• Ricardo Bonacorci

Filmes: It, A Coisa - Regravação do clássico de Stephen King


Nesse feriado de 7 de setembro, entrou em cartaz nos cinemas brasileiros "It - A Coisa" (It: 2017), a nova adaptação para as telonas do romance homônimo de Stephen King. O livro do norte-americano foi publicado em 1986 e foi transformado em filme para a televisão quatro anos mais tarde. O longa-metragem "It - Uma Obra-prima do Medo" (It: 1990) fez muito sucesso tanto nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil no início da década de 1990. Apesar da ótima aceitação do público, sua qualidade deixou muito a desejar. Ele se parecia mais com uma produção B do que com uma produção de alto nível.

Desta vez, o resultado final foi completamente diferente. O novo filme está excelente, mantendo a maioria dos aspectos da história original e conferindo muito medo à plateia. Ainda bem que alguém resolveu realizar um bom trabalho com um dos romances mais marcantes do "Mestre do Terror". Sem sombra de dúvida, temos aqui um dos melhores longas-metragens de suspense e de terror do ano. E temos também um novo filme entre as melhores adaptações para o cinema do vasto portfólio do escritor norte-americano mais vendido da atualidade.

Para mim, "It - A Coisa" é a história que possui mais a cara de Stephen King. Outros romances do autor podem ter alcançado mais sucesso nas livrarias ("Carrie, a Estranha", "Dança da Morte" e a série "A Torre Negra"), alguns podem ter sido desenvolvidos com mais qualidade literária ("A Zona Morta", "À Espera de um Milagre" e "Sob A Redoma") e outros podem ter tido maior êxito ao migrarem para o cinema ("O Iluminado", "Louca Obsessão" e "Um Sonho de Liberdade"), mas aquela narrativa que carrega os elementos mais característicos do estilo de Stephen King (principalmente os da sua primeira fase literária, quando o terror era a base dos enredos) é "It".

A nova produção cinematográfica de "It - A Coisa" contou com um orçamento de US$ 60 milhões e teve a direção do conceituado Andy Muschietti, cineasta argentino especializado em filmes de terror. Em Hollywood, Muschietti ainda é um novato. Ele fez apenas um filme, o ótimo "Mama" (2013), mas na Argentina ele produziu vários filmes e séries para a televisão local.

O elenco desse longa-metragem é formado em sua maioria por atores jovens, mas com uma boa rodagem nos sets de filmagem. Destaque para o talentosíssimo sueco Bill Skarsgård, da "A Série Divergente - Convergente" (The Divergent Series - Allegiant: 2016), do seriado televisivo "Hemlock Grove" (2013-2015) e de Anna Karenina (2013). Skarsgård deu vida ao vilão Pennywise com maestria, em uma das atuações mais aterrorizantes dos últimos anos. Completam o elenco principal Jaeden Lieberher, de "Destino Especial" (Midnight Special: 2016), Finn Wolfhard, da série "Strander Things" (2016-2017), Jack Grazer, da série "Tales of Halloween" (2015), Wyatt Oleff, de "Guardiões da Galáxia" (Guardians Of The Galaxy: 2014), Chosen Jacobs, da série "Hawaii Five-0" (2010-2017), Sofia Lillis, de "The Garden" (2016) e "37" (2016) e Jeremy Taylor, de "Alvin e os Esquilos - Na Estrada" (Alvin And The Chipmunks - The Road Chip: 2015).

A trama de "It - A Coisa" se passa (como quase sempre acontece em se tratando de histórias de Stephen King) em uma cidade do Maine, estado situado no extremo nordeste do território norte-americano. O nome do fictício município é Derry, palco também dos romances "Insônia" (Suma das Letras), "Saco de Ossos" (Suma das Letras) e "O Apanhador de Sonhos" (Suma das Letras). O filme se passa no final da década de 1980.

