Talk Show LiterƔrio: Catarina ParaguaƧu
- Ricardo Bonacorci
- 23 de ago. de 2017
- 6 min de leitura
Atualizado: 8 de nov. de 2020

Darico Nobar: Boa noite, Brasil. Hoje, tenho aqui ao meu lado a bela Ćndia Catarina ParaguaƧu. Esposa de Diogo Ćlvares Correia, ela Ć© personagem do Ć©pico Caramuru e serĆ” nossa convidada neste Talk Show LiterĆ”rio. [Os aplausos da plateia ressoam pelo auditório]. OlĆ”, Catarina ParaguaƧu, tudo bem?
Catarina Paraguaçu: Tudo ótimo, Darico. à muito bom conversar com você.
Darico Nobar: Ć um prazer recebĆŖ-la em nosso programa. A senhora Ć© a primeira indĆgena que nos visita, sabia? O MacunaĆma jĆ” veio aqui, mas Ć© difĆcil enxergĆ”-lo como um Ćndio. Ele estĆ” sempre mudando de fisionomia, nĆ©? Por falar nisso, a senhora estĆ” usando roupas sociais. Ć bastante estranho ver uma Ćndia nesses trajes. A senhora prefere ser chamada de Catarina ou de ParaguaƧu?
Catarina Paraguaçu: Desde a minha viagem à Europa e o meu casamento com Diogo em Paris, eu prefiro ser chamada de Catarina. Afinal, esse é o meu nome de batismo agora. E me foi dado diretamente pela rainha francesa Catarina, que tanto ficou admirada com a minha beleza. Assim, ser chamada de Paraguaçu soaria um pouco... Um pouco... Como posso dizer? Primitivo. à isso! Soaria primitivo.
Darico Nobar: Ser vista como uma indĆgena a incomoda?
Catarina ParaguaƧu: Jamais! Eu adoro as minhas raĆzes e tenho orgulho dos meus ancestrais. Sou e sempre serei uma tupinambĆ”. Apenas fui convertida ao catolicismo, vivendo agora como uma legĆtima dama portuguesa.
Darico Nobar: Portuguesa?! A senhora não é brasileira?!
Catarina ParaguaƧu: NĆ£o, pelo amor de Deus! Posso atĆ© aceitar ser vista Ć s vezes como uma tupinambĆ”, mas ser chamada de brasileira Ć© demais! AĆ, vira ofensa. Eu nasci em uma colĆ“nia portuguesa alĆ©m-mar, por isso sou lusitana, como meu esposo. NĆ£o tenho culpa que tempos depois os brasileiros conseguiram sua independĆŖncia.
Darico Nobar: A senhora foi a primeira protagonista indĆgena da literatura brasileira. Contudo, hoje em dia, outras personagens sĆ£o mais lembradas pelo pĆŗblico. De cabeƧa, lembro-me de Peri, de O Guarani, e Iracema, do romance homĆ“nimo de JosĆ© de Alencar. Por que a senhora foi esquecida ou nĆ£o Ć© tĆ£o valorizada?
Catarina Paraguaçu: O problema, nesse caso, deve-se ao estilo narrativo escolhido pelo asno do José de Santa Rita Durão. A epopeia não é, e nunca foi, um gênero muito popular. Definitivamente, ela não cativa os leitores contemporâneos.
Darico Nobar: A senhora considera o fato da história estar em versos como um obstÔculo a sua popularização?
Catarina ParaguaƧu: Claro! Existem basicamente dois tipos de leitores nesse mundo: aqueles que odeiam as epopeias e aqueles que nĆ£o entendem quase nada do que vem escrito nelas. AĆ, fica difĆcil competir com os romances aƧucarados do JosĆ© de Alencar. O desgraƧado do cearense sabia conquistar o pĆŗblico. Se ele tivesse escrito minha história com o Diogo, com certeza hoje serĆamos muito mais famosos...
Darico Nobar: Senti certo rancor em relação ao autor que a concebeu. A senhora tem alguma mÔgoa do Santa Rita Durão?
