• Ricardo Bonacorci

Livros: Minha Querida Sputnik - O romance mais filosófico de Murakami


Chegamos ao quinto livro de Haruki Murakami deste Desafio Literário. "Minha Querida Sputnik" (Alfaguara) é uma leitura rápida e prazerosa. Com apenas 232 páginas, o romance é o mais enxuto do escritor japonês. Comecei a lê-lo na última quarta-feira e o concluí na noite seguinte. Por outro lado, esta é a obra que possui mais elementos filosóficos, gerando intensa reflexão por parte do leitor. Misturando espiritualidade e intrincados dramas amorosos, Murakami produziu uma narrativa sensível e emocionante. O livro se tornou cultuado tanto no Japão quanto no exterior ao abordar de maneira angustiante o amor e a sexualidade no mundo contemporâneo.

"Minha Querida Sputnik" foi publicado originalmente em 1999. Ou seja, trata-se de um livro lançado uma década depois do auge literário de Haruki Murakami, que ocorreu na segunda metade da década de 1980. O que vemos nessas páginas é um autor maduro e consciente do seu trabalho como ficcionista. Além disso, a obra apresenta as principais características literárias de Murakami. Essa é, provavelmente, a trama mais triste e amarga da carreira do japonês. Em meio a um Japão moderno, superpovoado e tecnológico, os indivíduos continuam sofrendo por amor, sem conseguirem canalizar suas emoções de maneira positiva.

A história de "Minha Querida Sputnik" é narrada em primeira pessoa por K. O rapaz é um jovem professor de uma escola primária de Tóquio. Ele tem uma grande amiga, Sumire, por quem é apaixonado. Porém, a moça não demonstra o mesmo sentimento. Aos olhos dela, K. é apenas um bom amigo e jamais será algo mais do que isso. Pode-se dizer que o livro é sobre a vida de Sumire, definitivamente uma pessoa muito exótica, e o amor platônico do narrador por ela.

Sumire é uma jovem de 22 anos que vive de maneira solitária na capital japonesa. Ela não possui nenhum amigo (K. é a exceção) e tem sérias dificuldades para interagir com aqueles que estão a sua volta. A moça jamais se apaixonou por alguém e se mantém virgem. Esse aspecto parece não preocupá-la. Afinal, ela não demonstra nenhum sentimento afetivo nem vontade sexual. A jovem também se veste de maneira esdrúxula, lembrando muito a personagem Louisa Clark, do romance "Como Eu Era Antes de Você" (Intrínseca), da inglesa Jojo Moyes. Para completar o quadro, a personagem de Murakami também não se interessa por nada que não seja a literatura.

Sumire abandonou a universidade para se tornar romancista. Recebendo uma ajuda mensal dos pais, a jovem vive sozinha em um pequeno e bagunçado apartamento no centro da cidade. Sua rotina é baseada na leitura de todo tipo de obra ficcional e na produção de textos com suas impressões sobre a vida. Seu sonho é escrever um romance grandioso e se tornar uma escritora profissional. Essa parece ser sua única preocupação. Todo o resto é visto como supérfluo.

Ou seja, as atitudes e os pensamentos de Sumire são estranhos, muito estranhos! Por exemplo, ela telefona de madrugada para K. para discutir coisas banais do dia a dia. Ela não cumprimenta ninguém e raramente conversa com alguém. A única pessoa no mundo em que ela aceita interagir minimamente é com seu único amigo, K. Contudo, o rapaz só aceita as extravagâncias e as esquisitices da moça porque é apaixonado por ela, nutrindo uma esperança cega de conquistar o coração dela algum dia.

A vida monótona e introspectiva de Sumire é repentinamente abalada com um acontecimento inusitado. Pela primeira vez na vida, a moça se apaixonada por alguém. A paixão é por Miu, uma mulher casada (e com dois filhos) que emprega Sumire como sua secretária. Miu tem 17 anos a mais do que Sumire e é uma conceituada empresária do setor de bebidas. A companhia dessa senhora é responsável por importar vinhos europeus para o Japão.

Infelizmente, o amor de Sumire por Miu não é correspondido. Miu não é homossexual, além de não demonstrar qualquer apetite sexual ou possuir vontade de estabelecer novos laços românticos. Essa situação leva a personagem principal a endoidecer. Do dia para a noite, a repressão sexual de Sumire é, enfim, externada intensamente. Desejando entregar-se à mulher que ama, a jovem começa a sofrer como jamais acreditou ser possível. Sumire também teme demonstrar todo seu afeto pela patroa e ser mal interpretada. Aí, ela pode ser demitida e nunca mais poder conviver ao lado do amor de sua vida.