Em uma tarde chuvosa, o adolescente Bill Denbrough (Jaeden Lieberher) faz um barco de papel para Georgie (Jackson Scott), seu irmãozinho caçula. O menino queria aproveitar a chuva para "brincar de marujo" pelas águas que desciam pelas canaletas das ruas. Seu barquinho de papel navegaria naturalmente, sendo levado pela enxurrada. Como estava muito resfriado, Bill não pode acompanhar o irmão menor naquela "aventura". Assim, Georgie parte pelas alagadas ruas da cidade, brincado sozinho e alegremente com seu barquinho. A cena é bonita e encantadora.

A diversão, entretanto, é interrompida quando o brinquedo cai em um bueiro. Ao tentar recuperar o barco de papel, Georgie encontra uma misteriosa criatura alojada no bueiro. Trata-se de alguém vestido de palhaço e que se apresenta como Pennywise (Bill Skarsgård). Pennywise tenta fazer amizade com o menino, porém, na primeira oportunidade, devora a criança com ferocidade. Georgie é mutilado e, depois, arrastado para dentro do bueiro, desaparecendo tragicamente para sempre.

Um ano depois do acidente, a cidade sofre com uma bizarra epidemia. Dezenas de crianças desaparecem misteriosamente sem deixar rastros. Intrigado com aquilo e ressentido pela ausência do irmão caçula, Bill organiza uma busca pelo sistema de esgoto do município. Aproveitando-se da chegada das férias escolares de verão, ele lidera seu grupo de amigos na procura por Georgie. O adolescente acredita que seu irmão ainda esteja vivo, perdido em algum lugar na tubulação de saneamento de Derry.

O grupo de amigos de Bill se autointitula "Clube dos Perdedores". Todos os integrantes são alvos de zombaria e de bullying na escola. Temos ali o garoto gago, o hipocondríaco mimado pela mãe, o medroso de óculos de alto grau que não para nunca de falar e o judeu. Ao longo do filme, o grupo aumenta. Integram-se à trupe o gordinho, o menino negro e a moça mal falada na cidade. Esse septeto terá a incumbência de descobrir o que tem de tão errado em Derry. Por que tantas crianças da localidade somem sem explicação lógica?

Além de investigar o que aconteceu com Georgie e iniciar uma batalha assustadora contra Pennywise, o "Clube dos Perdedores" precisará enfrentar as maldades de um bando de cruéis rapazes mais velhos. Os perigos que o grupo de Bill passará, portanto, vão do concreto bullying escolar à maldição sobrenatural que paira sobre a cidade desde a sua fundação. Ou seja, é aventura de sobra para um grupo de adolescentes que mal consegue realizar as atividades banais do seu cotidiano.

"It - A Coisa" é um excelente filme de terror por cinco motivos simples: sua história é ótima, seus personagens são divertidos e carismáticos, atuação do diretor e dos atores beira a perfeição, há muitas cenas engraçadas e, acima de tudo, o longa-metragem consegue assustar de verdade os espectadores na sala de cinema. Não poderia haver pacote melhor para ser entregue à plateia que é aficionada pelos romances de King e/ou por filmes de terror. Como integro, orgulhosamente, as duas categorias, sou suspeito a falar...

A primeira característica de "It" (sua ótima história) é fruto da combinação da criatividade de Stephen King (por ter criado uma bela trama) e do excelente trabalho da dupla de roteirista Cary Fukunaga e Gary Dauberman. Os roteiristas conseguiram fazer as adaptações certas, mantendo boa parte da essência e do clima do romance. A combinação desses dois ingredientes (excelente história e adaptação cirúrgica) transformou o enredo do filme em uma narrativa sensível, interessante e peculiar.

O trabalho de Fukunaga e Dauberman foi muito elogiado pelo próprio Stephen King (que não poupa nas críticas quando não gosta do que vê na tela). Segundo o romancista, o longa-metragem é diferente do seu best-seller, mas, manteve suas principais características. Concordo plenamente. Todas as mudanças feitas têm uma explicação plausível e não prejudicam o filme como um todo.

