• Ricardo Bonacorci

Filmes: Mãe! - O surrealismo espetacular de Darren Aronofsky


"Mãe!" (Mother!: 2017), o novo filme do diretor Darren Aronofsky, é uma obra-prima do surrealismo. Protagonizado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem, o longa-metragem estreou nesse final de semana nos cinemas brasileiros. Trata-se, desde já, de uma das produções mais marcantes de 2017. Quem gosta de roteiros surpreendentes, polêmicos, subjetivos, esquisitos, inquietantes e viscerais terá elementos de sobra para se fartar. Como esse é o meu perfil, saí da sessão do último sábado bastante empolgado com o que vi. "Mãe!" é espetacular! Porém, quem prefere tramas conservadoras e mais realistas poderá odiar a nova criação de Aronofsky. Filmes tão disruptivos possuem a capacidade de polarizar a opinião do público.

Se não for a melhor produção de Darren Aronofsky até aqui (em minha opinião, "Mãe!" é o melhor trabalho desse diretor), ao menos essa pode ser vista como a criação mais ousada do norte-americano. O diretor de "Cisne Negro" (Black Swan: 2011), de "O Lutador" (The Wrestler: 2008) e de "Noé" (Noah: 2014) volta às suas origens ao trabalhar uma história onírica, passional, confusa e intensa. Vale lembrar que seu primeiro grande filme, "Réquiem para um Sonho" (Requiem for a Dream: 2000), tinha muitos dos elementos explorados em "Mãe", mas em menor escala.

O enredo de "Mãe!" é aparentemente simples. Um casal mora sozinho em um casarão antigo no meio do mato. A residência, que no passado fora destruída completamente por um grande incêndio, está sendo reformada aos poucos pela jovem esposa (interpretada por Jennifer Lawrence). Foi ela quem reconstruiu a casa do marido exatamente como era no passado. Agora, ela está cuidando do acabamento final do imóvel. Sem pressa, ela trabalha na revitalização do local. Entretanto, ao tocar com os dedos nas paredes e no piso da casa, algo estranho acontece com a esposa: ela consegue sentir as vibrações do lugar como se ele estivesse vivo e tivesse a capacidade de enviar informações à moradora. Esse é o primeiro sinal de que coisas estranhas podem acontecer ali.

O marido (Javier Bardem) é um famoso poeta. Bem mais velho do que a esposa, ele sofre um bloqueio criativo. Sem conseguir escrever nenhuma linha há muito tempo, ele sofre com essa situação incômoda. Nada parece trazer de volta a velha inspiração que o tornou tão talentoso no universo da literatura e tão querido pelo público. O fracasso profissional do poeta começa, pouco a pouco, a afetar seu relacionamento com a esposa. Apesar da aparente tranquilidade doméstica, a vida conjugal deles está em crise.

Certa noite, a campainha da casa toca. Na porta, um homem misterioso (Ed Harris) pergunta se aquele local é um hotel e se ele pode se hospedar ali. A esposa não tem chances de apresentar suas negativas. Ela parece pouco disposta a deixá-lo entrar. O marido, entretanto, um pouco entediado por viver sozinho naquela grande casa, resolve abrigar o visitante em seu lar. Afinal, segundo suas palavras, é tarde da noite e não há nenhum lugar nas proximidades onde ele possa se hospedar. O homem entra e logo se torna muito amigo do escritor. A dupla passa a noite bebendo e conversando de maneira animada. Essa atitude pouco responsável do marido deixa a proprietária um tanto ressabiada.

Na manhã seguinte, novamente a campainha da casa toca. Uma mulher (Michelle Pfeiffer) entra na residência sem nenhuma cerimônia, como se tivesse sido convidada. A esposa fica indignada, mas é contida pelo marido e pelo visitante da véspera. A mulher recém-chegada é na verdade esposa do homem misterioso. Apesar dos protestos da proprietária do lugar, o poeta recebe calorosamente a nova visitante. O casal de intrusos, assim, fica à vontade na casa. Eles se metem aonde não são chamados e começam a perambular pelo local sem respeitar a privacidade dos moradores.

A jovem proprietária fica perplexa com a situação e tenta expulsar de todas as maneiras o casal visitante. Ela só consegue convencer o marido a dar um pé na bunda dos folgados quando esses destroem uma relíquia do poeta. Porém, no dia em que os visitantes iam embora, os filhos deles adentram pela porta como se tivessem sido convidados. Ou seja, ao invés de se livrar dos dois visitantes, o casal de moradores fica agora com quatro forasteiros em seu lar.

Rapidamente, a família visitante passa a monopolizar a casa. As coisas só pioram quando um dos filhos do estranho casal é assassinado dentro da residência. O assassino é o próprio irmão, que foge desesperado. Sem conseguir expulsar os visitantes, a jovem proprietária ainda tem que abrigar os amigos e os demais parentes dos visitantes no grande velório que acontece ali. A partir daí, a protagonista perde totalmente o controle do que ocorre no interior do seu lar. Cada vez mais pessoas entram no local sem se importar com os anfitriões. Enquanto a esposa quer expulsar todos, seu marido é afável e cortês com os invasores. O poeta não consegue falar "não" e recebe a multidão em sua casa com os braços abertos.

Desse momento em diante, a trama vai se tornando cada vez mais surreal. Os acontecimentos são do tipo trágico-cômico. A casa que fora reconstruída com esmero pelo casal é alvo da barbárie coletiva dos visitantes. Impossível dizer qualquer coisa mais sobre o enredo sem estragar o espetacular desfecho do filme. O que pode ser dito é que as cenas vão se tornando cada vez mais estranhas e perigosas, até culminar em um desenlace apoteótico.

O primeiro aspecto que chama a atenção em "Mãe!" é seu ambiente claustrofóbico. Quase todo o filme é ambientado no interior da residência e as tomadas externas são raríssimas. Com um excelente jogo de luzes (entenda-se: de contraste entre claro e escuro), a sensação de desconforto da plateia é permanente. Para tornar a situação ainda mais incômoda, a câmera é agitada e prioriza o zoom nos atores. O tempo inteiro as tomadas são fechadas, realçando aspectos passionais e íntimos de cada uma das personagens.

Outro componente fortemente perturbador é ausência de nomes próprios. Os protagonistas não possuem nomes. Tanto o casal proprietário da casa quanto o casal de visitantes permanecem estranhos entre si e para o público. Nem nos momentos das apresentações, eles dizem seus nomes. Isso pode até passar batido pelo espectador mais desatento, porém é um das características que ajudam a criar o clima de mistério que permeia a primeira metade do longa-metragem.

Por falar nisso, o roteiro de "Mãe" pode ser dividido em duas partes bem distintas. Na primeira parte da produção, prevalece o mistério ("Quem são esses visitantes estranhos e folgados?; e "O que a moradora irá fazer para se livrar deles?"). Já na metade final, prevalece a sucessão de episódios surreais. Os acontecimentos parecem sair do controle de todos: dos protagonistas (casal de moradores do casarão), do roteirista (que atropela a lógica e o bom-senso habitual de um filme convencional) e do público da sessão de cinema (que vê diante dos olhos atos inimagináveis). Com isso, a plateia fica hipnotizada diante da tensão das cenas. São espetaculares as reações que o filme causa no público. Às vezes, a impressão que temos é que não dá para piscar os olhos nem respirar na sala sem correr o risco de perder algo na tela. Os trinta minutos finais do longa-metragem são de tirar o fôlego. É nessa parte que vemos a genialidade (ou seria loucura?!) do cineasta Darren Aronofsky.

O final é incrível. Geralmente, nesse tipo de produção, o desfecho é a parte mais frustrante. Afinal, não é possível segurar tanta tensão e suspense sem decepcionar o público de alguma maneira. Porém, não é o que ocorre em "Mãe!". Sua conclusão é ainda mais desconcertante do que todo o filme, amarrando a trama de maneira criativa. Apesar de interpretativo, o final permite uma compreensão sensata de todos os elementos do longa-metragem. O quadro final é formidavelmente triste, primorosamente contundente e explicitamente surreal.

Além do ótimo roteiro, "Mãe!" possui um elenco de peso. Afinal, temos Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris e Michelle Pfeiffer contracenando na maior parte do tempo. O quarteto está fabuloso em seus papéis. Não dá para precisar quem está melhor. Talvez melhor do que os atores só mesmo Darren Aronofsky. O roteiro e a direção do jovem cineasta norte-americano estão impecáveis. Seu trabalho é nota dez!

Ao ver "Mãe", é impossível não se recordar de "O Anjo Exterminador" (El Ángel Exterminador: 1962), clássico de Luis Buñuel. A grande diferença é que no filme mexicano do surrealista espanhol, os convidados não conseguiam sair da casa, enquanto na nova produção de Aronofsky, os visitantes não param de entrar. Além disso, o filme norte-americano possui muito mais ação e tensão do que o famoso longa-metragem de Buñuel.

Não sei se você irá gostar tanto desse filme quanto eu gostei. Inclusive, o coloquei na lista dos melhores de 2017 - clique em Recomendações para ver a seleção completa. Porém, algo eu posso afirmar sem a menor dúvida: você não ficará indiferente a "Mãe". Você pode gostar ou não dessa produção, mas ela irá com certeza mexer com você. A experiência estética do filme é tão intensa que é impossível você sair da sala de cinema indiferente. Muito provavelmente, esse longa-metragem fará você refletir por algumas horas sobre o que viu e presenciou na telefona. Isso é ou não é um ótimo indicativo de um excelente filme, hein?

Veja o trailer de "Mãe!":

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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