• Ricardo Bonacorci

Exposições: Toulouse-Lautrec Em Vermelho - A boemia marginalizada de Paris


O MASP, Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, está com uma excelente programação nesse inverno. Destaque para a ótima mostra "Wanda Pimental Envolvimentos" da pintora carioca que ficou famosa nas décadas de 1960 e 1970. Também gostei de "Quem Tem Medo de Teresinha Soares?", exposição da artista plástica mineira conhecida por criar obras de cunho erótico e um tanto psicodélicas. Quem ainda não viu o acervo permanente do museu com a volta dos cavaletes de cristal não sabe o que está perdendo. O segundo andar do MASP está incrível com os tradicionais cavaletes criados por Lina Bo Bardi. Eles apresentam de maneira diferenciada as peças expostas e tornam o espaço ainda mais convidativo para a apreciação do público.

Apesar desses variados e belos atrativos, a exposição que considero imperdível é "Toulouse-Lautrec Em Vermelho". Trata-se da mostra mais completa já realizada em nosso país com os trabalhos de Henri de Toulouse-Lautrec, polêmico pintor francês da virada do século XIX para o século XX. Se só tivesse essa exposição em cartaz no MASP, a visitação dos amantes da pintura clássica ainda sim valeria a pena. Possivelmente, esse é o mais importante evento de arte plástica em 2017 na cidade de São Paulo.

Com 75 obras e 50 documentos (cartas, bilhetes, telegramas e fotografias), "Toulouse-Lautrec Em Vermelho" abrange toda a carreira do polêmico artista, contemplando desde os anos iniciais da sua profissão como pintor até o fim de sua vida. Além da grande variedade do acervo, o que chama a atenção do público é a representatividade do material apresentado. Quase todas as mais famosas criações de Toulouse-Lautrec estão expostas no primeiro andar do MASP. Estão ali tanto as pinturas quanto as litogravuras e os desenhos do artista pós-impressionista. Parte do material é do próprio MASP, que possui algumas pinturas de Toulouse-Lautrec. Porém, a maioria das obras veio da França especialmente para a exposição.

Henri de Toulouse-Lautrec ficou conhecido por retratar de maneira original a noite parisiense no final do século XIX. O foco do seu trabalho nunca foi o lado glamoroso da cidade nem os aspectos mais belos da vida burguesa. O que sempre motivou o artista foi a boemia marginalizada da sociedade francesa: mulheres cansadas e entregues a prostituição, ambientes miseráveis, shows e festas libidinosas, corpos sem nenhuma graciosidade e pessoas com aspectos um tanto animalescos.

Os principais trabalhos de Toulouse-Lautrec tiveram como tema os prostíbulos do bairro de Montmartre. Suas musas eram as pobres e vulgares meretrizes que trabalhavam nessas casas. O artista conseguiu sintetizar as expressões e as emoções dessas mulheres em traços nervosos e bem naturalistas. De certa forma, ele revelava a beleza e a alegria onde, a princípio, só havia feiura e tristeza.

Nascido em uma tradicional família burguesa, em 1864, Henri de Toulouse-Lautrec deixou aos dezoito anos a mansão dos pais, o conde Conde Alphonse de Toulouse-Lautrec-Monfa e a condessa Adèle Tapié de Céleyran de Toulouse-Lautrec. O rapaz foi morar no popular e degradado bairro de Montmartre, na periferia de Paris. A localidade era conhecida pelos inúmeros prostíbulos e cabarés que se instalaram ali na segunda metade do século XIX. Em um período em que a prostituição era liberada pelo governo francês e os shows dançantes de mulheres com pouca roupa eram populares, os estabelecimentos que prometiam prazeres e diversões proibidas se multiplicaram nas regiões mais afastadas do centro da cidade. O mais famoso cabaré de Montmartre foi o Moulin Rouge, que atraia figurões da burguesa francesa.