Outro elemento que precisa ser destacado é a ótima composição das personagens. O "Clube dos Perdedores" tem um elenco riquíssimo. Estão ali o garoto gago, o gordinho, o judeu, o rapaz negro, o hipocondríaco, o extrovertido e a menina mal falada. O carisma, os medos e a união dessa turma são contagiantes. De tanto sofrerem com os preconceitos da sociedade, da família e dentro do próprio grupo, a garotada se sentirá forte para enfrentar as maldades de Pennywise. A força daquele clube está, evidentemente, em seu coletivo. Nunca um bando de garotos bobocas e medrosos foi tão poderoso. Esse paradoxo é retratado de uma maneira bem divertida no longa-metragem, rendendo boas risadas.

Todos os jovens atores estão muito bem em seus papéis. Eles conseguem emocionar a plateia com seus dramas e com os desafios que precisam encarar. Neste sentido, a direção de Andy Muschietti é impecável. O filme de duas horas e quinze minutos passa muito rapidamente. A impressão que temos é que ele tem pouco mais de uma hora de duração. O bom roteiro também ajudou sensivelmente nessa fluidez da produção. Quanto a Bill Skarsgård, ele dá um show de interpretação como o grande vilão da trama. Seu Pennywise é realmente assustador. Para ficar com medo desse antagonista, não é preciso nem vê-lo na tela. Somente sua voz já é causadora de arrepios. Impressionante o que o ator sueco de 27 anos consegue fazer em cena.

O quarto componente muito interessante de "It - A Coisa" é o bom humor do filme. Ao mesmo tempo em que estão diante dos perigos impostos por Pennywise, os integrantes do "Clube dos Perdedores" não perdem nunca a graça e a ingenuidade infanto-juvenil. O medo dos rapazes torna o enredo ainda mais divertido. É cômico ver um grupo de jovens desengonçados, medrosos, atrapalhados e pouco confiantes lidando com uma "coisa" tão aterrorizante e poderosa. Achei o filme com uma pegada humorística que não me lembrava de ter visto no livro. Para completar, o enredo brinca com vários elementos típicos do final dos anos de 1980. Quem viveu aquela época irá se lembrar de várias passagens inusitadas do período.

E quanto ao aspecto terror? Em relação a isso, "It" não deixa nada a desejar às melhores produções do gênero lançadas nos últimos anos. O filme se sai muitíssimo bem. É possível sim sentir medo e muita agonia em boa parte do longa-metragem. Do começo ao final, a tensão impera na plateia. Admito que levei vários sustos durante a exibição do filme. Fiquei arrepiado em duas ou três oportunidades durante a sessão (na minha escala, esse é o nível máximo de medo que chego). E olha que eu já conhecia a trama de Stephen King. Fiquei imaginando o quanto de medo a mais poderia sentir quem não conhecia o enredo...

É verdade que o estilo de terror de "It - A Coisa" é, hoje em dia, o mais banal e corriqueiro possível. As cenas de crianças fugindo de um monstro sobrenatural, a figura diabólica de um palhaço, a ação ambientada em uma casa abandonada ou em porões assustadores e a maldição histórica que atinge uma localidade são encontradas com frequência tanto na literatura quanto no cinema. Então, qual é o apelo deste filme? Sinceramente, não sei explicar. Mesmo usando e abusando de clichês (muitos deles se acoplaram à cultura popular por méritos de Stephen King - lembremo-nos da ira dos palhaços norte-americanos na época do lançamento do romance), ainda sim a plateia consegue ficar hipnotizada com a bela história narrada. O medo que sentimos é genuíno e provocado pela torcida desesperada pelo sucesso dos carismáticos personagens adolescentes. Incrível notar como ingredientes tão simples e comuns podem, até hoje, se transformar em uma ótima trama de terror.

Apenas no final do filme, somos informados que este longa-metragem aborda apenas a primeira fase da história. "It - A Coisa" é dividido em duas partes: uma acontece no final da década de 1980, quando os protagonistas são adolescentes, e outra que se passa 30 anos depois, quando todos já estão adultos. "It - A Coisa, parte II" deverá chegar aos cinemas em 2018. Com certeza, será um lançamento muito aguardado pelos fãs de King e dessa clássica trama de terror.

Veja o trailer da nova versão de "It - A Coisa":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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