• Ricardo Bonacorci

Músicas: Alegria, Alegria - Quando as guitarras elétricas invadiram a MPB


Há cinquenta anos, os brasileiros não aceitavam a introdução de guitarras elétricas em suas canções populares. Na concepção da época, uma coisa era o Rock in Roll norte-americano e outra coisa completamente diferente era a MPB (Música Popular Brasileira). Se os músicos nacionais incorporassem as guitarras elétricas em suas composições, era como se o Brasil de alguma forma se sujeitasse definitivamente ao imperialismo estadunidense. Por isso, o preconceito contra o instrumento musical estrangeiro era consensual no país naquela época.

Na metade da década de 1960, vários grupos musicais tinham sido vítimas da ira das plateias pelo Brasil. Ao menor som de uma guitarra, o público passava a vaiar incondicionalmente os artistas. Na maioria das vezes, o fim do show era decretado pela impossibilidade de se ouvir os músicos. Um das bandas que mais sofreu com isso foi o Beat Boys. Seus integrantes não entendiam porque eram vaiados sem parar toda vez que subiam ao palco por aqui.

Ciente deste preconceito da plateia, Caetano Veloso teve uma atitude muitíssimo corajosa no dia 21 de outubro de 1967. Durante o 3o. Festival de Música Popular Brasileira promovido pela Rede Record de Televisão, o jovem cantor baiano (com 25 anos na época) apresentou-se no Teatro Record acompanhado por uma banda com algumas guitarras elétricas. Já prevendo as ensurdecedoras vaias, Caetano não esperou que os organizadores fizessem o seu anúncio. Ele começou a cantar "Alegria, Alegria" assim que subiu ao palco, pegando parte dos presentes de surpresa.

A reação do público foi divertidíssima! Nos vídeos da época é possível ouvir as vaias que percorrem o teatro no início da canção. A reação negativa não intimidou o cantor. Visivelmente tenso e constrangido, Caetano segue com sua música e aos poucos os presentes vão sendo convencidos do valor daquela composição. Com o término das vaias, a plateia passa, em um segundo momento, a ficar em silêncio. Depois, o público passa a arriscar alguns versos, lendo a programação distribuída previamente pela organização do festival. Ao final da apresentação, o auditório já acompanha Caetano nos versos: "Eu vou/Por que não?/ Por que não?". A salva de palmas dá a medida exata daquela virada de jogo. Veja a incrível apresentação de Caetano Veloso naquele dia:

"Alegria, Alegria" ficou em quarto lugar no festival de 1967. O vencedor foi "Ponteio", composição de Edu Lobo e Capinam. Completaram os primeiros lugares, "Domingo no Parque" de Gilberto Gil (segunda posição) e "Roda Viva" de Chico Buarque (terceiro posto).

Apesar de não ter ficado com o prêmio máximo daquele concurso musical, "Alegria, Alegria" foi decisiva para o fim do preconceito em relação às guitarras elétricas. Nunca mais o público vaiou uma canção ou um músico só porque havia um instrumento norte-americano no palco. Curiosamente, o Festival de 1967 também ficou conhecido por uma célebre cena protagonizada por Sérgio Ricardo. Inconformado com as vaias do público, ele quebrou um violão durante sua apresentação, atirando depois o instrumento em direção à plateia. Ainda bem que Caetano Veloso teve mais sangue frio e soube contornar uma situação muito mais complicada do que aquela vivenciada por Sérgio Ricardo. Se não fosse a coragem, a habilidade e o talento de Caetano Veloso, a MPB não teria incorporado tantos acordes interessantes no final da década de 1960.

Veja o chilique histórico de Sérgio Ricardo:

O sucesso de "Alegria, Alegria" só aumentou com a passagem dos anos. A canção virou símbolo da juventude dos anos de 1960 e 1970. Não por acaso, a Rede Globo colocou a música de Caetano Veloso como tema de abertura da novela "Sem Lenço, Sem Documento", de 1977, e da minissérie "Anos Rebeldes", de 1992.

A popularidade e a simbologia da canção podem ser explicadas pela sua letra que retrata o cotidiano da juventude brasileira nas grandes cidades do país no final da década de 1960. Caetano mistura nos versos o hábito de tomar Coca-Cola com a repulsão às guerrilhas, as aeronaves que ganham o espaço com as fotos de Claudia Cardinale e de Brigitte Bardot estampadas nas bancas de jornal e a vontade da namorada em casar com a necessidade da população de possuir telefone. Além disso, há referências à cultura de massa, à revolução sexual, à fragmentação da vida urbana, ao consumismo que se instaurava na sociedade, à repressão da ditadura, a ideologia comunista e à crítica à pobreza e à fome no país.

Veja a letra completa da música:

Caminhando contra o vento Sem lenço, sem documento No sol de quase dezembro Eu vou... O sol se reparte em crimes, Espaçonaves, guerrilhas Em cardinales bonitas Eu vou... Em caras de presidentes Em grandes beijos de amor Em dentes, pernas, bandeiras Bomba e Brigitte Bardot O sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça Quem lê tanta notícia Eu vou... Por entre fotos e nomes Os olhos cheios de cores O peito cheio de amores vãos Eu vou... Por que não? Por que não? Ela pensa em casamento E eu nunca mais fui à escola Sem lenço, sem documento, Eu vou... Eu tomo uma coca-cola Ela pensa em casamento E uma canção me consola Eu vou... Por entre fotos e nomes Sem livros e sem fuzil Sem fome sem telefone No coração do Brasil Ela nem sabe até pensei Em cantar na televisão O sol é tão bonito Eu vou...

Sem lenço, sem documento Nada no bolso ou nas mãos Eu quero seguir vivendo, amor Eu vou...

Por que não? Por que não?

"Alegria, Alegria" é uma das canções mais simbólicas dos anos de 1960 e 1970. Agora ela se torna uma cinquentona. Parabéns, Caetano, pelo cinquentenário deste clássico da nossa música!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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