Catarina ParaguaƧu: Antes de qualquer coisa, Ć© importante salientar que ele nĆ£o foi o responsĆ”vel pela minha concepção. Eu sou uma personagem que existiu de verdade. O Santa Rita DurĆ£o apenas me transportou para dentro da literatura. E, nesse processo, acho que fui injustiƧada. Caramuru Ć© uma obra sobre meu marido. Eu o amo, mas, literariamente, ele Ć© uma personagem menos propensa ao heroĆsmo do que eu.
Darico Nobar: Como assim?
Catarina ParaguaƧu: O que Diogo fez ao longo de Caramuru para ganhar a fama de herói?! Ele comeƧa a história doente. Só nĆ£o foi devorado pela minha tribo, como todos os portugueses de sua embarcação, porque estava fraquinho. Quando o bunda-mole se recuperou, matou um monte de Ćndios. Fez isso porque era forte ou corajoso? NĆ£o! Fez isso porque era o Ćŗnico com arma de fogo. Ou seja, se comportou como um facĆnora covarde. Depois de dizimar vĆ”rias tribos da Bahia, fez uma viagem para a Europa para descansar. Estava cansadinho! Nesse interim, nos casamos. Nunca vi um herói de uma epopeia mais besta do que este. Eu, por outro lado, sou uma indĆgena que aprendeu instantaneamente a lĆngua portuguesa. NĆ£o só me tornei fluente no idioma como tambĆ©m passei a fazer poemas em versos decassĆlabos, como fazia o mestre CamƵes. E, alĆ©m de inteligente, sou linda. Para coroar, ainda antevejo o futuro.
Darico Nobar: Então, a senhora é quem deveria ser o centro das atenções do enredo e não o seu marido, certo?
Catarina ParaguaƧu: Exatamente!
Darico Nobar: A senhora Ć© uma das protagonistas do livro. A parte final Ć© inteiramente narrada pela senhora.
Catarina ParaguaƧu: Ć verdade. PorĆ©m, os leitores só se lembram do Diogo doente, dos tupinambĆ”s devorando os portugueses, do meu marido matando os Ćndios e da periguete da Moema morrendo afogada.
Darico Nobar: Essa passagem da sua irmã nadando para alcançar o navio do seu marido é linda...
Catarina ParaguaƧu: EstĆ” vendo. NinguĆ©m se recorda de uma boa passagem minha. Diga aĆ, Darico: cite uma boa cena protagonizada por mim.
Darico Nobar: Realmente, nĆ£o me lembro de nenhuma. O que recordo bem Ć© do fascĆnio que o Diogo exercia sobre as mulheres tupinambĆ”s. Muitas se jogaram ao mar quando ele partiu de navio. NĆ£o foi apenas Moema que morreu nadando atrĆ”s dele. Tinha mais um trio de Ćndias com ela.
Catarina ParaguaƧu: Ć claro! O sem-vergonha sempre foi muito bom de lĆ”bia. Ele vinha com um papo infalĆvel que nos levaria para Paris, onde casarĆamos e passarĆamos uma romĆ¢ntica Lua de Mel. Ele falou isso para mim e para todas da minha tribo. à óbvio que a mulherada iria pirar ao ouvir essas promessas. Imagine largar a vida precĆ”ria nas florestas brasileiras e ir morar em meio aos reis e Ć s cortes europeias. NĆ£o hĆ” mulher que resista a essa ideia. Nem nós tupinambĆ”s resistimos...
Darico Nobar: EntĆ£o, foi isso o que causou grande admiração nas indĆgenas?
Catarina ParaguaƧu: Tinha tambĆ©m o fato de ele sempre andar armado e matar todos os nossos inimigos. Um homem poderoso Ć© um afrodisĆaco sexual para os olhos femininos. Somos tupinambĆ”s, mas ainda sim somos mulheres, nĆ£o se esqueƧa disso!
Darico Nobar: Outro aspecto da história que me deixou intrigado foi o seu poder de vidĆŖncia. A senhora adivinhou o desfecho de todos os conflitos contra os holandeses. Como isso foi possĆvel?
Catarina Paraguaçu: Sou uma vidente. Sempre fui. Naquela época, eu tinha poucos recursos para desvendar o futuro. Era apenas o ritual da fumaça e a dança mÔgica. Graças às novas tecnologias, como o tarot, a astrologia, a numerologia, o horóscopo e, principalmente, ayahuasca, hoje tenho condições de prever com mais segurança os acontecimentos futuros. Se naquela época eu jÔ tivesse esses recursos, na certa conseguiria prever as vitórias brasileiras contra os holandeses nas Copas de 1994 e 1998. Obviamente, não diria nada sobre os duelos em 1974, 2010 e 2014.
Darico Nobar: E qual a principal previsão que a senhora faz para o Brasil?
Catarina ParaguaƧu: Esse paĆs ainda serĆ” honesto, rico, justo e sem violĆŖncia.
Darico Nobar: Que ótimo! E quando isso acontecerÔ?
Catarina ParaguaƧu: Em um futuro bem distante, quando extraterrestres invadirem o Brasil e exterminarem quase todos os habitantes nativos. A nova sociedade que virĆ” colonizar essas terras serĆ” mais harmĆ“nica, pacĆfica e igualitĆ”ria.
Darico Nobar: Que previsão mais pessimista.
Catarina Paraguaçu: Pessimista seria se dissesse que o Brasil não tem jeito.
Darico Nobar: A senhora Ć© muito diferente do que eu tinha imaginado.
Catarina ParaguaƧu: O que vocĆŖ esperava encontrar? Uma mulher vestida com penas de animais e com o corpo nu pintado de tinta? E que falasse "Mim gostar de Brasil, mim querer homem branco"? NĆ£o! Essas sĆ£o as mulheres do seu tempo nos dias de Carnaval. Como uma nobre dama portuguesa do sĆ©culo XVIII, ando com roupas burguesas, sou eloquente e possuo uma visĆ£o crĆtica do mundo.
Darico Nobar: Talvez seja isso o que me impressionou mais na senhora. Imaginava entrevistar uma tupinambÔ e não uma mulher com mentalidade burguesa e europeia.
Catarina ParaguaƧu: Todos precisam evoluir na vida, nƩ?
Darico Nobar: Essa visĆ£o crĆtica do indianismo nĆ£o vai contra os ideais propagados ao longo da nossa literatura? Ela nĆ£o agride tudo aquilo que os antropólogos prezam?
Catarina ParaguaƧu: Talvez, mas o meu ponto de vista Ć© menos utópico do que aquele do "Bom Selvagem" perpetrado pelos romĆ¢nticos. Vale lembrar que Santa Rita DurĆ£o, que dizia amar tanto o Brasil e os indĆgenas, nunca mais retornou ao seu paĆs natal após embarcar ainda crianƧa para o exterior. JosĆ© de Alencar, creio eu, nunca conheceu um Ćndio de verdade. E quanto aos antropólogos... Ainda existe essa profissĆ£o nos dias de hoje?! Achei que eles tivessem acabado juntamente com os Ćndios e com as florestas tropicais.
Darico Nobar: Senhoras e senhores, essa foi Catarina ParaguaƧu! [Plateia aplaude a entrevistada, que sai do palco após beijar o apresentador]. Nosso programa de hoje foi surpreendente, hein? Por isso, nĆ£o percam o Talk Show LiterĆ”rio do próximo mĆŖs. A Ćŗnica certeza Ć© que tudo Ć© imprevisĆvel nessas conversas literĆ”rias. Boa noite!
[As legendas do Talk Show LiterÔrio sobem na tela e a banda toca a música de encerramento da atração].
Darico Nobar: O pior Ć© que ainda nĆ£o consegui entrevistar um indĆgena legĆtimo... [O apresentador fala baixinho sem que os microfones captem suas palavras[]. Achei que seria dessa vez, mas novamente nĆ£o foi... O que estĆ” acontecendo com nossos Ćndios?! Minha Ćŗltima esperanƧa Ć© Peri! SerĆ” que vou conseguir conversar com ele?
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O Talk Show LiterĆ”rio Ć© o programa de televisĆ£o fictĆcio que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, sĆ£o os protagonistas dos clĆ”ssicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show LiterĆ”rio. Este Ć© um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.
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