• Ricardo Bonacorci

Livros: Bom de Briga - O segundo romance de Markus Zusak


"Bom de Briga" (Bertrand) é o segundo romance da carreira de Markus Zusak. Esta obra dá continuidade à história apresentada em "O Azarão" (Bertrand). O livro de estreia do autor australiano já foi analisado na semana passada aqui no Desafio Literário.

Nesta sua segunda publicação, Zusak volta a retratar os dramas enfrentados pela família Wolfe. No centro dos acontecimentos estão Cameron e Ruben, os filhos caçulas do clã, que possuem uma adolescência conturbada. Cameron, de quinze anos, narra em primeira pessoa os episódios que envolvem seus familiares. O início desta trama se passa poucos meses após o término da história de "O Azarão". Por isso, é aconselhável lê-los em sequência. Foi o que fiz no final de semana passado. Li um romance na sexta à noite e o outro no sábado à tarde.

Apesar de ser um prolongamento natural do livro anterior, "Bom de Briga" é ainda melhor do que seu antecessor. As aventuras de Cameron e de seu irmão Ruben tornam-se agora mais perigosas, emocionantes e comoventes. Se a obra de estreia de Markus Zusak pode ser classificada como um bom livro sobre a juventude contemporânea, esta segunda parte da trilogia da família Wolfe deve ser descrita como sendo um excelente romance sobre os dramas juvenis.

Publicado em 2000 e tendo 208 páginas, "Bom de Briga" mantém quase todas as características narrativas e estilísticas de "O Azarão", além da evolução do seu enredo. A saga dos Wolfe é completada com "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca), livro lançado no ano seguinte. Assim, fecha-se a trilogia da dupla de irmãos Cameron e Ruben e seus complicados familiares.

Assim como já havia acontecido com "O Azarão" (em 2000) e viria ocorrer com "A Garota que Eu Quero" (em 2003), "Bom de Briga" conquistou, em 2001, o Prêmio CBCA Children's Book, concedido a melhor obra de literatura infanto-juvenil da Austrália. Apesar de não apresentar uma história nova, Markus Zusak mostrava à crítica uma capacidade ainda maior de emocionar o público. Estava provado que sua estreia exitosa não fora sorte de principiante. O australiano era sim um ótimo escritor.

"Bom de Briga" começa com todos os integrantes da família Wolfe passando por sérias dificuldades. A maior delas é de ordem financeira. O pai, encanador, sofreu um acidente de trabalho e não consegue mais arranjar serviço. A mãe passou a trabalhar como faxineira em um hospital para ganhar mais dinheiro. Agora, passa mais tempo fora de casa do que com seus parentes. Mesmo assim, as condições familiares naquela residência são dignas de pena. Os quatro filhos do casal pouco podem fazer para ajudar os pais a equilibrar as contas.

Steve, o filho mais velho, está com o pé quebrado, precisando ficar em casa de molho por alguns meses. Ele se machucou jogando futebol em um final de semana. Apesar de ser extremamente responsável e trabalhador, o rapaz não pode fazer nada para ajudar em casa. A filha Sarah, por sua vez, está cada vez mais deprimida. Cada vez que um novo namorado a abandona, ela se entrega mais à bebida e à boemia. Com isso, passa a ser mal falada no bairro. À procura de afeto, ela se joga nos braços de qualquer um, o que aumenta ainda mais suas frustrações e suas decepções amorosas.

Diante de tantas adversidades, Ruben e Cameron, os irmãos menores e adolescentes, se veem na obrigação de contribuir com as finanças domésticas. Primeiro, a dupla tenta investir seus parcos recursos apostando em corridas de cachorro. Obviamente, não são bem-sucedidos. Depois, aceitam a proposta de um empresário local para serem lutadores de boxe amador. Os jovens partem para disputar um campeonato clandestino de lutas pela cidade. A remuneração parece boa, porém os perigos que a dupla irá passar também são grandes. Eles só ganham dinheiro se vencerem as lutas.

