• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Jeca Tatu


Darico Nobar: Olá, galera! O Talk Show Literário dessa noite já está no ar. Nesses nossos bate-papos mensais, conversamos com as principais personagens da cultura brasileira. Acompanhe você também mais uma entrevista exclusiva do nosso programa. [O quinteto musical toca a canção de abertura do talk show]. Nosso convidado de hoje é uma das mais formidáveis criações de Monteiro Lobato. Venha para cá, Jeca Tatu! [Aplauso do auditório para a entrada do entrevistado]. Boa noite!

Jeca Tatu: Noooooite! [O convidado se ajeita para se sentar no chão].

Darico Nobar: O que você está fazendo, Jeca? Não precisa se sentar de cócoras no chão! Temos um sofá aqui. Veja! Você pode usá-lo. É mais confortável.

Jeca Tatu: Não gosto de potrona, não. Elas é muito amolecida. Adepôs, nossa espinhela fica toda arriada. Prifiro abancar aqui mesmo, se o senhô não se impotrar.

Darico Nobar: O problema é que não o vejo daqui. Não posso conversar sem enxergá-lo. As câmeras também não conseguem captar sua imagem aí no chão.

Jeca Tatu: E si eu fica istindido? [Ele se levanta]. Tem algum pobrema assim?

Darico Nobar: Hum... Acho que não... Vou me levantar também para ficarmos na mesma altura. Assim, conversaremos os dois de pé. Que tal? [O convidado demonstra ter gostado da ideia. Em consideração à dupla, a plateia repete o gesto do entrevistado e do entrevistador. Todos no auditório se erguem, abandonando seus assentos]. Olhe, Jeca. O público também se levantou. Todos estão de pé no auditório agora. Este será um programa bem inusitado, hein?

Jeca Tatu: Meió deste jeito. Na potrona, nóis corre o risco de drumi. Em pograma de TV importante a gente tem que ficá cordado. Meu cumpadre que me alerto dessa maneira ontem memo, antes de eu viaja para cá.

Darico Nobar: Gostaria de começar esta conversa sabendo sua opinião sobre a visão dos brasileiros em relação a você e aos caipiras de maneira geral. Como você acha que o público vê o Jeca Tatu atualmente?

Jeca Tatu: Com os jôio.

Darico Nobar: Sim, claro... [As risadas da plateia explodem no auditório]. Mas você acha que eles veem bem ou mal?

Jeca Tatu: Vareia, seu moço. Donconvim tem de tudo. Tem fidumaégua com jôio que espia até negócin lá na lonjura. E tem caboclo que memo usando vidru na fuça não espia nadica de nada.

Darico Nobar: Não estou querendo saber se os brasileiros têm boa ou má visão. [A plateia parece se divertir, não contendo as risadas]. Estou perguntando se eles gostam ou não de você. O caipira é alguém querido pela população do nosso país?

Jeca Tatu: Tem di tudo. Tem sujeito que gosta de eu e tem quem não gosta. Quiqui posso fazê?! Não dá pra grada todo mundo, moço.

Darico Nobar: Você se incomoda com a fama de preguiçoso que você ganhou ao longo do tempo?

Jeca Tatu: Não dou o trabáio de me impricar com isso.

Darico Nobar: É justa essa imagem de o caipira ser pouco afeito ao trabalho?

Jeca Tatu: A roça é lugar de lida dura. Só quem tá lá é qui sabe. Caboclo carpina desde cedo até tarde embaixo de sor forte. Não é trabáio para gente fraca. E por falar em marvadeza, não tem aí uma caninha para nóis bebericar enquanto solta a prosa?

Darico Nobar: Até temos uma pinginha para servir, Jeca, mas me falaram que você tinha parado de beber. É verdade?

Jeca Tatu: Parei sim, senhô, mas também vortei rapidim. Qual a graça da vida se nóis não pode fica sapecado?

Darico Nobar: Produção, por favor, traga uma cachacinha da boa para a gente provar. [Aguarda-se a chegada da bebida. Quando a garrafa é colocada em cima da mesa, dois copos são enchidos. Um é oferecido ao convidado e o outro fica com o entrevistador. Ambos bebem]. Que tal, hein?

Jeca Tatu: Eita, trem bão! O pobrema é que já cabô! Meu copo tá seco outra vez.

Darico Nobar: Tem mais aqui na garrafa. Posso colocar mais em seu copo?

Jeca Tatu: Prifiro ficar com a garrafa toda. Premiti?

Darico Nobar: É toda sua. Não vou beber mais mesmo.

Jeca Tatu: Grato. Home da cidade é mesmo fraco di vaziá o caneco. [Dá uma longa golada diretamente do gargalo da garrafa]. Esta é mesmo das braba.

