• Ricardo Bonacorci

Livros: Pensar é Transgredir - As repetitivas crônicas de Lya Luft


Nesse final de semana, li "Pensar é Transgredir" (Record), o quarto livro de Lya Luft do Desafio Literário de outubro. Admito que, até então, estava muito empolgado com os trabalhos da escritora gaúcha. "As Parceiras" é um romance sombrio e, ao mesmo tempo, encantador. "O Rio do Meio" (Mandarim) é um bonito ensaio sobre a literatura de Luft. E "Perdas & Ganhos" (Record) é um livro espetacular, merecendo a condição de um dos principais best-sellers nacionais dos últimos anos. Fiquei positivamente impressionado com a qualidade e com a profundidade desses textos de Lya Luft. Os três livros falam com incrível beleza dos desafios e das angústias femininas ao longo das gerações.

Porém, em "Pensar é Transgredir", Lya Luft derrapa feio. Aqui, o caldo engrossa de vez! Além de apresentar muitas crônicas repetitivas, a escritora aborda também uma variedade de novos temas em que, infelizmente, ela não tem nada de especial para oferecer ao leitor. O resultado, portanto, é terrível! Se esse não foi o pior livro lido nesse ano, na certa está entre os piores. Se você leu "O Rio do Meio" e "Perdas & Ganhos", abdique dessa leitura. Ela não irá lhe acrescentar nada.

Qual o pior pesadelo de um leitor de crônicas: se deparar com uma sequência interminável de histórias e exemplos já lidos nos livros anteriores daquele(a) autor(a) ou ver o(a) escritor(a) discorrer sobre temas pouco relevantes? Em "Pensar é Transgredir", infelizmente, não temos que escolher uma opção. Ele nos apresenta as duas alternativas simultaneamente. Quem acompanha os livros de Lya Luft notará o quão raso e fútil é esse trabalho dela (algo que destoa de seu belo repertório).

"Pensar é Transgredir" foi publicado em 2004, um ano após o sucesso estrondoso de "Perdas & Ganhos". Ele contém 192 páginas e 50 crônicas. Segundo sua orelha, "algumas dessas crônicas foram escritas para jornais, outras inéditas, faziam parte do acervo pessoal da autora e várias foram feitas especialmente para integrar este livro". Mentira! Não é essa a impressão que temos ao ler seu conteúdo. Grande parte dos textos de "Pensar é Transgredir" já tinha sido publicada em outras obras não ficcionais de Lya Luft. Se você os leu, irá ficar muito frustrado (como eu fiquei). Se você nunca leu nada da autora, poderá até achá-los minimamente interessantes.

A sensação é que esse livro foi um oportunismo da editora e/ou da escritora. Com a empolgação pelo ávido interesse dos leitores por Lya Luft depois de "Perdas & Ganhos", resolveu-se lançar mais uma obra da autora. Na certa, não faltaria gente interessada em comprar a nova publicação. Foi o que efetivamente aconteceu. "Pensar é Transgredir" apresentou ótimos resultados nas livrarias, sendo até hoje um dos livros mais vendidos da gaúcha.

O problema é que Lya Luft já não tinha muito mais a oferecer ao seu público na área de crônicas e ensaios. Por isso, ela precisou "requentar" vários textos antigos e os lançou como se fossem novos. Pior do que produzir algo ruim é a impressão passada de tentativa de enganar os leitores, principalmente aqueles que acompanham com mais assiduidade as publicações da escritora.

Assim, o que me incomodou mais não foi tanto a repetição temática da autora. Sinceramente, já me acostumei com o fato de Lya Luft ficar eternamente falando as mesmas coisas . Não é isso o que me deixou revoltado. O problema maior está no fato das crônicas "Osteoporose na Alma", "A Visita do Anjo", "O Rio das Perdas", "Eu Sou Meus Personagens", "Nem Tanto Assim" e "Histórias de Bruxa Boa", por exemplo, terem sido extraídas de "Perdas & Ganhos" e de "O Rio do Meio". A autora não se preocupou em esconder a cópia. Simplesmente copiou e colou os textos anteriores nesse novo livro. É ou não é revoltante?!

Além disso, a tentativa salutar de Luft em variar os temas trabalhados se mostrou frustrante. Quem hoje em dia se incomoda com a condenação da camisinha e do homossexualismo pela Igreja Católica? O quão válido é falar do preconceito aos descendentes alemães (loiros de olhos azuis) em um país onde a discriminação social e racial aos negros é absurda? E qual a tragédia se um amigo muito idoso não quer se inserir no mundo computacional?!

Há algumas crônicas boas. São poucas, é verdade, mas elas estão lá presentes. As melhores são "O Lado Negro", "Histórias dos Sentimentos", "Canções dos Homens" e "Canções das Mulheres". Curiosamente, esses textos são de temas recorrentes das obras da escritora (Violência em nossa sociedade, as loucuras do amor e as angústias distintas de homens e mulheres). Ou seja, o problema não está em falar sempre o mesmo assunto. O problema está em repetir exemplos e crônicas já usados. É melhor tratar (de forma original) de assuntos em que o (a) escritor(a) realmente entenda e tenha o que falar do que ficar inventando novos assuntos em que ele/ela não tenha conteúdo ou capacidade discursiva.

Ao concluir as páginas finais de "Pensar é Transgredir", juro que me senti enganado pela autora e por sua editora. Também começo a ficar desconfiado de que ao invés de uma ótima cronista e ensaísta, Lya Luft seja na verdade uma ótima romancista (afinal, nenhuma obra desse gênero da autora me frustrou até agora) que teve muito sorte ao publicar "Perdas & Ganhos". Levada a escrever mais e mais livros de crônicas e ensaios, nos deparamos com uma escritora que já havia entregado tudo de interessante que podia ofertar nessa área. Depois de "Perdas & Ganhos", todos os livros de crônicas da autora ou são repetições do que ela já falara em seu best-seller ou são extensões de suas fracas colunas na revista Veja (que são de uma chatice homérica!).

Para confirmar essa tese, vou ler no próximo final de semana "Em Outras Palavras" (Record), outro livro de crônicas da gaúcha. Essa obra foi lançada em 2006. Dessa forma, Luft teve quatro anos para preparar algo novo e melhor. Quem quiser conhecer a crítica dessa outra publicação, eu retorno ao Blog Bonas Histórias no domingo, dia 22. Não perca a análise de "Em Outras Palavras". Desejem-se sorte, por favor! Acho que vou precisar...

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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