Em uma viagem a trabalho para a Grécia com Miu, Sumire desaparece misteriosamente. Desesperada com o sumiço da funcionária (quase que escrevo "sumiço de Sumire"), Miu telefona para K. para que ele viaje às pressas para a Europa. A empresária quer sua ajuda na procura de Sumire. O narrador aproveita que está de férias no colégio que leciona e vai à Grécia para descobrir o que aconteceu de fato com sua amiga. Inicia-se, então, uma investigação para elucidar o misterioso caso.

"Minha Querida Sputnik", além do título da obra, é o apelido carinhoso dado por Miu a Sumire. O livro possui um tom triste e melancólico. Apesar de essas características serem típicas da literatura de Haruki Murakami, neste romance esses elementos atingem doses ainda mais elevadas. Outro aspecto preponderante e muito intenso dessa publicação é a fragmentação da personalidade das pessoas retratadas. As três personagens principais possuem um grande vazio interior. O trio se comporta como se fosse seres que perderam parte de sua alma ou de algo importante de sua essência. Dessa forma, me recordei durante a leitura de "Minha Querida Sputnik" da novela "O Visconde Partido ao Meio" (Companhia das Letras), de Italo Calvino. As angústias e as limitações de Sumire, K. e Miu podem ser comparados às de Visconde Medardo di Terralba, o protagonista do clássico italiano. A única diferença é que Calvino é literal em sua abordagem, enquanto Murakami é mais sutil e metafórico.

A história de "Minha Querida Sputnik" é recheada de elementos fantásticos. Contudo, essa narrativa é diferente das obras antecessoras do escritor japonês. Desta vez, os componentes sobrenaturais possuem uma carga espiritual/religiosa mais intensa, algo que sempre ficou em segundo plano na literatura de Murakami. Esqueça, portanto, os animais mágicos de "Caçando Carneiros" (Alfaguara) e os portais do tempo de "1Q84" (Alfaguara). O que prevalece nesse romance de 1999 é a transitoriedade da vida para outros planos espirituais e a distinção entre corpo físico e alma das pessoas.

Pela primeira vez nos livros de Murakami, encontramos um narrador que fica em segundo plano. O foco narrativo está quase todo concentrado no relacionamento de Sumire com Miu, as verdadeiras protagonistas do romance. K., uma óbvia referência a uma das personagens mais célebres de Franz Kafka, tem suas características e sua vida minimamente citadas. Seu papel no romance é descrever os misteriosos e enigmáticos acontecimentos das amigas, atuando de maneira secundária na trama.

A originalidade de Murakami em retratar um triângulo amoroso inusitado e único na literatura é elogiável. A história de amor das personagens é incompleta e frustrante, misturando solidão, pobreza emocional e dificuldade de relacionamentos interpessoais. A fragilidade da alma humana dá um tom sombrio a este belo e sedutor thriller. Como sempre, o autor japonês tem a capacidade de encontrar beleza e poesia nos aspetos mais obscuros da essência do homem moderno.

O desfecho de "Minha Querida Sputnik" é do tipo interpretativo. Cabe ao leitor juntar as peças do quebra-cabeça e montar sua própria conclusão do romance. Eu gostei do resultado final. A reflexão ao que o leitor é levado é interessante e rica. A compreensão da realidade das personagens passa longe da racionalidade, da objetividade e do pragmatismo da ciência moderna. O transcendentalismo é parte essencial para a leitura do mundo contemporâneo. Talvez, o leitor mais tradicional se frustre um pouco com o final aberto, exigindo uma conclusão mais delimitada. Há esse risco.

Em suma, achei "Minha Querida Sputnik" um belo livro. Ele não está à altura de "Norwegian Wood" (Alfaguara), o principal romance de Murakami, mas também não faz feio. Ele é equivalente em qualidade a "Caçando Carneiro". A diferença entre os dois é que a obra de 1982 possui um estilo nonsense, enquanto esta de 1999 é mais espiritualizada e reflexiva.

No próximo final de semana, volto aqui no Blog Bonas Histórias para comentar os três livros da série "1Q84" (Alfaguara), as últimas obras de Haruki Murakami do Desafio Literário deste mês. Até lá!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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