• Ricardo Bonacorci

Livros: Eu Sou o Mensageiro - O primeiro romance adulto de Markus Zusak


Eu Sou o Mensageiro - Markus Zusak

Nesse final de semana, li o quarto romance do australiano Markus Zusak. "Eu Sou o Mensageiro" (Intrínseca) é um thriller inusitado. O livro possui um enredo despretensioso, mas consegue trabalhar muito bem vários elementos poético-filosóficos em uma trama de mistério e com boa dose de ação. O resultado final é espetacular! Nota-se um autor mais maduro na arte de produzir narrativas e totalmente à vontade no processo da escrita ficcional. Se antes, com suas primeiras publicações, Zusak já tinha convencido como romancista, agora ele mostra algo a mais. Chego à conclusão que ele é realmente um grande escritor, um dos melhores de sua geração.

Com o lançamento de "Eu Sou o Mensageiro" em 2002, Markus Zusak deixou para trás, definitivamente, a saga autobiográfica dos irmãos Wolfe, tema dos seus três primeiros livros. A opção pela construção de uma trama completamente nova já se fazia necessária. Por mais interessantes que fossem os dramas de Cameron e Ruben Wolfe, um autor não pode ficar refém de um único enredo. Com isso, o australiano também migrou da literatura infanto-juvenil, categoria de "O Azarão" (Bertrand), "Bom de Briga" (Bertrand) e "A Garota que Eu Quero" (Intrínseca), e passou para a literatura adulta, classificação mais apropriada para esta nova obra.

"Eu Sou o Mensageiro" conquistou alguns importantes prêmios na Austrália. O principal deles foi o Prêmio do Livro do Ano da CBC em 2003. O sucesso da obra catapultou a carreira de Markus Zusak em seu país natal. No exterior, contudo, o romance demorou um pouco mais para emplacar. O livro só foi publicado após o sucesso estrondoso, em 2005, do quinto romance de Markus Zusak. Quando "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca) se tornou um best-seller nos quatro cantos do mundo, a literatura do australiano passou a ser requisitada por editores e leitores de muitos países.

Markus Zusak

Assim, a partir de 2006, "Eu Sou o Mensageiro" foi publicado no exterior com grande expectativa do mercado editorial. Todos queriam ler mais obras do autor que escrevera "A Menina que Roubava Livros". Como o romance anterior de Zusak era o mais encorpado e o com uma temática mais adulta, sua escolha pelas editoras internacionais pareceu mais óbvia. No Brasil, para termos uma ideia, "Eu Sou o Mensageiro" chegou às livrarias do país em 2007. Por esse atraso em âmbito global, os prêmios internacionais do quarto livro de Zusak só vieram somente após 2006. O mais relevante deles foi o Printz Honor.

Narrado em primeira pessoa pelo jovem Ed Kennedy, um motorista de táxi de dezenove anos, "Eu Sou o Mensageiro" começa com uma cena de assalto a um banco em uma pequena cidade australiana. Um desajeitado ladrão vacila na hora de fugir da agência bancária com o dinheiro surrupiado e é facilmente rendido por Ed. O rapaz estava no local com os amigos e por acaso frustrou as ações do criminoso. No dia seguinte, Ed Kennedy torna-se um herói para a mídia local, sendo reconhecido pelas pessoas na cidade como o corajoso jovem que enfrentou e venceu um perigoso assaltante de banco.

O primeiro problema de Ed é que ele não é um herói. Ele se enquadra mais no perfil do jovem fracassado. Ele e todos que o conhecem sabem disso. O rapaz mora sozinho em uma espelunca, tendo como única companhia Porteiro, um velho cachorro que fede muito. Sempre sem dinheiro, ele não quis fazer faculdade e leva uma vida tediosa em sua pequena cidade natal. O pai faleceu há um ano e Ed é desprezado pela mãe, que insiste em vê-lo como um perdedor.

Apaixonado pela amiga Audrey, o protagonista não tem coragem de se declarar para ela. Enquanto isso, a moça vai para a cama com todos os rapazes do município, menos com o pobre motorista de táxi. Ed, por sua vez, não consegue uma parceira sexual, permanecendo casto contra a sua vontade. Para completar o quadro tragicômico, os dois melhores amigos de Ed, Marv e Ritchie, são zeros à esquerda. Marv é um mão-de-vaca da pior espécie. Ele acumula uma grande quantia no banco, mas segue usando um carro tão velho que mal sai do lugar. Ritchie, vindo de uma família rica, não sente motivação por nada. Ele não trabalha, não estuda e passa os dias sem realizar nenhuma atividade produtiva ou relevante.

Eu Sou o Mensageiro - Markus Zusak

Se a vida de Ed já era complicadíssima, ela piora quando o rapaz precisa ir à delegacia, no dia seguinte, para reconhecer o assaltante do banco, preso pela polícia logo após a confusão da véspera. O criminoso promete matar Ed assim que sair da cadeia. A raiva do bandido tem fundamento: o motorista de táxi foi o responsável por ter evitado o roubo e, por consequência, tê-lo metido na prisão. Para desespero de Ed, os jornais, alguns dias depois, noticiam a decisão do juiz para aquele caso. O criminoso pegou uma pena curtíssima, de apenas seis meses.

Curiosamente, o narrador-protagonista não consegue nem pensar nesta complicação. Em poucos dias, ele recebe uma carta de baralho com o endereço de três pessoas, assim como os horários em que deve comparecer nestas localidades. Não entendendo porque recebeu aquilo, Ed vai aos endereços indicados. Os três locais abrigam pessoas que precisam de ajuda: uma família que sofre com a violência do pai alcoólatra, uma adolescente que não consegue vencer as corridas atléticas que participa e uma senhora idosa que sente falta do marido falecido há tantos anos. Ed, com seu jeito atrapalhado e confuso, consegue ajudá-los, trazendo algum conforto para aquelas pessoas com dificuldades.

Sentindo-se melhor com os gestos altruístas realizados, Ed se surpreende quando uma nova carta chega à sua casa. Ela contém mais três missões. São novas tarefas para ele fazer o bem. Mais pessoas na cidade parecem precisar da colaboração do jovem. A cada carta que ele consegue ajudar os necessitados, uma nova carta de baralho chega para substituir à antiga.

Quem estaria por trás daquela maluquice? Quem estava forçando Ed a se tornar mais solidário? A cada pessoa ajudada, o motorista de táxi se enxerga diferente. As transformações de seus comportamentos e de suas atitudes passam a ser percebidas pelos amigos. Até mesmo Audrey nota as mudanças em Ed, vendo o rapaz com outros olhos. Será que o sonho de ter a amiga como namorada será, enfim, materializado?

Eu Sou o Mensageiro - Markus Zusak

Gostei muito de "Eu Sou o Mensageiro". Trata-se de um romance de suspense interessantíssimo e bastante original. A trama aparenta ser simples no início, mas ela adquire uma intrincada complexidade à medida que vai evoluindo. Novos e ricos personagens são inseridos a todo instante na vida do protagonista, que se torna mais e mais confusa.

O livro tem 320 páginas e sua leitura é muito rápida. Em duas tardes, no sábado e no domingo, consegui concluir a obra. O que ajuda na leitura é sua "diagramação generosa". As letras das páginas não são agrupadas nem minimizadas tentando economizar o número de impressões. Pelo contrário. O projeto gráfico é excelente, incentivando a experiência do leitor. A brincadeira do protagonista de receber as cartas do baralho é compartilhada com quem lê o romance. Além de o livro ser dividido em partes de acordo com as cartas recebidas, os capítulos são numerados como um baralho (A, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, J, Q e K). As ilustrações das cartas também enriquem a leitura.

A linguagem debochada, as frases curtas e o narrador irônico são um aspecto à parte na literatura de Markus Zusak. Ele escreve como se estivesse conversando com o leitor em um bar. Nesta hora, o narrador-autor não esconde nada de ninguém, expondo seus dramas, suas angústias e suas preocupações mais íntimas. O melhor exemplo disso é quando o protagonista relata que é péssimo na cama. Ele gostaria de ser bom no sexo, mas é uma negação. Os pensamentos de Ed Kennedy fluem naturamente, deixando a leitura muito agradável. Markus Zusak é um contador de história de primeira! Seu texto é saborosíssimo.

Markus Zusak

O mistério da trama vai aumentando capítulo a capítulo até desembocar em um desfecho surpreendente. O final é incrível, um dos melhores que vi neste ano. Além de conseguir espantar o leitor com a razão inusitada que precipitou aquela narrativa, o autor apresenta uma bela lição de moral. A história de solidariedade e de altruísmo do romance é muito sensível e passa longe do pieguísmo que caracteriza normalmente as obras chamadas de autoajuda. Este não é um livro de autoajuda, vale a pena salientar. Porém, essa ficção possui alguns elementos de motivação e, principalmente, que remetem a reflexão do leitor em relação ao tipo de vida que está levando. Muito legal!

A trama é leve, mas possui profundidade filosófica. Markus Zusak é especialista em encontrar beleza na banalidade da rotina vazia das suas personagens. Por isso, suas histórias adquirem um caráter poético. Além disso, os protagonistas do australiano estão sempre buscando um sentido para suas vidas. Ed e seus amigos sofrem com a futilidade de suas existências e precisam de ajuda externa para encontrar o que é importante para suas vidas. Ao mesmo tempo em que eles são desajustados socialmente, eles possuem um grande carisma. São personagens legais e bonzinhos, mas que se escondem atrás de rostos bravos, do mau-humor diário, das roupas maltrapidas, dos palavrões e da timidez. São pessoas que se acham fracassadas, mas que possuem um bom caráter.

"Eu Sou o Mensageiro" é um ótimo romance. Admito que já estava gostando muito da literatura de Markus Zusak após a leitura de "O Azarão", "Bom de Briga" e "A Garota que Eu Quero". Contundo, a partir de agora, passei a ser fã do escritor australiano. Digo isso antes de ler seu grande sucesso.

E por falar nisso, na sexta-feira que vem, dia 22, retorno ao Blog Bonas Histórias para apresentar a análise crítica de "A Menina que Roubava Livros", o best-seller de Zusak. O Desafio Literário de setembro vai se aproximando de sua conclusão. Não perca dos próximos posts.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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