• Ricardo Bonacorci

Livros: Nudez Mortal - Nora Roberts como J. D. Robb na série Mortal


Durante essa semana, li "Nudez Mortal" (Bertrand), o primeiro romance da celebrada série "Mortal". Escrita por Nora Roberts com o pseudônimo de J. D. Robb, a saga futurista tem mais de 50 títulos publicados nos Estados Unidos entre romances, contos e novelas. Aproximadamente metade deles já foi lançada no Brasil pela Bertrand, editora que possui os direitos autorais das obras da escritora norte-americana em nosso país.

A coleção literária "Mortal" é o maior sucesso da carreira de Nora Roberts, tendo vendido dezenas de milhões de exemplares no mundo inteiro. Esta também é a série mais longeva da autora. Iniciada em 1995 com "Nudez Mortal", a saga continua sendo abastecida regularmente com novos livros. O ritmo de produção é espantoso. Nos últimos 22 anos, foram publicados sempre dois ou três livros por ano. Em 2011, essa marca foi superada com o lançamento recorde de quatro obras entre janeiro a dezembro. Juro que não sei como a norte-americana consegue ser tão prolífica!

A trama da série "Mortal" gira em torno da destemida policial Eve Dallas e seu marido, o multimilionário Roarke. A história se passa em Nova York na segunda metade do século XXI. Basicamente, em cada livro, Eve precisa desvendar um crime praticado por um vilão diferente. Enquanto isso, o leitor acompanha o amadurecimento de seu relacionamento com Roarke. Eles se conhecem no primeiro livro e terminam essa obra como namorados. Alguns títulos depois, eles ficam noivos e, então, se casam. A aguardada gravidez de Eve até agora não aconteceu. Segundo a autora, a saga policial terminará quando a protagonista tiver um filho. Assim, ela precisará abandonar a perigosa carreira de combatente do crime para cuidar da família e do seu bebê.

É fácil para o leitor reconhecer essa coletânea nas livrarias. Além do pseudônimo exclusivo para a série (J. D. Robb é uma mistura das iniciais dos nomes dos filhos de Nora Roberts com a abreviação do sobrenome do clã), todos os livros têm seus títulos terminados com a palavra "Mortal". "Nudez Mortal", "Glória Mortal", "Eternidade Mortal", "Êxtase Mortal", "Cerimônia Mortal", "Vingança Mortal", "Natal Mortal", "Conspiração Mortal", "Lealdade Mortal" e "Testemunha Mortal" são, por exemplo, as dez primeiras obras desta saga.

O enredo de "Nudez Mortal", livro que li nessa semana, se passa em 2058. Eve Dallas, tenente da polícia de Nova York, lidera a investigação sobre crimes sexuais praticados contra prostitutas. As mulheres foram mortas por um serial killer com armas de fogo, um artigo que fora proibido na primeira metade do século XXI. O caso ganha maior dimensão porque a primeira vítima é neta de um influente senador da República. Assim, tanto o político quanto o chefe de Segurança Pública da cidade pressionam a policial para encontrar rapidamente o culpado.

Um dos principais suspeitos de Eve é o milionário Roarke. O rapaz é um grande colecionador de armas de fogo e possui amizade com a família do senador. Além disso, ele jantou com a primeira vítima algumas noites antes dela ser morta. O problema de Eve é que a policial acaba sendo seduzida por Roarke durante a investigação. Enquanto tenta descobrir se o milionário é o serial killer, a tenente começa um tórrido romance com ele. Surge, assim, uma arriscada relação que poderá destruir tanto a carreira da policial quanto a investigação que ela está conduzindo. Nunca os desejos de Eve estiveram tão expostos como agora, justamente no momento em que ela não podia deixá-los aflorar. A mistura de trabalho e vida pessoal e o elemento explosivo que é um novo namorado suspeito de assassinato tornarão os dias de Eve ainda mais complicados do que já são normalmente.

"Nudez Mortal" é uma trama cativante. Li suas 352 páginas em apenas dois dias. Admito que gostei muito do seu conteúdo. Entretanto, é preciso dividir sua análise em duas partes, pois elas apresentam características completamente antagônicas. Primeiramente, vou comentar o livro sob o ponto de vista de um romance policial. Na sequência, vou debatê-lo a partir da perspectiva de um romance futurista (ficção científica). Afinal, o primeiro título da série "Mortal" contempla essas duas categorias literárias. Ele é, ao mesmo tempo, uma história policial e uma trama futurista.

Como romance policial, "Nudez Mortal" é um bom livro. Diria até muito bom! A história de maneira geral é interessante, veloz, enigmática e bastante emocionante, possuindo um clima de suspense que prende o leitor em suas páginas. A união entre investigação criminal e romantismo, uma das marcas de Nora Roberts, se mostra outra vez acertada.

Achei a trama envolvendo a paixão de Eve e Roarke superior ao caso criminal exposto. Ou seja, o que torna a narrativa boa é o romance do casal de protagonistas e não a origem ou os desdobramentos dos assassinatos em série realizados por um maníaco sexual. Melhor dizendo, a investigação policial só é interessante devido ao envolvimento romântico da investigadora com seu principal suspeito e não por causa dos elementos do crime em si.

Afinal, a investigação sobre o serial killer é corriqueira. É possível encontrar uma história como esta em muitas outras obras literárias e cinematográficas. Até mesmo Nora Roberts já produziu criminosos como visto aqui. "Pecados Sagrados" (Bertrand) é um exemplo dessa semelhança. Admito que um ou outro elemento da esfera criminal possa ser surpreendente, mas como um todo o romance policial não traz grandes novidades. Até mesmo o culpado pelo assassinato é óbvio. Facilmente é possível descobri-lo já na metade do romance. Mesmo assim, o desfecho chega a provocar alguma agitação no leitor, trazendo boas cenas de ação e uma pequena reviravolta nas páginas finais.

Se o enredo dos assassinatos do serial killer é banal e pouco original, o mesmo não pode ser dito do relacionamento turbulento e um tanto proibido entre policial e investigado. A relação nada profissional entre os protagonistas torna tudo mais intenso, perigoso, divertido e com altas doses de suspense. As personagens dessa obra são complexas e carismáticas. Cada uma sofre com um problema psicológico diferente. Até mesmo as personagens secundárias são muito bem construídas, carregando certa dualidade que intriga o leitor. Nada nessa história é fácil para os protagonistas. Eles vivem seus dramas pessoais que parecem vir à tona cada vez que eles tentam superar os traumas do passado. Sem dúvida nenhuma, o romance fulminante entre Eve e Roarke é a melhor parte do livro.

A trama é também bastante envolvente e ágil. Tudo acontece rapidamente nas páginas de "Nudez Mortal". A leitura é rápida por causa da linguagem simples e objetiva da autora (além da história ser boa, né?). Nora Roberts não perde tempo com nada que não seja essencial. Ela possui uma capacidade elogiável de narração sucinta que concentra a atenção exatamente naquilo que o leitor ficará mais fascinado. Neste sentido, admiro o poder hipnotizante de seus romances para uma grande parcela do público.

O segundo aspecto em que o livro "Nudez Mortal" deve ser analisado é como uma ficção futurista. Aí, o caldo desanda! A realidade vivida pelas personagens em 2058 é (acredite!) menos avançada e menos tecnológica do que a nossa realidade atual, passada hoje, em 2017. Ou seja, em pouco mais de duas décadas, o romance publicado em 1995 já ficou totalmente desatualizado, retratando um futuro pouquíssimo provável.

A projeção de futuro de Nora Roberts é uma mistura de lugares comuns e erros grosseiros de previsão. Na segunda metade do século XXI, os carros irão voar e os robôs/androides estarão convivendo com os humanos. O principal comando das máquinas será através da voz. Até aí, não há nada que trabalhe contra a lógica imaginativa. Essas projeções são obviedades. O problema está onde, então? Em todo o resto!

As florestas naturais serão desmatadas, mas o clima do planeta não terá superaquecido. Pelo contrário, as temperaturas médias terão diminuído. O telefone celular não estará disseminado na sociedade, pois a quase totalidade das personagens só tem aparelhos fixos em suas residências e em seus trabalhos. É verdade que os telefones permitirão a visualização da imagem, mas é estranho pouca gente ter equipamentos móveis. Apenas um milionário tem um tele-link (telefone) que pode ser levado para onde ele quer. Os carros, por outro lado, não serão guiados automaticamente pela inteligência artificial. Eles precisarão de condução humana, algo que experiências do Google já condenam para um futuro próximo.

E o que dizer do hábito de uma das mulheres assassinadas de escrever um diário à mão!? Pouco provável. Além de ter um caderno com as anotações manuais, ela ainda envia tudo isso para um cofre em um banco. Meu Deus! Isso só não é pior do que a inexistência de uma ampla rede de Internet com todos os dados da sociedade. As pesquisas realizadas pelas personagens são mais parecidas com as feitas no século XX do que no século XXI. Só faltou a presença das velhas enciclopédias. Também é estranho não haver nenhuma rede social sendo usada pelas pessoas.

Nora Robert pode até ser uma boa romancista romântica, porém é péssima em construir ficção científica. Em muitos momentos do livro, a tecnologia mais destacada pela autora é uma cafeteira automática. Não gosto quando tentam duvidar da minha inteligência. Sinceramente, essa é a pior ficção científica que já li em minha vida. Alguns fãs mais passionais podem até tentar defender a autora afirmando que ela escreveu esse livro na década de 1990 e de lá para cá muita coisa mudou. Ok. Porém, Julio Verne, Issac Asimov e Douglas Adams escreveram obras de ficção científica que se mantém atuais décadas e décadas depois de escritas. Como explicar isso?! A diferença é a habilidade que estes autores tiveram em prever o futuro e a competência de construir obras bem embasadas, algo que Roberts não teve.

Portanto, acho que a série "Mortal" seria mais interessante se não fosse realizada no futuro distante e sim no tempo presente. Dessa maneira, ficaríamos imunes de várias situações constrangedoras como quando a personagens da segunda metade do século XXI ainda usam dinheiro de papel ao invés de cartões ou quando não podem usar arma de fogo, mas podem andar pelas ruas com granadas e bombas de mão.

Se você for ler "Nudez Mortal" como uma obra romântica, saiba que você ficará contente com o resultado final. Neste aspecto, compreendo os fãs da série que aguardam ansiosamente os novos títulos da coleção. Eu mesmo leria novos capítulos da saga de Eve e Roarke com entusiasmo. Por outro lado, se você for ler o livro como uma aventura futurista, na certa ficará muito decepcionado. Aí, sua vontade será queimar o romance. Ou no mínimo vai querer passar longe das prateleiras das livrarias que tenham a continuação da série.

Na próxima quinta-feira, dia 17, retorno ao Desafio Literário com a análise de mais uma obra de Nora Roberts. O nosso foco será o romance "A Cruz de Morrigan" (Bertrand), o primeiro livro da trilogia do Círculo. Até quinta!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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