Darico Nobar: Jeca, você bebe muito?

Jeca Tatu: Só o necessário até caí [Dá mais uma golada].

Darico Nobar: Qual sua bebida favorita?

Jeca Tatu: Pincumel. Mais esta aqui não tá das pió não. [Dá novo gole].

Darico Nobar: E água, você toma bastante? Para quem trabalha embaixo do sol forte, é muito importante a hidratação.

Jeca Tatu: Deus milivri. Água é bebida de bicho. Pra home, ela faz muito mar. Você nunca escuto que água enferruja? É verdade! Pinga não. Ela anima o caboclo. Dá até mais força para nóis trabaiá.

Darico Nobar: Não seria o contrário? Afinal, quando se exagera na bebida alcoólica, não dá depois uma moleza danada no corpo e um sono forte?

Jeca Tatu: Isso faz parte do efeito brenéfito. Eoqui acontece adipôs de drumi?! O sujeito sempre levanta mais desposto pra trabaiá. A bebida é um santo remédio contra a priguiça!

Darico Nobar: Sua mulher concorda com isso?

Jeca Tatu: Ela sempre prifiriu bebe água. Muié é assim mesmo: inguinorante. Ainda bem, porque sobra mais cana pra nóis home entorná.

Darico Nobar: Sinto que você não tem grandes ambições na vida.

Jeca Tatu: Não tenho o quê?!

Darico Nobar: Vontade de ter uma vida melhor. Jeca, é importante o homem ter sonhos grandiosos, almejar ter um amanhã mais próspero e trabalhar visando grandes conquistas. Isso é o que move o mundo e alimenta o progresso humano.

Jeca Tatu: Já tenho uma vida maraviosa. Graças a Deus, não posso recramar de nada não.

Darico Nobar: Você não gostaria de ter uma casa melhor? Você não sonha em usar roupas mais bonitas, andar de sapato confortável e comprar, por exemplo, um automóvel? Já imaginou ter dinheiro para comprar o que sua família quisesse?

Jeca Tatu: Gosto da minha vida como ela é e não careço de bugigangas.

Darico Nobar: Porém, não seria bom ter mais dinheiro?

Jeca Tatu: Dinheiro no borso sempre é bão.

Darico Nobar: E porque, então, você não procura ganhá-lo trabalhando?

Jeca Tatu: Porque aí minha felicidade ia imbora. Vejo os home da cidade grande trabaiá um tantão e ninguém tem tempo para vive feliz. Trabaiá não é coisa de Deus, é coisa do capeta, seu moço. Não caio nesta armadia do Satanás não.

Darico Nobar: Trabalhar não é pecado.

Jeca Tatu: Pecado maió é esta garrafa ter secado. [Mostra o recipiente vazio]. Não querendo abusar da genosidade do cavalero, mas não tem outra aí mais cheinha?

Darico Nobar: Produção, por favor, outra cachaça para o convidado!

Jeca Tatu: O convidado gradece. (Pega a nova garrafa e dá um gole prolongado).

Darico Nobar: Vamos falar agora de política. Na última eleição, você votou no... [Neste momento, o entrevistado agacha-se, indicando que irá se sentar ou se deitar]. O que você está fazendo, Jeca?

Jeca Tatu: Vou tomba um tantinho aqui atrás da potrona. Deu uma baita sonolensa agora. [Ele se ajeita para dormir no chão mesmo]. Este trem de entervista cansa muito nóis que não tamo costumado a fazê televisão. [Solta um longo bocejo].

Darico Nobar: Nós estamos no meio do programa!?

Jeca Tatu: Não tem comerciar neste seu pograma? Chama os reclame porque vou tirá um cochilo. Daqui a pouquinho vorto a proseá com o cavalero. [Deita-se com os joelhos dobrados junto ao peito]. E não deixa ninguém pô as mão na minha garrafa, por favó. Sempre gosto de tomá um trago quando levanto.

Darico Nobar: Jeca, por favor, não durma... Ainda temos um bloco do programa.

Jeca Tatu: Huuuuum?

Darico Nobar: Jeca! Não! Tarde de mais... O que eu faço agora, produção?!

[O apresentador fica desnorteado. A plateia permanece em silêncio. Jeca solta um ronco alto atrás da poltrona. Aparentemente algo é dito ao entrevistador pelo ponto eletrônico em seu ouvido].

Darico Nobar: Pessoal, é melhor encerrarmos nosso programa de hoje. Obrigado por vocês terem acompanhado mais um Talk Show Literário. No mês que vem, voltamos com mais uma entrevista exclusiva e, espero eu, completa. Boa noite!

[A banda toca a música do programa de encerramento. E o Jeca solta outro ronco alto].

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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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