e a inclusão de novos elementos literários na trama. Além de muito divertido, o livro possui um mistério de estilo nonsense que prende o leitor nas páginas. Para completar, a história tem muito mais ação do que as publicações antecessoras.

Primeiro romance da carreira de Murakami, "Caçando Carneiros" foi publicado originalmente em 1982. A obra tornou Haruki efetivamente um escritor profissional. O sucesso do livro o transformou em um autor conhecido e muito querido no Japão. A partir daquele momento, ele passou a se dedicar prioritariamente à literatura. O êxito comercial do romance alcançou também o exterior. O livro teve ótima aceitação nas livrarias dos Estados Unidos e da Europa. Haruki Murakami se transformou, então, em um best-seller internacional.

"Caçando Carneiros" continua a história narrada nas duas primeiras novelas publicadas pelo japonês. Em "Ouça a Canção do Vento", temos o narrador-protagonista relatando as férias passadas em sua cidade natal no verão de 1970. Naquela oportunidade, ele, que não teve seu nome revelado, era um universitário de 20 anos de idade e descrevia suas primeiras experiências amorosas. Já em "Pinball, 1973", a personagem principal conta como está sua vida no ano de 1973. Nesse segundo instante, o rapaz já é um homem adulto e trabalha como sócio em um escritório de traduções em Tóquio. Contudo, ele continua com um grande vazio existencial, procurando encontrar seu lugar no mundo. Rato e J, seus antigos amigos, seguem com suas rotinas monótonas e entediantes na pequena cidade do litoral retratada na primeira novela.

Em "Caçando Carneiros", damos um pulo no tempo e avançamos até o meio do ano de 1978. Agora, o protagonista, que continua narrando a história em primeira pessoa, é um homem casado. Ou melhor, era casado. Ele acabou de se separar. Ele havia se casado com uma funcionária da sua empresa, mas o relacionamento não deu certo. A moça se cansou, depois de alguns anos, do jeito introspectivo e melancólico do marido. O antigo escritório de traduções do narrador, por sua vez, cresceu e se transformou em uma agência de publicidade de tamanho médio. Rato, enfim, tomou coragem e saiu da sua cidade, ganhando o mundo. Ele passou a viajar sem parar e raramente entra em contato com os antigos amigos. J, por sua vez, ampliou seu negócio e continua administrando o bar.

A vida pacata e a rotina banal da personagem principal sofrem uma grande reviravolta com dois fatos. O rapaz se apaixona por uma modelo que também trabalha como prostituta. A moça tem as orelhas mais belas do mundo segundo o protagonista. Ele acaba seduzido por aquele par de orelhas. Para não se expor gratuitamente à sociedade, a jovem contrai suas orelhas para elas não ficarem visíveis (não tente entender como isso é possível, ok?). Além disso, as orelhas possuem poderes mediúnicos (também não queira, por favor, compreender a lógica desse processo!). Assim, a moça consegue fazer previsões sobre o futuro e tem a habilidade de descobrir quais as melhores decisões que as pessoas devem tomar.

O segundo episódio desconcertante é o surgimento de um homem misterioso no escritório da personagem principal. O visitante se apresenta como secretário particular do mais importante empresário japonês. Um anúncio publicitário criado pelo narrador teve o poder de chamar a atenção dos altos funcionários do conglomerado empresarial. A foto de um carneiro na propaganda expos sem querer um lado obscuro da vida do antigo fundador da companhia. Por isso, o secretário ameaça o protagonista. Ou o publicitário descobre onde está o tal carneiro da imagem publicada ou o grande grupo empresarial, que possui grande influência política e mercadológica, irá arruinar de uma vez por todas a agência de propaganda.

Aí, a história ganha contornos fantásticos. Tudo é possível nessa intrigante trama. A busca pelo carneiro mágico é o único elemento capaz de dar sentido à vida da personagem principal. A viagem pelo Japão atrás do animal mostrará detalhes desconhecidos das vidas do narrador e de seu melhor amigo. Rato, que aparentemente estava sumido do romance, torna-se de repente uma das peças centrais para a compreensão do enigma. O fio narrativo é evidentemente forçado, mas o enredo é bastante criativo e divertido.

"Caçando Carneiros" possui boa parte dos elementos literários encontrados nas duas primeiras novelas de Murakami. Contudo, esses componentes aparecem melhores desenvolvidos nessa publicação. A monotonia do cotidiano e a banalidade do mundo contemporâneo dão o tom à história. As personagens são desajustadas e incompletas, não encontrando sentido em suas vidas fúteis e desinteressantes.