Se "O Azarão" já possuía uma boa trama, "Bom de Briga" é ainda melhor por intensificar a dramaticidade do enredo. A história tem mais densidade e possui muito mais ação. As personagens são postas à prova em todos os momentos. Elas precisarão lutar contra o destino difícil que as espreita. A impressão que tive é que a primeira obra serviu de preparação para a segunda. O novo livro deixa de lado o romantismo para concentrar sua força narrativa nos dramas das personagens principais.

Cameron precisa lidar com a alegria do sucesso do irmão Ruben, agora um lutador vitorioso, enquanto encara seu próprio fracasso como boxeador. Além disso, a mudança de status do irmão mais velho provoca reflexões no narrador. O antigo Ruben está morrendo para surgir um novo, mais confiante e decidido. Enquanto o caçula continua procurando seu papel na sociedade e em casa, Ruben parece já ter encontrado.

O relato de Cameron Wolfe é sincero e muito sensível. Feito por frases curtas, o texto dá um ar infantil à narrativa. Por outro lado, o complexo drama pessoal e familiar em que o protagonista está envolvido vai apagando, pouco a pouco, toda a sua ingenuidade e sua inocência. O garoto vai amadurecendo na marra, se transformando em homem. A adolescência fica para trás, sem deixar qualquer vestígio de nostalgia ou de beleza.

A banalidade do cotidiano familiar também chama a atenção e ganha contornos poéticos. A vida simples e honesta levada naquela residência torna-se bela e com um colorido especial aos olhos do leitor. Assim, Markus Zusak joga luz para a luta diária dos Wolfe, que encaram as adversidades e não desistem de dar a volta por cima. Todos os integrantes da família, por maior número de defeitos que possuem, ainda sim cativam o leitor. É impossível não gostar deles e não se sensibilizar com suas agruras cotidianas.

A grande diferença deste romance é que não estamos mais diante de crianças ingênuas, inconsequentes e passivas como em "O Azarão". Agora, Cameron e Ruben se tornam senhores dos seus narizes e tentam descobrir um propósito para suas vidas. Eles enfrentarão quaisquer obstáculos para provarem seu valor. E, para desespero dos seus pais, é em cima de um ringue de boxe que isso acontecerá.

Curiosamente, é neste livro que descobrimos o motivo do título do romance anterior da série. "O Azarão" é nome artístico de Cameron no campeonato clandestino de boxe, enquanto "Bom de Briga" é o apelido do seu irmão Ruben.

Outra grande mudança do romance "O Azarão" para o livro "Bom de Briga", além da diminuição do romantismo, da perda da inocência dos protagonistas e da maior densidade dramática das situações narradas, está na ausência de elementos oníricos. Cameron deixa de sonhar no final de cada capítulo (indicando mais uma vez seu amadurecimento e sua chegada ao mundo adulto). Por outro lado, ele passa a conversa com Ruben no final de cada capítulo. Essas conversas são sempre feita à noite, antes dos irmãos dormirem (eles dividem o mesmo quarto). Neste bate-papo feito no escuro, cada um dos adolescentes mostra seus medos, suas aspirações e suas inseguranças.

As cenas nas arenas de boxe também são muito boas. O leitor sente as angústias, a adrenalina e as emoções das personagens. As alegrias e as tristes dos lutadores podem mudar em questão de segundos.

"Bom de Briga" é um livro muito gostoso de ler. Sua leitura é fácil e muito rápida. Acho que o concluí em pouco mais de quatro horas. Uma vez que você começa, não quer parar. A sensação é que o narrador está conversando com você, expondo seus pensamentos, crenças e aflições.

Assim que cheguei à última página deste livro, tive vontade de começar imediatamente a leitura de "A Garota que Eu Quero", a terceira publicação da trilogia. Só não o fiz naquele momento porque já era noite e eu precisava sair. Porém, na manhã seguinte já estava com a nova obra aberta em minhas mãos. Markus Zusak tem a capacidade de criar personagens carismáticos e tramas emocionantes, que viciam a gente. Adorei os Wolfe e sua complicada vida doméstica.

Para quem ficou curioso(a) para saber como é "A Garota que Eu Quero", eu volto aqui no Blog Bonas Histórias, na quinta-feira, dia 14, para analisar o terceiro livro da série dos irmãos Wolfe. Até mais!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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