• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: Nora Roberts


O Desafio Literário de 2017 conclui, agora, a análise do seu quarto autor. Depois dos estudos do brasileiro Machado de Assis (maio), da francesa Régine Deforges (junho) e do japonês Haruki Murakami (julho), o foco do Blog Bonas Histórias esteve direcionado, durante o mês de agosto, ao trabalho da escritora norte-americana Nora Roberts. Ela é uma das autoras mais vendidas da história. Seus romances possuem vendagem superior a meio bilhão de unidades. Esta marca coloca Roberts na lista dos 25 escritores mais comercializados de todos os tempos.

Para montar uma análise literária completa da escritora norte-americana, foram lidos seis livros de seu portfólio: "Pecados Sagrados" (Bertrand), de 1987, "Doce Vingança" (Bertrand), de 1988, "Nudez Mortal" (Bertrand), de 1995, "A Cruz de Morrigan" (Bertrand), de 2006, "Querer e Poder" (Harper Collins), de 2013, e "Um Novo Amanhã" (Arqueiro), de 2016. Cada um deles foi analisado individualmente ao longo do mês aqui no blog e suas críticas estão disponíveis aos interessados. Esta lista de seis obras é uma pequena amostra do trabalho de Nora Roberts, que tem a façanha de ter lançado mais de 210 livros em 36 anos de carreira.

Eleanor Marie Robertson (este é o nome de batismo da escritora) nasceu na cidade de Silver Spring, em Maryland, nos Estados Unidos, em 1950. A família Robertson é descendente de irlandeses e desde cedo colocou a pequena Eleanor em contato com os livros. Os pais dela sempre foram ávidos leitores e este hábito foi passado para a menina. A intimidade com a leitura ficcional marcou a infância e a adolescência da jovem, apesar dela não alimentar o sonho de se transformar no futuro em uma escritora profissional.

Uma vez concluído o colegial, Eleanor se casou pela primeira vez. O matrimônio foi realizado a contragosto dos pais da moça, que não viam com bons olhos aquela união precipitada da jovem com o primeiro namorado. O marido era Ronald Aufdem-Brinke, filho de um industrial do setor mineral. Eleanor, nesta época, tinha apenas dezoito anos de idade.

Ao se tornar esposa, Eleanor passou a cuidar da casa e dos filhos, que nasceram no final da década de 1970. Enquanto o marido trabalhava nas empresas da família, ela administrava a rotina doméstica. A agora Senhora Aufdem-Brinke começou a escrever meio por acaso. Então com 28 anos, Eleanor ficou presa com os filhos dentro de sua residência por causa de uma forte nevasca. Sem ter muito o quê fazer até que a neve fosse liberada da cidade, ela usou uma máquina de escrever para produzir suas primeiras histórias. A ideia era se distrair. Em poucos dias, foram criados três romances. A jovem mãe ficou tão empolgada com a nova atividade que passou a procurar uma editora para publicar suas tramas. Enquanto isso, ela continuou a desenvolver narrativas compulsivamente.

Por aproximadamente dois anos, a senhora Aufdem-Brinke recebeu inúmeras respostas negativas das editoras contatadas. Era "não" atrás de "não". Até que um dia, em 1981, ela ouviu um "sim". Era o primeiro de muitos. Uma editora iniciante que começava seus trabalhos e precisava publicar autores novatos apostava enfim na jovem. Começava, aí, a carreira de uma das escritoras mais prolíficas da história e de uma best-seller mundial.

Seu primeiro romance foi lançado ainda em 1981. O nome artístico escolhido para estampar a capa de sua obra de estreia foi uma abreviação do seu nome de batismo: Nora Roberts. Surgia, neste momento, uma das marcas mais valiosas da literatura contemporânea. Nos três anos seguintes, foram escritos mais 23 romances. É uma média incrível de oito livros por ano (quase um por mês!). Como ela arranjou tempo para isso, confesso que eu não sei.

Só sei que seu primeiro casamento terminou em divórcio. Nora e Ronald se separaram em 1983. Em 1985, a escritora se casou novamente. Seu segundo (e atual) marido se chama Bruce Wilder e é carpinteiro. Eles se conheceram quando ele foi contratado para fazer uma estante para a romancista. O casal e os dois filhos da escritora do primeiro matrimônio moram em Boonsboro. Esta cidade foi retratada nos romances da série "A Pousada", que carregam fortes componentes autobiográficos.

Apesar das várias publicações feitas na primeira metade da década de 1980, o primeiro best-seller de Nora Roberts só surgiu com um livro lançado na época do seu segundo casamento: "Jogo de Sedução" (Bertrand). A partir deste ponto, sua carreira literária deslanchou. Muitos leitores que leram e gostaram de "Jogo de Sedução" passaram a procurar obras anteriores da escritora. Iniciava, assim, o círculo vicioso. Quanto mais livros ela lançava, mais os leitores compravam. Quanto mais eles compravam, mais ela publicava.

Atualmente, Nora Roberts, que também escreve com os pseudônimos de Sarah Hardesty, Jill March e J.D. Robb, é uma das escritoras mais vendidas de todos os tempos. Nos Estados Unidos, ela só perde para Danielle Steel como a autora campeã de vendas nas livrarias. Steel tem maior número de cópias comercializadas, enquanto Roberts tem muito mais títulos publicados. Em escala mundial, Nora fica atrás apenas das inglesas Agatha Christie, Barbara Cartland, Enid Blyton e J. K. Rowling em unidades vendidas (além da conterrânea Danielle Steel). Ou seja, quando pegamos o ranking das dez escritoras mais comercializadas da história, lá está o nome de Nora Roberts na sexta posição. Quando analisamos os autores independentemente do sexo, a moça de Maryland aparece entre os 25 mais vendidos de todos os tempos. Nada mal para quem começou a escrever em uma nevasca, né?

Conhecer os segredos da literatura de Nora Roberts foi o objetivo do Desafio Literário em agosto. Depois da publicação das análises de seis livros da autora é possível listar, agora, as dez características típicas da escritora norte-americana. A seguir, vãos os pontos identificados como pertencentes ao estilo dela:

1) Nora Roberts é uma autora versátil. Ela escreve romances sobre vários temas diferentes e de todos os gêneros possíveis e imagináveis. Não é possível acusá-la de bater sempre na mesma tecla. Seus livros são multitemáticos e polivalentes. Eles vão da aventura histórica ao romance romântico, passando pela ficção científica, pela fantasia vampiresca e pelo thriller policial.

É nítido que a escritora gosta de escrever, não se importando com a temática utilizada e com o tipo de narrativa praticado. Dos seis livros deste Desafio Literário, tivemos uma ficção científica passada no final do século XXI ("Nudez Mortal"), uma saga fantástica com bruxas, feiticeiros e vampiros ("A Cruz de Morrigan"), um romance policial em que se buscava a identidade de serial killer ("Pecados Sagrados"), dois romances românticos em que os casais apaixonados sofriam para ficar juntos ("Querer e Poder" e "Um Novo Amanhã") e uma aventura cujo propósito era roubar uma valiosa joia de um reino oriental ("Doce Vingança").

Ou seja, pode-se acusar a norte-americana de qualquer coisa, menos de falta de versatilidade e de falta de coragem para ousar em suas narrativas.

2) O ponto em comum de todos os livros de Nora Roberts, por mais diferentes que eles sejam, está no acentuado romantismo das tramas. Se as histórias de amor não são o centro da atenção (e tradicionalmente são), elas permeiam boa parte da narrativa, roubando normalmente à cena. Nora Roberts é uma excelente contadora de histórias românticas. Ela parece ter um arsenal ilimitado de ingredientes para emocionar os corações dos leitores. Este talvez seja o ponto mais alto dos seus romances.

Os casais apaixonados na ficção de Roberts são variados e carismáticos. Há de tudo um pouco: a bruxa do século XXI que se apaixona pelo feiticeiro do século XII; a investigadora de polícia que tem um affair com o principal suspeito do assassinato que está trabalhando; a ladra de joias que nutre um amor clandestino pelo agente da Interpol; a mãe de três filhos pequenos que se vê gamada no amigo de infância; os primos milionários que depois de se odiarem por décadas se veem grudados como nunca imaginaram; e a psiquiatra e o policial que ao trabalharem juntos em um caso policial começam a namorar.

Os relacionamentos amorosos dos casais principais são interessantes por serem contraditórios. As diferenças de personalidade e de crença do mocinho e da mocinha geralmente são grandes. A lógica joga contra a união deles, enquanto a atração física os aproxima, em um jogo constante de vai e volta. É o famoso: os opostos se atraem.

3) Os textos das obras de Nora Roberts são simples e bem objetivos. A autora utiliza-se da linguagem coloquial o tempo inteiro e normalmente vai direto ao ponto, sem rodeios. O que importa para ela é a ação. Para que ficar se alongando com muitas descrições ou com a construção de tramas poéticas e subjetivas?! Nora Roberts não perde tempo com nada que não seja estritamente essencial. Assim, suas tramas se tornam bastante envolventes e muito ágeis. Tudo acontece rapidamente nas páginas dos seus romances.

Este expediente torna a leitura extremamente fácil e muito prazerosa. É possível ler centenas de páginas diariamente sem se cansar. A maioria dos livros da lista do Desafio Literário deste mês eu li em um único dia.

4) Se a simplicidade textual ajuda o leitor menos experiente ou menos gabaritado, por outro lado, não encontramos quaisquer inovações linguísticas ou estéticas nas publicações da norte-americana. A sensação é de estar lendo obras sem grande refinamento literário. Afinal, não é possível optar pela quantidade sem abrir mão da qualidade. É humanamente impossível alguém produzir mais de duas centenas de romances com grande qualidade artística. Convenhamos que as escolhas de Nora Roberts, neste sentido, parecem óbvias. Ela faz muitos livros, porém de baixíssima qualidade literária.

A sensação é que estamos lendo romances juvenis ou pueris. A impressão é que tudo foi feito às pressas, sem um refinamento ou um acabamento mais elaborado. Creio que o leitor típico de Nora Roberts é alguém que lê exclusivamente por entretenimento, sem exigir muito requinte das obras vistas.

Esse vazio conceitual, essa pobreza estilística ou essa precariedade narrativa ficam mais evidentes nos desfechos das obras. Normalmente, os encerramentos não surpreendem o leitor. Para agradar o público, a autora produz finais pouco verossímeis, um tanto forçados e/ou com clímax curto cujo final é sempre feliz.

Sinceramente, espera muito mais de uma autora tão conceituada e que possui uma das marcas editoriais mais importantes do cenário da literatura contemporânea.

5) Um ponto alto das narrativas de Nora Roberts está na constituição das suas personagens. A escritora norte-americana se mostra exímia na arte de construir personalidades complexas e contraditórias. Tanto os protagonistas como os figurantes apresentam dramas, medos e perfis intrigantes. Eles normalmente possuem muitos defeitos e várias qualidades positivas que se sobrepõem.

Os tipos que aparecem nas páginas dos livros de Roberts são seres únicos, relevantes e carismáticos. Eles possuem fortes problemas psicológicos (suas angústias atrapalham seu dia a dia e influenciam suas decisões e seus comportamentos) e estão sempre envolvidos em complexas tramas dramáticas. O leitor torce pelo mocinho e pela mocinha porque eles são, ao mesmo tempo, falíveis e humanos. Não há um heroísmo estereotipado e imbatível. As personagens erram e acertam como qualquer pessoa na vida real.

6) O principal defeito dos romances de Nora Roberts está na pobreza dos seus enredos. As histórias da norte-americana são tradicionalmente pouco criativas. Minha sensação ao ler os livros de Roberts é de já ter visto tramas iguais antes em outros lugares. Isso aconteceu em todas as obras da autora. Ela não consegue fugir do convencional em nenhum momento. Ler a literatura de Nora Roberts é encarar um pot-pourri de narrativas já consagradas no cinema, na literatura, na televisão ou nos jornais. A escritora utiliza-se de vários clichês para produzir seus numerosos livros.

Quem possui um mínimo de bagagem cultural ou literária fica entediado com os romances de Nora Roberts somente ao ler as sinopses das obras.

7) Outro elemento que torna os livros da autora pouco atrativos é a falta de reviravoltas ou de surpresas durante a trama. Os romances de Roberts caminham sempre em linha reta, não conferindo grandes emoções ao leitor mais experiente. Dos livros analisados durante este Desafio Literário, é possível prever tudo o que vai acontecer em 90% das histórias sem erro. Isso é decepcionante para quem deseja ser surpreendido pelos acontecimentos narrados.

8) A compulsão por séries e por trilogias da escritora muita vezes compromete a qualidade das obras publicadas. Há casos evidentes que a transformação da narrativa em uma trilogia, por exemplo, acabou prejudicando a trama central. Ao invés de ter um bom romance, optou-se por ter três livros de qualidade discutível. Isso ficou evidente na série "A Pousada". Em outros casos, a extensão da história em mais capítulos também afeitou a qualidade do material entregue. A impressão é que a autora estava mais interessada em estender as narrativas e produzir mais livros do que transmitir uma mensagem coerente e com valor literário.

9) Em alguns livros, os diálogos travados entre as personagens são angustiantes. As conversas são de uma banalidade desconcertante para uma escritora da envergadura de Nora Roberts. Isso não acontece em todos os livros, mas é possível encontrar em alguns.

10) A escritora norte-americana escreve bem e sabe contar uma boa história romântica. Suas tramas - apesar de pouco originais, com todos os clichês possíveis e imagináveis e, às vezes, recheadas de banalidades - são sólidas e bem construídas. É raro encontrar furos em seus enredos. Nora Roberts normalmente faz o arroz com feijão bem feito. Apesar da simplicidade do que é entregue, o prato não vem queimado ou com um gosto diferente do esperado.

O primeiro romance da autora lido neste Desafio Literário foi "Pecados Sagrados". Ele foi publicado originalmente em 1987. Nesta época, Nora Roberts já era conhecida no mercado editorial dos Estados Unidos, mas ainda não era uma superstar literária, status que seria adquirido ao longo da década de 1990. Mesmo assim, a autora já possuía um bom número de leitores fiéis. Vários trabalhos anteriores de Roberts tinham alcançado o topo do ranking dos mais vendidos nas livrarias norte-americanas.

"Pecados Sagrados" tem 350 páginas e apresenta um enredo diferente do que Nora Roberts estava acostumada a desenvolver até então. Ao invés das tramas românticas, temos aqui um suspense policial. Esta é uma das primeiras histórias desse gênero da autora, que o exploraria com mais afinco na década de 1990. O foco da narrativa é a investigação para descobrir a identidade de um serial killer. O romantismo fica por conta do namoro entre o policial Ben Paris, responsável pela investigação, e a psiquiatra Tess Court, contratada para ajudar os policiais a definir o perfil psicológico do criminoso.

O êxito comercial deste romance foi tão grande que sua autora resolveu produzir uma sequência. Os investigadores Ben Paris e Ed Jackson voltaram à ativa em "Virtude Indecente" (Bertrand), publicado em 1989. Esse segundo livro da série que ficou conhecida como "Detetives de Washington D.C" recebeu o prêmio Golden Medallion Awards no ano de seu lançamento como o melhor suspense norte-americano.

A trama de "Pecados Sagrados" é bem simples e muito fraquinha. Sua história é banal e possui pouquíssimos elementos narrativos interessantes. O livro não consegue cativar nem como thriller policial nem como uma história romântica. Tentando misturar os dois gêneros, Nora Roberts acabou não fazendo bem nem uma coisa nem outra.

O segundo livro do Desafio Literário é "Doce Vingança". Publicado em 1988 e com 472 páginas, este é o meu romance favorito de Nora Roberts. Sua trama possui muita ação, suas personagens são carismáticas e o enredo mistura romantismo e suspense nas doses certas.

A obra apresenta o casal Philip Chamberlain, um agente secreto da Interpol, e a jovem ladra Adrianne Spring. A moça é filha de uma ex-estrela do cinema e de um rei do Oriente Médio. Depois de fugir do reino paterno, Adrianne se transformou na maior ladra de joias do mundo. Depois de anos de busca pela identidade do criminoso número 1 da Interpol, Philip Chamberlain enfim descobre ser Adrianne a responsável pelos maiores roubos. Porém, ao invés de prendê-la, ele irá ajudá-la no maior roubo de todos os tempos: a joia "O Sol e A Lua" do pai de Adrianne. Guiado pela paixão, Chamberlain coloca sua carreira em risco em nome do amor.

"Doce Vingança", apesar de ser pouquíssimo original, consegue cativar tanto quem aprecia as histórias de amor quanto o leitor que gosta de bons thrillers. Em minha visão, Nora Roberts teve a competência de produzir, neste caso, uma narrativa que aproveitasse os elementos clássicos das histórias românticas (rainhas e reis, princesas e príncipes) inserindo-os em um ambiente moderno e cosmopolita (alta sociedade dos Estados Unidos e universo de Hollywood). Além disso, a autora acrescentou pitadas de aventura e de perseguição (polícia e ladrão, vilões e mocinhos) ao estilo dos melhores romances policiais.

Na sequência, veio a leitura de "Nudez Mortal", o primeiro romance da celebrada série "Mortal". Escrita por Nora Roberts com o pseudônimo de J. D. Robb, a saga futurista tem mais de 50 títulos publicados nos Estados Unidos entre romances, contos e novelas. Esta coleção literária é o maior sucesso da carreira de Nora Roberts, tendo vendido dezenas de milhões de exemplares no mundo inteiro. "Mortal" também é a série mais longeva da autora. Iniciada em 1995, com "Nudez Mortal", a saga continua sendo abastecida regularmente com novos livros todos os anos.

A trama da série "Mortal" gira em torno da destemida policial Eve Dallas e seu marido, o multimilionário Roarke. A história se passa em Nova York na segunda metade do século XXI. Basicamente, em cada livro, Eve precisa desvendar um crime praticado por um vilão diferente. Enquanto isso, o leitor acompanha o amadurecimento de seu relacionamento com Roarke.

Em "Nudez Mortal", o livro inicial da coleção e que possui 352 páginas, a tenente Eve Dallas conhece Roarke. Nesta primeira investigação da detetive, Roarke é o principal suspeito de ser o serial killer que ela procura. O problema de Eve é que a policial acaba sendo seduzida por Roarke durante a investigação. Enquanto tenta descobrir se o milionário é o assassino, a tenente começa um tórrido romance com ele. Surge, assim, uma arriscada relação que poderá destruir tanto a carreira da policial quanto a investigação que ela está conduzindo.

Esta trama é cativante como romance policial. De maneira geral, sua história é interessante, veloz, enigmática e bastante emocionante, possuindo um clima de suspense. O problema do livro está quando o analisamos como ficção científica. Aí, o caldo desanda! A realidade vivida pelas personagens em 2058 é (acredite!) menos avançada e menos tecnológica do que a nossa realidade atual, passada em 2017.

Ou seja, em pouco mais de duas décadas, o romance publicado em 1995 já ficou totalmente desatualizado, retratando um futuro pouquíssimo provável. A projeção de futuro da autora é uma mistura de lugares comuns e erros grosseiros de previsão. Nora Robert pode até ser uma boa romancista romântica, porém é péssima em construir ficção científica.

O quarto livro deste Desafio Literário foi "A Cruz de Morrigan". Essa obra é o primeiro volume da "Trilogia do Círculo", primeira série fantástica da autora norte-americana. "O Baile dos Deuses" (Bertrand) e "O Vale do silêncio" (Bertrand) são o segundo e o terceiro volumes da coleção, respectivamente. Misturando vampiros, bruxas, feiticeiros, deuses e demônios, Roberts cria uma trama apocalíptica. Além dos elementos sobrenaturais, a escritora acrescenta muito romantismo e suspense à história, ingredientes estes que nunca faltam em suas narrativas e que marcam, de certa forma, sua literatura.

Publicado originalmente em 2006 e tendo 364 páginas, "A Cruz de Morrigan" começa no ano de 1.128. A trama tem como cenário a Irlanda medieval. Hoyt Mac Cionaoith, um bondoso feiticeiro do período medieval, é ajudado por Morrigan, uma deusa preocupada com o destino da humanidade. Assim, o feiticeiro viaja no tempo e vem até o século XXI. Nos dias atuais, Hoyt precisará reunir um grupo de bravos combatentes para enfrentar Lilith, a líder dos vampiros que sonha em exterminar a humanidade. O primeiro a ser recrutado por Hoyt é seu irmão, Cian, um vampiro do bem que tem mais de 900 anos.

Admito que "A Cruz de Morrigan" me surpreendeu positivamente. A trama é muito bem construída. Ao mesmo tempo em que é um romance com características históricas, parte da trama se passa nos dias atuais. O romantismo é outra peça-chave para a compreensão de grande parte do apelo narrativo do livro. A infantilidade, típica das histórias de vampiros e de bruxas, curiosamente, não aparece aqui. Nora Roberts consegue produzir um texto elegante e adulto, dando pouquíssima margem para questionamentos sobre a seriedade de sua obra.

O problema está mais uma vez na falta de originalidade da obra e da série inteira (um velho defeito que a autora carrega desde sempre). Novamente, a impressão do leitor é estar diante de uma história recheada de clichês. A "Trilogia do Círculo" é uma mistura de várias recentes histórias fantásticas de vampiros.

A quinta obra de Roberts lida e analisada foi "Querer e Poder". Este thriller romântico foi publicado em dezembro de 2013 e possui 288 páginas. O enredo de "Querer e Poder" apresenta Pandora McVie, uma moça que trabalha como design de joias, e Michael Donahue, um importante roteirista de televisão. Os dois são os únicos herdeiros da fortuna de Jolley Folley, um bilionário excêntrico recém-falecido. Contudo, para ficar com a herança, a dupla precisava cumprir uma intrigante cláusula do testamento do ricaço: viveram em uma mesma casa por seis meses. O problema é que Pandora e Michael nunca se suportaram, nutrindo grande ódio um pelo outro. Ou eles aprendem a conviver juntos ou perderão a fortuna.

