• Ricardo Bonacorci

Livros: A Garota que Eu Quero - A última parte da trilogia de Markus Zusak


Li, no domingo retrasado, o livro "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca), o terceiro romance publicado por Markus Zusak. Com isso, posso dizer que completei a trilogia inicial da carreira do escritor australiano em apenas um final de semana. Afinal, li "O Azarão" (Bertrand) na sexta à noite e "Bom de Briga" (Bertrand) no sábado à tarde, ambos já analisados no Desafio Literário deste mês. Essas duas obras são, respectivamente, a primeira e a segunda publicações da série dos irmãos Wolfe, saga que tem seu desfecho exatamente em a "A Garota que Eu Quero".

Dá para ler os livros da trilogia de maneira independente, porém há sim perda de alguns aspectos narrativos. Como eles são romances curtos, de poucas páginas ("O Azarão" tem 176, "Bom de Briga" possui 208 e "A Garota que Eu Quero" tem 176 páginas), apresentam uma leitura fácil e suas histórias começam aonde a anterior terminou, o ideal é o leitor lê-los em sequência. Foi o que fiz e, por isso, recomendo. Desta maneira, os pontos do enredo que amarram toda a trama estão mais presentes na memória do leitor e ganham vida ao longo de toda a história.

É provável que a série pudesse ter sido publicada inteira em um único livro. Assim, teríamos um grande (e excelente) romance ao invés de três pequenas (e boas) obras. Porém, Markus Zusak e sua editora não acreditaram, na época do lançamento, que essa opção seria a melhor do ponto de vista mercadológico. Além disso, o jeito meticuloso do autor produzir suas narrativas acabaria atrasando ainda mais a publicação de um livro maior e com a história toda consolidada. Assim, a trama inteira dos Wolfe ganhou três livros que chegaram aos poucos às livrarias australianas.

"A Garota que Eu Quero" foi lançado em 2001 e conquistou, em 2003, o Prêmio CBCA Children's Book, concedido a melhor obra de literatura infanto-juvenil da Austrália. Vale lembrar que "O Azarão" e "Bom de Briga" já tinham ganhado esta premiação nos anos anteriores. Neste momento da carreira, Markus Zusak era reconhecido em seu país natal como um exímio autor da literatura infanto-juvenil. Ele só iria se tornar um escritor com maior apelo literário (leia-se escritor de romances adultos) com a publicação da obra seguinte, "Eu Sou o Mensageiro", em 2002. Mesmo assim, o sucesso internacional ainda demoraria alguns anos para chegar, só acontecendo com a publicação, em 2005, do best-seller "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca).

O enredo de "A Garota que Eu Quero" não começa exatamente onde a história de "Bom de Briga" parou. O intervalo narrativo entre uma trama e outra é de um ano. Neste período, a vida na casa dos Wolfe melhorou substancialmente. Clifford Wolfe, o patriarca, voltou a trabalhar normalmente como encanador, conseguindo sustentar a família. A Sra. Wolfe continua trabalhando muito como empregada doméstica, porém sem tanta pressão. Ela não é mais a única fonte de renda da família. Sarah tornou-se mais responsável e abandonou as noites de bebedeira e de boemia. A jovem também trabalha. Ruben deixou de lado a rebeldia juvenil e passou a ser um rapaz dedicado e trabalhador, apesar de muito namorador. Steve, o irmão mais velho, está vivendo sozinho e tem uma carreira profissional bem-sucedida.

Aparentemente as coisas estão perfeitas na casa dos Wolfe. Aparentemente... O único que apresenta agora uma vida complicada é o caçula, Cameron. O protagonista e narrador da história é um rapaz de dezesseis anos que vive de maneira solitária e introspectiva. Ele não trabalha regularmente, estuda pouco, não tem amigos, não consegue arranjar uma namorada e sua principal diversão é caminhar pelas ruas da cidade. Ou seja, continua andando maltrapido e com o cabelo bagunçado, como se fosse um mendigo.

Seu grande amor é Stephanie, uma garota que apareceu brevemente no romance anterior e que humilhou o protagonista (além de ter dado em cima do irmão dele). Não podemos dizer que Stephanie despreze Cameron no presente porque ela simplesmente não se lembra dele. Nunca mais os dois se falaram. Mesmo assim, Cameron não a esqueceu e continua amando-a platonicamente. Cameron gosta de ficar sentado na frente da casa de Stephanie observando o movimento no interior da residência. Seu sonho é que um dia a moça apareça para saudá-lo e convidá-lo para entrar. Isso, porém, nunca acontece. Mesmo assim, ele permanece visitando o lugar regularmente.

Cameron é, no sentido afetivo, totalmente diferente do irmão Ruben, seu grande parceiro e confidente. Ruben é charmoso, corajoso e pouco romântico. Ele está sempre com uma namorada nova. Depois de um tempo com a mesma garota, Ruben se enjoa dela e a troca por uma mais bonita, magoando assim os sentimentos da moça anterior. O caçula, por sua vez, é do tipo romântico. Ele quer encontrar a garota certa e definitiva. Sua maior preocupação é não magoar o coraçãozinho dela. Porém, ele jamais consegue chegar perto de uma mulher, não sabendo o que fazer para iniciar um namoro.

Ao longo de "A Garota que Eu Quero", os sentimentos de Cameron sofrem duplamente. Primeiramente, ele descobre que sua família o vê como um zero a esquerda. Enquanto todos da casa deram a volta por cima e progrediram de alguma maneira nos últimos 365 dias, ele continua sendo o rapaz fracassado de antes. Isso o magoa. Além do mais, Cameron se apaixona por Octavia, uma garota bonita e divertida. O problema é que ela é uma ex-namorada de Ruben. O que será mais importante para o protagonista: o amor por Octavia ou a parceria histórica com o irmão?

Gostei muito deste romance. Sinceramente, não sei qual obra é melhor: se esta ou a anterior ("O Azarão" está em um nível abaixo em relação as suas continuações). Se "Bom de Briga" tinha mais ação e sua narrativa focalizava os dramas financeiros da família e as crises existenciais de Ruben e Cameron, "A Garota que Eu Quero" retorna ao romantismo do caçula e às suas dificuldades de inserção na família e na sociedade (algo visto com menor intensidade dramática no primeiro volume da trilogia).

"A Garota que Eu Quero" mostra com grande dramaticidade e com certa beleza poética as dificuldades de um adolescente em adentrar a vida adulta. Tudo parece ser um drama sem fim para o rapaz de dezesseis anos: a atração pelo sexo oposto, a iniciação sexual, a criação de uma identidade própria, a aquisição da autoestima, a busca pelo emprego e pela aptidão profissional, a constituição dos valores morais do indivíduo, a ocupação do seu espaço no âmbito familiar e a fidelidade para com o irmão.

Curiosamente, esses aspectos da vida juvenil são retratados por Markus Zusak com realismo e muita sensibilidade. Há inúmeros elementos autobiográficos na saga de Cameron Wolfe, o que torna seus relatos ainda mais autênticos e bonitos. Raramente a complexidade e as dificuldades da adolescência se mostraram com tanta beleza nas páginas de uma obra literária.

Outro elemento que mexe com o leitor é o tipo de escrita de Zusak. O australiano possui um texto leve e direto. Ele escreve como se estivesse conversando com a gente. O escritor expõe de maneira sincera os medos e as preocupações do protagonista-narrador, não se censurando nem escondendo nada de quem lê as páginas do romance. As frases curtas também dão grande charme ao texto. A impressão é que estamos realmente diante de um adolescente tímido, com dificuldade de se expressar. Impossível não acreditar que o narrador seja mesmo Cameron.

Também gostei da alternativa encontrada pelo romancista para apresentar a descoberta da literatura na vida da personagem principal. Se no final de cada capítulo de "O Azarão" e "Bom de Briga" tínhamos, respectivamente, os sonhos de Cameron e suas conversas noturnas como o irmão Ruben, agora temos acesso aos textos ficcionais produzidos pelo protagonista. Vemos nascer um escritor, o que faz a realidade e a ficção se misturarem ainda mais.

O único aspecto negativo de "A Garota que Eu Quero" está na escolha de uma tradutora diferente do restante da série literária. Como os direitos de publicação dessa obra no Brasil é de uma editora diferente (Intrínseca) daquele que lançou "O Azarão" e "Bom de Briga" (Bertrand), houve a troca da tradutora (saiu Ana Resende e entrou Vera Ribeiro). Notam-se, assim, algumas alterações no enredo da trama. Por exemplo, antes as personagens jogam futebol. Agora, os jogos são de futebol americano. Antes, o Sr. Wolfe era encanador. Agora, sua profissão é bombeiro hidráulico. São pequenas mudanças que não afetam a integralidade do texto, mas que não respeita a continuidade histórica da narrativa. Um leitor mais atento pode notar essas alterações na narrativa e se incomodar.

Com o fim da história de Cameron Wolfe, já me preparo para ler um novo romance de Markus Zusak, dando sequência ao Desafio Literário de setembro. No próximo final de semana, lerei "Eu Sou o Mensageiro", quarto livro publicado por Zusak e que apresenta uma trama totalmente distinta da narrada até aqui. Estou curioso para saber o que o escritor australiano nos reservou. Retorno aqui no Blog Bonas Histórias na segunda-feira, dia 18, para postar minha análise dessa outra obra. Até lá!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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