• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora - Item 11 - Não usar carro


Até hoje não sei se eu não dirijo porque não tenho carro ou se não tenho carro porque não dirijo. O fato é que nunca achei prazeroso nem o ato de guiar nem a possibilidade de ter um veículo só para mim. No meu ponto de vista, sempre foi mais prático e cômodo me deslocar pela cidade de transporte público ou mesmo a pé. Adoro caminhar. Quanto mais longas forem as caminhadas melhor. Por isso, não vejo lógica em andar de automóvel pelas ruas aos finais de semana ou nos dias úteis.

Em trinta e seis anos de existência, nunca tive um carro sequer. O hábito de não dirigir sempre foi considerado pelos outros como mais uma das minhas grandes excentricidades. Ao lado de não usar celular, não ter veículo próprio sempre causou as maiores polêmicas e os principais aborrecimentos nas pessoas que me conhecem e que convivem comigo. Jamais fui compreendido...

Curiosamente, alguns amigos até acham, em um primeiro momento, essa uma iniciativa legal da minha parte. Dizem que é uma medida ecologicamente correta e até mesmo financeiramente inteligente. Juro que nunca me preocupei com esses aspectos. Contudo, basta algum tempo de convívio ou esbarrarmos em determinadas situações para o discurso inicial ser esquecido. "Como assim não vamos de carro?!", são as palavras que me são gritadas no ouvido. Aí, volto a ser visto como o maluco ou o exótico de sempre, que se recusa a ter uma geringonça de rodas na garagem de casa.

Dessa maneira, o que posso afirmar com segurança é que à medida que o tempo passa, não dirigir e, por consequência, não usar carro têm se tornado cada vez mais difícil e mal visto pelos meus familiares, amigos e namorada. Sim, um homem de quase quarenta anos não pode viver desmotorizado. Onde já se viu agir assim, hein?! Não sei se com as mulheres da minha idade e classe social acontece algo parecido. Só tenho como confirmar a questão pela experiência pessoal de um integrante do meu sexo.

Não usar carro é encarado, ainda hoje, como uma postura esperada para jovens descolados e com um estilo de vida mais hippie. Pelo menos é assim aqui no Brasil (lá fora não sei como as coisas funcionam). Alguém sério, de boa renda e com alguns fios brancos na cabeça e na barba deve ter um veículo próprio e ponto final. É assim, infelizmente, que nossa sociedade enxerga essa questão. Não há exceções nem ressalvas.

Duvida disso? Então vou provar para você os incontáveis dissabores que tenho rotineiramente por não usar carro.

Item 11 da Lista de 12 Indícios que Envelheci Antes da Hora: Não usar carro.

Chame uma moça para sair e fale para ela que você não tem carro. Saia com os amigos à noite e na hora de ir embora diga que você retornará para casa de ônibus ou a pé. Comunique para seus pais que sua esposa está grávida e que mesmo assim você não pensa em comprar um veículo. Diga para seu chefe que mesmo com sua promoção ou com o bom cargo que você possui na companhia, você não irá usar automóvel no dia a dia, nem mesmo para os deslocamentos até os clientes. Ou convide sua família para almoçar no domingo em um restaurante e os avise que você está pensando em não usar um veículo particular para o ir e vir.

Pronto. Está declarara a terceira guerra mundial. Na certa, ou eles vão se ofender por você não usar carro ou vão querer que você use o deles ou de alguém. Ficar desmotorizado é impensável. Um erro. Uma afronta. Uma humilhação. Um disparate!

Diferentemente do discurso cada vez mais difundido em nossa sociedade da necessidade de usarmos menos veículos individuais, na prática o que vejo no dia a dia é a perpetuação de hábitos antigos. No Brasil, é cada vez mais complicado não dirigir. Isso ocorre tanto nos grandes centros urbanos quanto nas pequenas cidades do interior do país. Ninguém escapa da exigência social de ter e usar um automóvel particular.

O único alento que tive nos últimos anos foi o da criação do Uber. Apesar de eu nunca usá-lo (lembre-se: não tenho celular para chamá-lo), muita gente acredita que essa seja a minha opção preferencial. Ledo engano. Ao menos, todo mundo pensa que o deslocamento para alguém que não dirige tenha ficado infinitamente mais fácil com os carros pretos à nossa disposição. Obrigado, Garrett Camp e Travis Kalanick, pela ajuda involuntária.

Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Compartilhe sua opinião conosco. Para acessar outras narrativas do blog, clique em Contos & Crônicas. E não se esqueça de curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.


A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento