• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Souza


Darico Nobar: O Talk Show Literário desta noite já está no ar! Hoje, vamos receber Souza, ex-professor universitário, ex-assistente administrativo, ex-marido de Adelaide, ex-integrante da classe média paulistana, ex-personagem literária de Ignácio de Loyola Brandão... Recebam com muitas palmas nosso convidado! [Plateia saúda o visitante].

Souza: Boa noite, Darico.

Darico Nobar: Boa noite, Souza. Para começarmos este bate-papo, gostaria de saber o que você tem feito de bom ultimamente. Afinal, em sua descrição, há muitos termos começados com o prefixo "ex". Como tem sido sua vida após a publicação do livro Não Verás País Nenhum?

Souza: Não tenho feito nada de mais.

Darico Nobar: Impossível! Algo você deve estar fazendo.

Souza: Que nada! Estou desempregado desde os primeiros anos da década de 1980. Por não ser nordestino, não recebo o Bolsa Família. Como não pertenço a nenhuma minoria que explora o preconceito que a sociedade nutre por ela, também não consigo passar em nenhum concurso público. E para piorar, como não tenho idade compatível às exigências do mercado de trabalho, acabo ficando à margem do sistema. Por isso, passo o dia sem ter absolutamente nada para fazer. Fico em frente a uma loja de eletroeletrônicos assistindo televisão. Adoro os telejornais sensacionalistas que escancaram as mazelas de nosso país. Também não perco os programas de auditório.

Darico Nobar: Que legal! Se você assiste aos programas de auditório, então você é um telespectador do Talk Show Literário, certo?

Souza: Não, não! Só vejo atrações desse tipo em que haja a divulgação de testes de DNA. Também gosto de ver as fofocas sobre os artistas e as humilhações que os candidatos a cantores e a cozinheiros precisam passar para conquistar um prêmio qualquer. O seu programa não tem nada disso. Ele fica só em uma conversinha chata com personagens que a maioria das pessoas nunca viu nem ouviu falar.

Darico Nobar: Vamos voltar para a análise da sua vida, Souza. Afinal, você é o nosso entrevistado e é de você que precisamos falar. Você culpa os acontecimentos da década de 1980 por essas dificuldades que você tem passado até hoje?

Souza: Acho engraçadas essas menções que as pessoas fazem dos anos de 1980. Para vocês, aquela fase foi a "década perdida", o período no qual o país não cresceu economicamente e nada ocorreu de relevante. Segundo a crença geral, aqueles anos foram desperdiçados e marcados por muita miséria, gritante desigualdade social, conflitos de toda natureza, depredação ambiental, poluição, caos urbano, violência, instabilidade política, marasmo econômico...

Darico Nobar: Sim. E você não concorda com essa visão?

Souza: Não! Essas características não podem ser aplicadas apenas à década de 1980. O nosso país é ou foi dessa maneira em qualquer período de tempo de sua história. Com raras exceções, houve fases de prosperidade, de calmaria política, de controle da violência, de diminuição da miséria, de regressão da desigualdade social, de zelo com o meio-ambiente e de bom gerenciamento dos centros urbanos. Quanto tempo durou essas fases positivas? No máximo alguns pouquíssimos anos. Quantas vezes elas ocorreram em nosso país? Quatro ou cinco vezes em mais de quinhentos anos. Depois, a normalidade voltou a imperar. Portanto, o que as pessoas descrevem como sendo as características típicas do Brasil na década de 1980 é na verdade as características típicas de nosso país em qualquer período da história.

Darico Nobar: Você quer dizer que hoje vivemos como na década de 1980?

Souza: E não vivemos?! Estamos atravessando uma crise política e econômica absurda. Vivemos em recessão há vários anos, com o índice de desemprego atingindo níveis recordes. Os cofres dos governos estão quebrados. A corrupção é epidêmica. A violência policial e as injustiças dão a tônica no dia a dia da população humilde. Nossas florestas são devastadas diariamente sem que isso incomode ninguém. Sofremos com a falta de água em muitas cidades e com as mudanças radicais do clima no país inteiro.

Darico Nobar: Não tinha parado para pensar sobre isso nessa perspectiva...

Souza: Se este programa for reprisado daqui a dois, cinco, dez, cinquenta ou cem anos, coisa que duvido, esses meus relatos serão ainda atuais. Se ele fosse gravado no começo do século XX ou no início do século XIX, também seria contemporâneo.

Darico Nobar: Ou seja, Não Verás País Nenhum é um romance que nunca sairá de moda.

Souza: Exatamente! Loyola Brandão não produziu uma obra em que narra São Paulo e o Brasil em um futuro hipotético. Ele criou uma narrativa sobre os problemas históricos da maior cidade do país e da nação brasileira como um todo.

Darico Nobar: Agora que você levantou o braço ao gesticular, eu pude ver: há um buraco no meio da palma da sua mão! Esse problema voltou a afetá-lo?