Os motivos que levaram o jovem Henri a deixar a vida aristocrata para morar entre os pobres e as prostitutas não são claros. Alguns biógrafos do artista remetem ao fato dele sofrer de Pycnodysostosis (mais tarde chamada de Doença de Toulouse-Lautrec), enfermidade genética rara que compromete a formação óssea. O pintor, assim, tinha pouco mais de um metro e meio de altura e possuía pernas atrofiadas, como a de uma criança. A aparência pouco comum o teria levado a viver entre os marginalizados e os desprezados da sociedade parisiense, pessoas que como ele sofriam com os preconceitos da alta sociedade do país.

Vivendo no subúrbio, Toulouse-Lautrec pintou com maestria a realidade do bairro de Montmartre. Por seus pincéis não passaram apenas a intimidade das prostitutas. Seus quadros e seus desenhos retrataram dançarinas, empresários e clientes (pobres e ricos) dos caberés parisienses, alcoólatras que andavam pelas ruas à noite, mulheres de trabalhos simples e nobres em momentos de diversão boêmia.

A exposição "Toulouse-Lautrec Em Vermelho" está dividida em cinco núcleos. O primeiro apresenta os trabalhos mais marcantes do artista. Estão retratadas nessa seção as rotinas noturnas nos prostíbulos baratos da capital francesa. Tendo morado nesses estabelecimentos por alguns anos, o pintor teve acesso à intimidade das pessoas que ali trabalhavam e frequentavam. Repare na maneira carinhosa e simpática que Toulouse-Lautrec pinta as meretrizes. As cenas são as mais inusitadas, ousadas e íntimas possíveis. Muitas dessas mulheres são velhas, feias e carentes de afeto genuíno. Nem por isso, o pintor se furta de pintá-las em situações eróticas.

No segundo núcleo, estão as representações de outras mulheres do bairro de Montmartre. Agora, o foco do artista está nas lavadeiras, nas modelos de ateliê e nas dançarinas dos cabarés. Até burguesas e nobres foram pintadas. O que chama a atenção desses trabalhos é o lado social de Toulouse-Lautrec. Ele retrata com delicadeza o papel secundário e subalterno da mulher na sociedade francesa da época.

Na terceira parte da exposição, estão os retratos masculinos. Os homens pintados por Toulouse-Lautrec são normalmente figuras importantes e famosas de Paris no final do século XIX. A relevância de suas posições sociais é destacada nas imagens, apesar dos ângulos pouco usuais e um tanto informais. A impressão que temos é que o pintor queria mostrar para esses homens o quanto eles eram seres humanos convencionais e normais como qualquer outro.

Nos dois últimos núcleos (quarto e quinto), temos as demais cenas boemias de Paris. Nessas pinturas e nesses desenhos do artista, estão os restaurantes, os bares, as festas, as casas de espetáculos, as ruas iluminadas pela luz elétrica e os salões burgueses. Muitos desses desenhos foram publicados nos jornais da época. Destaque também para as litogravuras de Toulouse-Lautrec. Elas retratavam importantes artistas, dançarinas e casas de espetáculos. Esses materiais fazem parte do primórdio da publicidade ocidental. Recordo de tê-los estudados na época da faculdade de Publicidade nas aulas de História da Arte.

A exposição "Toulouse-Lautrec Em Vermelho" ficará em cartaz no MASP (Av. Paulista, 1.578 - Bela Vista) até o primeiro dia de outubro. O ingresso para o acesso ao museu custa R$ 30,00 (às terças-feiras, a entrada é gratuita). O MASP abre de terça a domingo das 10 horas às 18 horas (às quintas-feiras, o fechamento é às 20 horas). Reserve ao menos uma hora para percorrer os cinco núcleos da mostra de Toulouse-Lautrec. Se você quiser ver todas as exposições em cartaz, então reserve uma tarde inteira. Você não irá se arrepender do programa.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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