• Ricardo Bonacorci

Livros: A Cruz de Morrigan - Volume 1 da Trilogia do Círculo


O quarto livro de Nora Roberts neste Desafio Literário é "A Cruz de Morrigan" (Bertrand). Li esse romance no último final de semana. Essa obra é o primeiro volume da "Trilogia do Círculo", primeira série fantástica da autora norte-americana. Misturando vampiros, bruxas, feiticeiros, deuses e demônios, Roberts cria uma trama apocalíptica. A batalha travada é entre o bem (seres humanos) e o mal (vampiros) pela supremacia no planeta Terra. Além dos elementos sobrenaturais, a escritora acrescenta muito romantismo e suspense à história, ingredientes estes que nunca faltam em suas narrativas e que marcam, de certa forma, sua literatura.

Publicado originalmente em 2006, nos Estados Unidos, "A Cruz de Morrigan" foi lançado no Brasil em 2011. O romance inaugural da "Trilogia do Círculo" possui 364 páginas. A série é completada por "O Baile dos Deuses" (Bertrand), de 336 páginas, e por "O Vale do silêncio" (Bertrand), com 350 páginas, segundo e terceiro volumes da coleção, respectivamente.

"A Cruz de Morrigan" começa com um prefácio de duas páginas. Nele, um homem idoso decide entreter algumas crianças. A persistente chuva no lado de fora da residência confina o grupo em uma sala, entediando a todos. Para espantar o marasmo geral e para prender a atenção da molecada por algumas horas, o velhinho conta uma história que fala de "coragem e covardia, de morte e de vida e de amor e de perda". Apesar de saber que o enredo é um tanto sangrento e muito picante (portanto, inapropriado para a idade dos pequenos ouvintes), o narrador inicia mesmo assim seu relato. As crianças vão ao delírio quando descobrem que há monstros, reis, princesas, paixões e lutas na narrativa.

A história se passa, a princípio, no século XII. O ano é 1.128 e o cenário é a Irlanda medieval. Hoyt Mac Cionaoith, um bondoso feiticeiro, lamenta a morte de Cian, seu irmão gêmeo. Lilith, uma vampira demoníaca e muitíssimo poderosa, não apenas tirou a vida de Cian como o transformou em vampiro, condenando o rapaz a viver como um morto-vivo pela eternidade. Vendo o novo estado do irmão, Hoyt fica revoltado, jurando vingança à Lilith.

Ajudado por Morrigan, uma deusa preocupada com o destino da humanidade, o feiticeiro viaja no tempo e vem até o século XXI. Nos dias atuais, Hoyt precisará reunir um grupo de bravos combatentes para enfrentar a líder dos vampiros. A equipe comandada pelo feiticeiro terá mais cinco integrantes. Serão, além do feiticeiro, uma bruxa, uma guerreira, uma erudita, um homem de múltiplas formas e alguém que havia sido dado como perdido. O sexteto constituirá o "Círculo" do bem. Segundo a previsão de Morrigan, o protagonista e seus aliados desafiarão Lilith em um combate derradeiro cujo resultado irá decidir quem ficará com o domínio do planeta. Uma derrota por parte do grupo de Hoyt representará o extermínio completo dos seres humanas na Terra.

O primeiro a ser recrutado por Hoyt é seu irmão, Cian. O vampiro vive em Nova York e tem, agora, mais de 900 anos (lembremos: os vampiros não morrem nem envelhecem). Vivendo como um milionário, Cian leva uma vida triste e solitária, porém com muito luxo. Ele parece não ter ficado muito feliz com a chegada do irmão. Ao mesmo tempo em que reencontra seu gêmeo, Hoyt começa um namoro com Glenna, uma bruxa norte-americana do século XXI que integrará seu grupo de combatentes.

Hoyt, Cian, Lilith viajam, então, para a Irlanda para iniciarem o treinamento bélico. É na Europa que o trio deve esperar a chegada dos demais integrantes da equipe. Só com o grupo formado e devidamente preparado, os vampiros de Lilith poderão ser atacados pelos humanos, em um confronto derradeiro.

Admito que "A Cruz de Morrigan" me surpreendeu positivamente. A trama é muito bem construída. Sua narrativa ágil e recheada de elementos dramáticos faz com que leiamos rapidamente o romance. Ao final do livro, quis ler imediatamente a continuação da trilogia. Se estivesse com "O Baile dos Deuses" em mãos, na certa já teria começado essa leitura naquele mesmo instante.