"Querer e Poder", infelizmente, não atinge a condição de ser um thriller tão interessante quanto poderia nem possui uma boa trama romântica. Diria que ele é apenas um livro medíocre. Os protagonistas até são carismáticos, mas a história como um todo é prejudicada pela banalidade das situações e pela obviedade dos acontecimentos. O leitor mais qualificado e exigente chegará ao final do livro muito decepcionado. Os principais problemas de "Querer e Poder" estão no fato de ele ser um romance banal e seu desfecho ser péssimo.

E para terminar o Desafio Literário, foi lido "Um Novo Amanhã", o sexto romance de Nora Roberts analisado neste mês de agosto. Esta obra faz parte de uma série literária chamada "A Pousada", que abrange outros dois livros. A trilogia é completada pelos romances "O Eterno Namorado" (Arqueiro) e "Um Par Perfeito" (Arqueiro). A coleção "A Pousada" foi publicada inteiramente em 2016. "Um Novo Amanhã", trama romântica com 320 páginas, chegou às livrarias norte-americanas pela primeira vez em março do ano passado.

"Um Novo Amanhã" se passa na pequena cidade de Boonsboro, no interior dos Estados Unidos. Ali, há uma tradicional pousada que está sendo reformada pela família Montgomery. Três irmãos, Beckett, Ryder e Owen Montgomery, são os responsáveis por revitalizar aquele prédio que ficou décadas abandonado e fechado. Enquanto cuida do árduo trabalho de restaurar a pousada, Beckett Montgomery, o charmoso arquiteto que lidera a trupe de irmãos especializada em reformas, se apaixona por Clare Brewster, sua amiga de infância. A jovem retornou recentemente para Boonsboro. Clara é viúva (seu marido era soldado do exército norte-americano e morreu enquanto trabalhava no exterior), tem três filhos pequenos e administra a principal livraria da localidade, situada em frente à pousada.

O grande desafio do casal será conseguir conciliar suas complicadas rotinas. Só assim, poderão engatar um romance de verdade. Beckett sofre com o trabalho pesado na pousada e com a descoberta que há um fantasma no prédio em que está reformando. Clara, por sua vez, precisa achar um tempinho na sua agenda de empresária e mãe solteira com três filhos pequenos para ver seu amado.

A banalidade desta trama pode assustar até mesmo os leitores menos exigentes. Nora Roberts produz um texto que não acontece absolutamente nada por várias e várias páginas. As personagens estão o tempo inteiro comendo pizza, discutindo detalhes da reforma da pousada, comentando fofocas da cidade, bebendo cerveja, assistindo televisão, debatendo a criação dos filhos (até mesmo os mais crescidinhos) ou brincando de forma infantil com a criançada. São todas atividades triviais e que quando colocadas em um romance tornam-se ainda mais sem graça.

De maneira geral, a conclusão final que chego sobre a literatura de Nora Roberts é que ela está muito abaixo do esperado para alguém que é uma best-seller mundial. A produção massiva de romances que enchem todos os anos as prateleiras das livrarias cobra um preço caro de mais: a falta de qualidade. É impossível alguém criar mais de duas centenas de livros de boa qualidade. Por isso, as histórias da norte-americana são tão banais e vazias de conteúdo literário.

Nora Roberts, para mim, é uma escritora do tipo McDonald's. Ela produz rapidamente e em grande quantidade algo que não tem sabor ou qualquer riqueza nutritiva. Em nome da massificação, ela abre mão da qualidade. Os fãs de Nora Roberts que me desculpem, mas compará-la aos principais nomes da literatura mundial é uma piada sem graça.

Talvez o grande equívoco tenha sido meu, ao colocá-la ao lado de Haruki Murakami, Régine Deforges e Machado de Assis neste Desafio Literário de 2017. Roberts pode até ser uma campeã na vendagem de livros, mas está muito, mas muito longe de ser uma escritora de qualidade como são os seus colegas analisados até aqui no Blog Bonas Histórias. Pelo menos foi esta a constatação obtida com as leituras de seis de suas obras.

Espero ter mais sorte com a análise do próximo autor, o australiano Markus Zusak. Ele será o escritor estudado no Desafio Literário de setembro. A principal obra da carreira de Zusak é o best-seller "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca), lançado em 2006. Não perca a crítica das obras e da literatura do australiano. Até o mês que vem!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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