Souza: Sim. Eu convivo com isso há muitos anos. Não gosto de mostrar esse meu problema porque ele assusta as pessoas. Muita gente acha que é contagioso.

Darico Nobar: E no que esse furo na mão mais o atrapalha no dia a dia?

Souza: Para segurar o dinheiro... Com esse vazio abaixo dos meus dedos, as notas e as moedas voam da minha mão sem que eu perceba. Não consigo mantê-las presas à minha carteira ou ao meu bolso. Quando vejo, já estou sem grana novamente.

Darico Nobar: Que curioso: tenho essa mesma dificuldade com o dinheiro, mesmo não tendo um buraco na mão... [A plateia ri]. Desculpe-me pela brincadeira, Souza. Foi só para descontrair um pouco. [Aparentemente o convidado não gostou da ironia do entrevistador]. E você não procurou um médico? Não está fazendo um tratamento para resolver isso?

Souza: Sim. Estou tratando no SUS. Consegui uma consulta preliminar para daqui seis anos e dez meses.

Darico Nobar: E por que você esperou tanto tempo para procurar um especialista?

Souza: A consulta está marcada desde o início da década de 1990. Agora falta pouco tempo... E esse médico que tenho agendado não é um especialista. É um clínico geral. Ele é quem irá me encaminhar para um especialista, se assim for necessário.

Darico Nobar: Você está aposentado, Souza?

Souza: Não. Só faltavam dois anos para eu me aposentar. Isso pelas regras da antiga Previdência, né? Pelas novas, faltam ainda mais vinte ou trinta anos. Se conseguir, acredito que vá receber um salário mínimo.

Darico Nobar: Isso é muito chato!

Souza: Chato é saber que eu não escolhi ser militar. Poderia ter vivido sem fazer nada e ainda ter me aposentado com salário integral, estendendo esse benefício para minhas descendentes até o final da vida delas.

Darico Nobar: É muito injusto, não?

Souza: Não é questão de ser justo ou injusto. É tudo questão de costume. Isso é o Brasil! Esses são elementos culturais do nosso país. Se as coisas fossem certas, lógicas e sem privilégios desde o início dos tempos, não teríamos a nação que temos hoje. Assim, não seríamos brasileiros e não estaríamos acostumados com nossos valores como corrupção, tirar vantagem em tudo, dar sempre um jeitinho, conviver com a miséria, sofrer com a violência policial e ser lesado pelo governo e pelos bancos.

Darico Nobar: Qual cidade você prefere para viver: a São Paulo descrita em Não Verás País Nenhum ou a São Paulo atual?

Souza: Você vê diferença entre elas?! Como já disse, não vejo nenhuma diferença. Fique sem dinheiro na carteira e você perceberá que as duas são idênticas.

Darico Nobar: Onde você mora atualmente, Souza?

Souza: Na Avenida Europa com a Rua Groelândia. Perto da igreja Nossa Senhora do Brasil.

Darico Nobar: Lugar chique, hein? Casa ou apartamento?

Souza: Na calçada mesmo. Embaixo da marquise de uma banca de jornal.

Darico Nobar: E o dono da banca não se incomoda com isso?

Souza: Não. A banca está fechada há mais de cinco anos. Quem lê jornal e revista hoje em dia?! Ninguém. Acho que vou ficar ali por muito tempo ainda.

Darico Nobar: Pessoal, esta foi a entrevista com Souza, o protagonista de Não Verás País Nenhum. [A plateia aplaude mais uma vez o entrevistado]. Obrigado pela presença de vocês, tanto aqui no auditório quanto aí em casa. Até o próximo Talk Show Literário. Boa noite!

[A banda toca a música de encerramento do programa e os créditos sobem na tela].

Souza: Darico, quanto é que vão me pagar de cachê por ter participado do programa de hoje?

Darico Nobar: Oh, Souza. Não pagamos cachê. Os participantes vêm por iniciativa própria. A produção não tinha explicado isso para você?

Souza: Tinha sim. Eles pagaram, inclusive, a passagem aérea da minha vinda ao Rio de Janeiro e vão pagar a da volta a São Paulo. É que eu preciso de mais um tostão para me alimentar. Achei que fosse fazer uma boa refeição no voo e eles não serviram nada a bordo. Estou sem comer faz três dias. Se soubesse que as companhias aéreas não alimentavam mais seus passageiros, não teria perdido meu tempo vindo até aqui. Você não tem um trocado para me dar? Pode ser um vale-alimentação ou mesmo um vale-transporte. Uma moedinha já será de muita providência...

Darico Nobar: Produção!

Souza: Obrigado, Darico. Sabia que o senhor era um homem bom e compreensivo...

Darico Nobar: Produção! Por favor, tire este mendigo do meu auditório.

------------------------------

O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Nesta primeira temporada, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.

E não se esqueça de deixar seu comentário aqui, falando o que achou desta iniciativa e da entrevista realizada. Para receber as novidades do blog, curta a página do Bonas Histórias no Facebook.

#TalkShowLiterário #IgnáciodeLoyolaBrandão

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento