• Ricardo Bonacorci

Livros: Macunaíma - O moderno herói brasileiro de Mário de Andrade


Nessa semana, reli "Macunaíma - O Herói sem Nenhum Caráter" (Nova Fronteira), um clássico do Modernismo brasileiro escrito por Mário de Andrade. Publicado pela primeira vez em 1928, esse romance foi rapidamente festejado pela crítica por sua inovação estética, narrativa e linguística. Mário de Andrade escreveu "Macunaíma" durante as férias passadas em um sítio na cidade de Araraquara, interior paulista, em dezembro de 1926. Ele gastou menos de uma semana para produzir o romance inteiro. No prefácio da segunda edição, o autor explica este processo criativo: "Este livro de pura brincadeira, escrito na primeira redação em seis dias ininterruptos de rede, cigarros e cigarras, na chácara de Pio Lourenço, perto do ninho da luz que é Araraquara".

Essa é uma narrativa heroico-cômica em que se misturam lendas indígenas, o retrato da vida moderna nos grandes centros urbanos, poesia, história do país, folclore nacional e aspectos da fauna e da flora do Brasil. Todos esses elementos são construídos com total liberdade criativa pelo seu autor, que ainda acrescenta elevadas doses de ironia e deboche. O resultado final é uma contundente sátira do comportamento e da mentalidade típicos do brasileiro.

O enredo de "Macunaíma - O Herói sem Nenhum Caráter" começa com o nascimento de sua personagem principal na floresta Amazônica. Filho de integrantes da tribo Tapanhumas, Macunaíma é um índio que desde a infância é tratado como alguém especial. Sua safadeza é algo evidente desde o nascimento. Ainda pequenininho, ele aprontava todas em sua tribo, se interessando particularmente pelas moças bonitas. Quando adulto, ele se torna Imperador do Mato ao desposar Ci, a Mãe do Mato, que até então era uma mulher imaculada.

Como rei da Natureza, o herói ganha de sua amada um muiraquitã, amuleto de pedra sagrado. Após a morte de Ci, a relíquia é roubada por um fazendeiro peruano. Venceslau Pietro Pietra estava de passagem pela floresta equatorial quando se apoderou da joia indígena, causando desespero em Macunaíma.

O estrangeiro se muda para a cidade de São Paulo, forçando Macunaíma a viajar para a cidade grande. Acompanhado por dois irmãos, Maanape e Jiguê, o protagonista tem o desafio de recuperar seu muiraquitã. Para isso, precisará duelar com Venceslau Pietro Pietra, considerado um gigante cruel comedor de pessoas.

"Macunaíma - O Herói sem Nenhum Caráter" foi inspirado nas epopeias que formaram o caráter dos heróis das nações europeias. Contudo, o protagonista brasileiro é retratado como uma pessoa preguiçosa, pouco confiável, despudorada e brincalhona. O fato de Macunaíma ser descrito como uma pessoa sem caráter tem duas explicações. A primeira é que ele muda de corpo constantemente ao longo da história. Ele nasce índio, mas depois vira um homem branco, loiro e de olhos azuis. Seus dois irmãos são ainda mais diferentes: um é negro e outro é indígena. Assim, não se sabe exatamente qual é a verdadeira raça do protagonista (daí a indeterminação do seu caráter). A outra interpretação é que Macunaíma é um homem sem caráter, pois rouba constantemente as mulheres do irmão (e dos demais homens também), não se importando em viver à custa dos outros e gostando de aprontar com todo mundo. Não é surpresa que ele viva fugindo das confusões que apronta.

Macunaíma é, portanto, um herói ou um anti-herói nacional? Ele é descrito como preguiçoso, egoísta, mentiroso, safado e pouco confiável. Ao mesmo tempo, é muito inteligente, carismático e corajoso. Para completar, é considerado o Imperador da Natureza, exercendo forte influência sobre todos os seres vivos da floresta. Essa contradição é o que transformou Macunaíma em uma das personagens mais interessantes da nossa literatura.

Esse livro de Mário de Andrade também inovou ao utilizar e, principalmente, ao intensificar, como jamais se viu até então, a linguagem oral e popular como base de sua estrutura narrativa. Ao ler "Macunaíma", tem-se a impressão que se está ouvindo o narrador falar. Esse assunto é, inclusive, tema de discussão na própria trama. O protagonista, um indígena, precisa aprender o idioma praticado na cidade de São Paulo. E, curiosamente, são duas as línguas utilizadas pelos habitantes do maior município brasileiro: o português falado e o português escrito.

O escritor paulista também abusa das gírias, tanto no vocabulário indígena quanto nas expressões do dia a dia da cidade grande. Parte da graça e do deboche da história passa pela sua construção textual. A oralidade é tão acentuada que muitas vezes é preciso ler devagar a obra para compreender exatamente a mensagem do seu autor.

Macunaíma é talvez o símbolo principal do brasileiro moderno: Malandro esperto, amoral, pervertido, carismático, persuasivo e obstinado em conseguir o que deseja. Ele também representa um ideal nacional, desprovido de regionalismo e de influências locais. O protagonista desse livro reúne praticamente a essência dos habitantes de todas as regiões do país, possuindo múltiplas identidades. Até hoje, é difícil não vincular Macunaíma ao perfil típico do brasileiro que vemos todos os dias na televisão, no teatro, no cinema, na literatura, nos jornais e, por que não, nas ruas de nossas cidades.

Mário de Andrade foi poeta, contista, romancista, cronista e crítico de arte. Sua estreia na literatura aconteceu, em 1917, com a publicação do livro de poesias "Há uma Gota de Sangue em Cada Poema". "Pauliceia Desvairada", também de poesias, chegaria às livrarias em 1922. Foi nesse ano que o autor participou da simbólica Semana de Arte Moderna de São Paulo, tornando-se, assim, um dos principais artistas modernos do país.

"Macunaíma - O Herói sem Nenhum Caráter", publicado seis anos depois da realização da Semana de Arte Moderna, veio para consolidar o estilo literário de Mário de Andrade e do Modernismo brasileiro. É realmente uma obra imperdível.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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