• Ricardo Bonacorci

Crônicas: Doze Indícios que Envelheci Antes da Hora - Item 12 - Não trabalhar 24 horas por dia


Nunca a cultura do trabalho excessivo esteve tão em voga como agora. Você já reaparou nisso?! A moda atual é trabalhar 24 horas por dia, de preferência sete dias por semana e doze meses ao ano. E sem férias ou folga. Essa tendência vale tanto para quem é funcionário quanto para quem é empreendedor. Vale para quem está no alto da pirâmide social e para quem está na parte de baixo dela.

Minha impressão é que todos os homens e mulheres entre 25 e 39 anos do planeta que gostam dos seus empregos e que são responsáveis profissionalmente se transformaram em workaholics inveterados. É claro que estou excluindo dessa lista os indivíduos que não gostam de trabalhar ou odeiam suas profissões. Essa outra turminha faz qualquer coisa para manter a inércia e estender as horas de folga infinitamente.

Assim, fico diante de uma grande polarização: o grupo que faz tudo para não trabalhar e o grupo que faz tudo para não parar de trabalhar... Como nunca me identifiquei com o pessoal preguiçoso e infeliz com suas profissões (em minha família, infelizmente, tem uma boa dose de gente assim), decidi não comentar nesta crônica as atitudes e as preocupações dessa galerinha pouco assídua. Volto minha atenção unicamente para a turma que realmente me preocupa: aqueles que trabalham em excesso.

Item 12 da Lista de 12 Indícios que Envelheci Antes da Hora: Não trabalhar 24 horas por dia.

Quando digo que li dois romances na última semana ou estive no cinema na quinta-feira para ver o lançamento que está sendo comentado com estardalhaço nas revistas e jornais, meus amigos e familiares me olham surpreendidos. Quando falo que fui ao parque correr de manhãzinha ou que reservei uma noite do final de semana para curtir uma peça de teatro, a indignação à minha volta cresce. Aí, quando menciono estar escrevendo um livro, produzindo uma série de crônicas ou atualizando rigorosamente meu blog, os questionamentos explodem: "Como você arranja tempo para essas coisas todas?! Você não trabalha, não?".

Acho muito engraçada a concepção atual de que alguém que trabalha não pode e não deve ter tempo para mais nada além da sua profissão. Vida pessoal, lazer, cultura, diversão e hobbies não fazem parte da rotina do profissional bem-sucedido da atualidade. O empregado produtivo ou o empresário competente são aqueles que passam 15, 16 horas no escritório e abrem mão de suas vidas fora da empresa.

Curiosamente, esse povo tem orgulho disso. Eles falam com um sorriso no rosto que não têm tempo para nada e que estão sempre ocupados com as tarefas corporativas. Juntam os dias da semana aos finais de semana e não conseguem diferenciar o dia da noite. Sair do escritório às 18 horas é uma falta grave em suas consciências.

Será que esse estilo de vida é correto? Sinceramente não sei. Eu prefiro trabalhar menos e melhor. Há muitos anos não fico 24 horas por dia, sete dias por semana e doze meses ao ano enfurnado em um escritório. Para ser franco, nos dias de hoje fico contente quando atuo por apenas seis horas em quatro dias da semana. Para conseguir isso, sou obrigado a me policiar e avisar previamente meus empregadores. Afinal, quando gostamos do que fazemos acabamos propensos a exagerar na dose. E quando exageramos, ficamos (sem perceber) menos produtivos. E para compensar, acabamos trabalhando mais e mais. A bola de neve, desse modo, só cresce.

Daí a importância da escolha: realizar um serviço de excelência ou realizar atividades extensas. Saiba que é impossível juntar as duas coisas. Ou você trabalha muito ou você trabalha bem. Qualidade e quantidade são elementos dicotômicos em qualquer ramo de atividade. Não existe no atletismo, por exemplo, um corredor que seja velocista e maratonista ao mesmo tempo. Ou ele corre muito ou ele corre rápido. As duas coisas juntas são inviáveis. O mesmo acontece com nosso trabalho. Ou trabalhamos com excelência ou trabalhamos em longas jornadas. As duas coisas juntas são humanamente inconcebíveis. Assim, você precisa escolher qual o tipo de profissional que você deseja ser.

Até meus trinta anos, eu optava pela quantidade. Achava que horas e horas dedicadas ao trabalho me faziam um profissional melhor. Na época, não percebia o quão equivocado estava sendo. Quanto mais tempo eu ficava fechado na empresa, menos criativo, menos rápido, menos eficiente e menos preciso eu me tornava em minhas funções diárias. Hoje, entendo que há outra opção completamente distinta. Meu foco profissional está dirigido exclusivamente à excelência (e não mais à quantidade de horas trabalhadas). Busco a qualidade genuína das minhas atividades. Por isso, não abro mão da qualidade de vida e das minhas infinitas atividades pessoais (que de uma forma ou outra ajudam no meu rendimento profissional depois). Garanto que sou agora mais criativo, rápido, eficiente e preciso do que antes.

Por mais lógico que seja esse raciocínio, a maioria dos profissionais parece não querer entendê-lo. Meus amigos e minha família me enxergam muitas vezes como um extraterrestre por causa das várias atividades que tenho fora do âmbito profissional. Ninguém acredita que seja possível hoje em dia alguém ser produtivo e ter uma vida saudável, ativa e interessante fora do ambiente corporativo. Infelizmente, vejo as relações pessoais, as diversões e os momentos de lazer cada vez mais interligados às dinâmicas profissionais. Você só pode sair e se divertir sem culpa se for dentro da empresa ou com os colegas de trabalho. Assim, você está fazendo networking e estreitando vínculos profissionais. Quanta bobagem!

Apesar de me ver nadando contra a corrente, sei que não vou ser um escravo da minha profissão. Trabalho porque gosto e porque tenho coisas grandes para realizar. Porém, isso não me faz abrir mão das infinitas coisas que gosto e tenho para realizar também em minha vida pessoal. Mais importante do que a carreira é a vida do sujeito.

Nesse caso, estar fora de moda me deixa tão orgulhoso! Não trabalhar 24 horas por dia é motivo de felicidade para mim. E por falar nisso, você já viu o último filme do Woody Allen ou o mais recente romance do Mia Couto? E você já foi naquele novo restaurante que abriu ou naquele parque recém-reformado? Não?! Então, você não sabe o que está perdendo.

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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