• Ricardo Bonacorci

Livros: Um Novo Amanhã - Parte 1 da trilogia A Pousada de Nora Roberts


O mês de agosto está terminando e, assim, este Desafio Literário também se aproxima dos seus momentos finais. Para marcar o encerramento da parte das análises das obras de Nora Roberts, li, nesta semana, o livro "Um Novo Amanhã" (Arqueiro). Trata-se do sexto e último romance da escritora norte-americana que estudamos aqui no Blog Bonas Histórias. Das publicações de Roberts discutidas nos últimos vinte e cinco dias, esta é a mais recente. Ela foi lançada em março de 2016.

Como é tradicional de Nora Roberts, "Um Novo Amanhã" faz parte de uma série literária. Como esta autora gosta de continuações, meu Deus! Este livro é o primeiro da trilogia "A Pousada". Completam a coleção, os romances "O Eterno Namorado" (Arqueiro) e "Um Par Perfeito" (Arqueiro). A trilogia completa foi publicada quase que simultaneamente no ano passado. A diferença entre a chegada do primeiro e do último livro nas livrarias brasileiras foi de apenas oito meses.

O que chama a atenção na história de "A Pousada" é o seu romantismo acentuado. Sem dúvida nenhuma, esta é a trama mais melosa da norte-americana que analisamos no Desafio Literário durante este mês. Se você é diabético(a) ou está de dieta, precisando reduzir a ingestão de tudo aquilo que é muito doce, recomendo ler com parcimônia os livros desta série. Se você não for um (uma) romântico(a) de carteirinha, é melhor nem abrir as páginas da primeira obra da trilogia "A Pousada".

"Um Novo Amanhã" se passa na pequena cidade de Boonsboro, no interior dos Estados Unidos. Ali, há uma tradicional pousada que está sendo reformada pela família Montgomery. Três irmãos, Beckett, Ryder e Owen Montgomery, são os responsáveis por revitalizar aquele prédio que ficou décadas abandonado e fechado. Mesmo assim, a construção permanece sendo um dos principais símbolos do município, uma lembrança dos tempos áureos da localidade. Depois de reconstruída, a pousada será administrada pela família, tendo a mãe do trio de rapazes como comandante.

Enquanto cuida do árduo trabalho de restaurar a pousada, Beckett Montgomery, o charmoso arquiteto que lidera a trupe de irmãos especializada em reformas, se apaixona por Clare Brewster, sua amiga de infância e que retornou recentemente para Boonsboro. Clara é viúva (seu marido era soldado do exército norte-americano e morreu enquanto trabalhava no exterior), tem três filhos pequenos e administra a principal livraria da localidade, situada em frente à pousada.

O grande desafio do casal será conseguir conciliar suas complicadas rotinas. Só assim, poderão engatar um romance de verdade. Beckett sofre com o trabalho pesado na pousada e com a descoberta que há um fantasma no prédio em que está reformando. Clara, por sua vez, precisa achar um tempinho na sua agenda de empresária e mãe solteira com três filhos pequenos para ver seu amado. Apesar da ajuda dos amigos, o início do namoro entre Beckett Montgomery e Clare Brewster corre riscos.

Este é o enredo. "Só isso?!", podem pensar alguns. Sim, só isso! Achou a sinopse boba? Há, porém, algo pior do que a simplicidade da trama. Nora Roberts produz um texto recheado de banalidades. As personagens estão o tempo inteiro comendo pizza, discutindo detalhes da reforma da pousada, comentando fofocas da cidade, bebendo cerveja, assistindo televisão, debatendo a criação dos filhos (até mesmo os mais crescidinhos) ou brincando de forma infantil com a criançada. São todas atividades triviais e que quando colocadas em um romance tornam-se ainda mais sem graça. Qual a relevância destes fatos? Nenhuma! Assim, na primeira metade das 320 páginas do livro, não acontece absolutamente nada de especial. Nada. Nadinha!

Angustiante mesmo são os diálogos. As conversas travadas entre as personagens deste livro devem constar no manual do que um(a) escritor(a) minimamente razoável não deve fazer. Jamais! A impressão que temos que é o romance nos leva a intimidade entediante de pessoas interioranas. A vida monótona da pequena e parada Boonsboro é escancarada sem qualquer lirismo ou beleza literária. Quer alguns exemplos. Aí vão:

Ryder e Beckett discutem as atividades feitas em determinado dia na pousada.