O que faz "A Cruz de Morrigan" ser tão interessante é o conjunto variado de elementos narrativos que Nora Roberts se utiliza. Ao mesmo tempo em que é um romance com características históricas, parte da trama se passa nos dias atuais. Personagens como rainhas, feiticeiros e bruxas medievais dividem a cena com administradores, artistas e empresários contemporâneos. Além disso, a presença de componentes fantásticos (magia, vampirismo e poderes sobrenaturais) não impossibilita a existência de um mundo como o conhecemos (regido pelas leis normais da natureza).

Para completar a miscelânea, o cenário de guerra e de confronto com os vampiros não isenta sua autora de colorir a história com bastante romantismo e momentos de humor. Por exemplo, em meio a um grande combate contra os vampiros, as personagens humanas decidem realizar um casamento. Essa cena é ótima (e hilária!). No instante de troca das alianças e de realização dos juramentos do casal, os participantes do casório (inclusive os noivos) precisam sair para matar os inimigos, que resolveram aparecer justamente naquele momento. Terminada a violenta luta, todos voltam para a concretização da cerimônia.

O romantismo é, portanto, a peça-chave para a compreensão de grande parte do apelo narrativo do livro. Apesar do cenário bélico e das cenas de feitiçaria e bruxaria, é a união de Hoyt e Glenna que mexe com os sentimentos do leitor. Esse é um casal um tanto pitoresco, vale a pena comentar. Eles estão sempre brigando, mas também não se furtam em fazer as pazes regularmente. Eles não conseguem se desgrudar, essa é a verdade, se amando intensamente. Ele é um feiticeiro irlandês do período medieval. É machista, calado e um tanto bruto. Ela, por outro lado, é uma artista norte-americana do século XXI. É feminista, extrovertida e nada romântica. O namoro e o posterior casamento da dupla unem perfis totalmente distintos.

Outro ponto positivo do livro é a constituição das personagens. Mais uma vez, Nora Roberts se mostra exímia na arte de compor pessoas complexas e contraditórias. Tanto os protagonistas como os figurantes apresentam dramas, medos e perfis intrigantes. É difícil não se apaixonar por eles. A construção de todas as personagens é muito bem feita. Os tipos que aparecem nas páginas do livro são seres únicos, relevantes e carismáticos.

A infantilidade, típica das histórias de vampiros e de bruxas, curiosamente, não aparece aqui. Nora Roberts consegue produzir um texto elegante e adulto, dando pouquíssima margem para questionamentos sobre a seriedade de sua obra.

Apesar de ter gostado muito de "A Cruz de Morrigan", ao terminá-lo fiquei com uma dúvida: qual a originalidade dessa obra?! Novamente, a minha impressão é estar diante de uma história recheada de clichês. A "Trilogia do Círculo" é uma mistura da série "Harry Potter" (de J. K. Rowling) com a trilogia "Senhor dos Anéis" (de J. R. R. Tolkien), a saga "Crepúsculo" (de Stephenie Meyer), a coleção "Torre Negra" (de Stephen King) e a série "As Crônicas de Gelo e Fogo" (de George R. R. Martin). Provavelmente, quem é fã de algumas dessas tramas (ou de todas) não achará nenhuma grande novidade em "A Cruz de Morrigan". Afinal, não há nada mais entediante do que uma overdose de vampiros, mundos sobrenaturais e confrontos apocalípticos invadindo a literatura contemporânea.

Por isso, acho que quem irá gostar mais da "Trilogia do Círculo" é exatamente o público que não curte muito os atuais best-sellers fantásticos. Se você ainda não leu nenhuma das grandes séries com reinos encantados, seres mágicos e batalhas sobrenaturais, então você deverá gostar de "A Cruz de Morrigan". Apesar do excesso de clichês e de elementos "inspirados" (ou seriam copiados?!) de outras sagas mais famosas, a história criada por Nora Roberts é muito interessante e cativante. Se a norte-americana não foi nada original no enredo, pelo menos ela conseguiu produzir uma aceitável história fantástica logo em sua primeira tentativa.

Na próxima segunda-feira, dia 21, o Desafio Literário analisará outro livro de Nora Roberts. "Querer e Poder" (Harper Collins) é um thriller romântico publicado em 2013. Até semana que vem!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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