A impessoalidade é novamente marcada pela ausência de nomes próprios. O gato do protagonista, por exemplo, viveu muitos anos sem ter um nome, sem que isso parecesse estranho aos olhos (e aos ouvidos) de seu dono. Ironicamente, o bichinho foi apelidado de "Sardinha" por um desconhecido que ficou perplexo com um animal de estimação sem nome próprio. Esse fato explica a imagem de um peixe presente na capa do livro. Na verdade, o peixe é uma sardinha, nome do gato do personagem principal, que procura por um carneiro. As coisas podem parecer estranhas em um primeiro momento (em um segundo, terceiro e quarto instantes também)...

O suicídio é, muitas vezes, o caminho encontrado por muitas personagens para dar fim ao sofrimento diário de existir. As relações sentimentais e sexuais são fragmentadas, frustrantes e perecíveis. O erotismo continua permeando à trama em quase todos os instantes. Além disso, há a continuação da pegada pop. Muitos elementos da cultura contemporânea (músicas e livros, principalmente) desfilam pelas páginas do romance, indicando aspectos fundamentais das personalidades das pessoas.

O que "Caçando Carneiros" tem de diferente (e que torna esse romance tão surpreendente) é o aumento da dosagem de alguns elementos literários e o surgimento de algumas novidades narrativas (inovadoras em se tratando das obras de Murakami). O humor e o ambiente onírico tornam-se ainda mais fortes nesse livro. Se nas primeiras novelas, havia cenas engraçadinhas, nesse romance tudo é completamente amalucado, levando o leitor a dar boas risadas. Com isso, surgem personagens espetaculares. Até mesmo os papéis secundários são compostos por figuras excêntricas. O motorista de carro, o gerente de hotel ou mesmo o gato do protagonista são descritos de maneira cômica e muito melancólica. Parece que ninguém é plenamente feliz nesse romance. É impossível o leitor ficar indiferente a cada uma dessas pessoas.

A mistura do que é verdade e do que pode ser um sonho confere também um colorido especial à narrativa. A magia e o sobrenatural ganham força, apresentando uma faceta até então não explorada por Murakami. "Será mesmo que o que se passa nas páginas do livro é factual?" é a pergunta que o leitor se faz em vários momentos. O clima nonsense predomina durante quase todo o livro. A história é tão interessante que acabamos nos esquecendo do aspecto inusitado e pouco viável da trama descrita.

Outro aspecto positivo é o surgimento de mistério, suspense e ação. Se as histórias anteriores de Murakami eram pautas pelo imobilismo, pelo tom reflexivo e pela descrição de cenas bobas do cotidiano, aqui temos, enfim, algo acontecendo. A narrativa ganha contornos concretos de aventura (principalmente na segunda metade do romance). A personagem principal precisa atuar como um detetive particular para descobrir fatos que podem precipitar em episódios trágicos.

"Caçando Carneiros" é um ótimo livro. Em suas páginas, encontramos um Haruki Murakami realmente pleno na capacidade de contar uma boa história. Ao mesmo tempo em que o romance emociona e nos faz refletir sobre nossas vidas, ele também nos diverte. O legal é que mesmo sendo uma sequência, é possível ler "Caçando Carneiros" sem ter lido "Ouça a Canção do Vento" e "Pinball, 1973". Se bem que acho mais interessante conhecer primeiramente as obras precedentes.

Para quem gostou dessa aventura e quiser prosseguir com a narrativa do protagonista sem nome de Murakami, a recomendação é o livro "Dance Dance Dance" (Alfaguara). Publicada em 1988, a obra coloca ponto final à saga do introspectivo personagem, descrevendo sua procura pela namorada de orelhas maravilhosas que (cuidado: aí vai um pequeno spoiler!) desaparece misteriosamente no final de "Caçando Carneiros".

Infelizmente, não iremos analisar no "Desafio Literário" o romance "Dance Dance Dance". A ideia é mergulharmos em novas tramas do escritor japonês. O próximo livro que será lido e comentado aqui no Blog Bonas Histórias é "Norwegian Wood" (Alfaguara), obra-prima de Murakami. Publicado pela primeira vez em 1987, esse romance consolidou seu autor como um dos grandes nomes da literatura contemporânea. Não perca o post com a análise de "Norwegian Wood" na próxima terça-feira, dia 18. Até lá!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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