- É uma madeira ótima. Castanho é uma escolha bem acertada, Beck.

- Vai combinar bastante com o assoalho. E o sofá tem que ser de couro. Escuro, mas intenso, com cadeiras de couro mais claro para contrastar.

- Que seja. Chegaram hoje as luminárias do teto que a mamãe encomendou.

Outro exemplo. Os irmãos estão na pizzaria.

- Já querem fazer os pedidos? - pergunta a garçonete.

- Pizza do Guerreiro - declarou Ryder.

- Não quero comer tanta carne - retrucou Owen, balançando a cabeça e bebericando a cerveja.

- Amarelão.

- Peça você a bomba de colesterol - sugeriu Beckett, então acrescentou para Owen: - Podemos dividir uma de pepperoni com pimenta.

- Fechado. E uns bolinhos de caranguejo.

- E pra já. Como vão as coisas na pousada?

- Avançando - respondeu Owen.

Multiplique esses diálogos banais por 160 páginas e você terá o retrato da metade do livro "Um Novo Amanhã". Ora se fala da reforma da pousada e ora se discute os hábitos alimentares das personagens. É preciso muita paciência para evoluir na leitura. A vontade que se dá é de atirar o livro longe.

As personagens principais e secundárias são até bem construídas (uma marca de Nora Roberts). O casal de protagonistas também é interessante e cativa o leitor. Beckett Montgomery e Clare Brewster formam um casal bonitinho e cheio de problemas, o que confere um pouco de emoção à trama narrada. Apesar de gostarem um do outro, a princípio não será fácil ficarem juntos. Muita coisa irá surgir no meio do caminho como obstáculo ao relacionamento deles.

O grande problema desta história está na falta de vilões poderosos. Os antagonistas são responsáveis, tradicionalmente, por tornarem as tramas envolventes, imprevisíveis, emocionantes e misteriosas. Há quem classifique uma ficção como sendo boa ou ruim a partir da qualidade (ou das maldades) dos seus vilões. Cabe ao autor produzir um grande empecilho à vida das personagens principais. Não é isso o que temos em "Um Novo Amanhã". O único antagonista da história aparece pouco e é muito bobinho. Só há uma (única) cena de ação durante todo o livro que mereça destaque e que leva efetivamente algum perigo aos protagonistas. Muito pouco para um romance com mais de três centenas de páginas.

Minha impressão é que Nora Roberts poderia ter compilado os três livros da série "A Pousada" em um único romance. Se tivesse descartado todas as cenas banais e os diálogos desnecessários, principalmente da primeira obra, poderia ter produzido uma boa publicação romântica com alguma ação. Porém, preferiu produzir mais uma de suas séries e, assim, diluiu a força narrativa em três doses fraquinhas. Definitivamente, ela optou pela alternativa mais comercial, abrindo mão da qualidade literária.

As últimas vinte páginas de "Um Novo Amanhã" são interessantes, misturando romantismo, aventura, ação e intriga. Porém, as quase trezentas páginas que precisam ser lidas para chegar ao clímax indicam que não vale a pena tal esforço do leitor. Além disso, não me senti encorajado a encarar mais dois livros da trilogia "A Pousada". Ao chegar à ultima página de "Um Novo Amanhã", respirei aliviado. Ufa, acabei! Além de ter concluído um dos mais chatos livros do ano, finalizei a leitura de Nora Roberts, provavelmente a autora mais fraca da história do Desafio Literário. E olha que já passaram por aqui Paulo Coelho e Sidney Sheldon...

Os fãs de Nora Roberts me desculpem, mas comparar a norte-americana com os principais nomes da literatura mundial é uma piada sem graça. Talvez o grande equívoco tenha sido meu, ao colocá-la ao lado de Haruki Murakami, Régine Deforges, Machado de Assis e Markus Zusak. Roberts pode até ser uma campeã na vendagem de livros, mas está muito, mas muito longe de ser uma escritora de qualidade. Pelo menos esta foi a constatação obtida com as leituras aqui realizadas neste mês de agosto.

Na próxima terça-feira, dia 29, retorno aqui no Blog Bonas Histórias para analisar de maneira mais completa o perfil literário de Nora Roberts. Terei como base os estudos dos seis livros da norte-americana que lemos ao longo deste mês. Não perca!

Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#NoraRoberts #LiteraturaNorteAmericana #Romance

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento