• Ricardo Bonacorci

Livros: K., Relato de Uma Busca - A estreia de B. Kucinski na ficção


Reli, neste finalzinho de dezembro, o livro "K - Relato de Uma Busca" (Cosac Naify), a premiada obra de estreia de Bernardo Kucinski na ficção. O experiente jornalista, atualmente com 80 anos, utilizou-se de fatos reais, o desaparecimento, na década de 1970, da irmã Ana Rosa Kucinski, uma militante comunista que trabalhava como professora de Química na USP (Universidade de São Paulo), para compor um aterrorizante panorama da Ditadura Militar brasileira durante os Anos de Chumbo. O romance é realmente espetacular. Ele mistura realidade e ficção de maneira impecável. Nesse sentido, sua frase de abertura é memorável: "Caro leitor: Tudo neste livro é invenção, mas quase tudo aconteceu".

Nesta trama, Bernardo Kucinski (que se apresenta na literatura como B. Kucinski) reconstrói a angústia do sumiço de Ana Rosa a partir da visão do pai, Majer Kucinski (que na ficção ganha, ao estilo de Franz Kafka, o nome de senhor K.). K. é um imigrante polonês judeu que se estabeleceu em São Paulo na primeira metade da década de 1940. Ele deixou seu país natal após a ascensão do nazismo na Polônia e a perseguição aos judeus na Europa durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma vez no Brasil, K. achou que as coisas seriam melhores e mais seguras para ele e para sua família. Essa sensação durou algumas décadas, até sua filha caçula, uma jovem de trinta e dois anos, desaparecer em abril de 1974. Nessa época, o país estava sob o regime do AI-5, o Ato Institucional Número 5. Decretado por Costa e Silva em 1969, o AI-5 oficializou a ditadura no Brasil e acelerou o processo de captura e assassinato de opositores pelo governo militar.

As poucas informações que K. possui do sumiço da filha é que Ana Rosa e o marido dela, Wilson Silva, um atuante militante de esquerda, foram presos pelos militares certa tarde. O casal foi levado para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), órgão responsável pelos interrogatórios e pela tortura dos opositores ao regime. Depois disso, não há qualquer dado concreto do paradeiro da dupla. Aí começa o grande drama de K, um homem comum e pacato (ele é comerciante de tecidos e adora literatura iídiche). Assim, o leitor é convidado a embarcar nos horrores de um sistema político opressor e cruel.

"K - Relato de Uma Busca" foi lançado inicialmente pela Expressão Popular, uma pequena editora paulistana, em 2011. Por lá, o livro ganhou duas edições, a segunda já em 2012. Em 2014, o romance foi publicado pela Cosac Naify, então uma das editoras mais conceituadas no país. O novo projeto gráfico conferiu mais charme à obra, valorizando seu design e reforçando a proposta tensa da trama. "K - Relato de Uma Busca" foi finalista dos principais prêmios literários do país: Prêmio São Paulo de Literatura, Prêmio Juca Pato (concedido pela União Brasileira de Escritores) e Prêmio Portugal Telecom, todos de 2012. Considerado um dos melhores romances sobre a Ditadura Militar brasileira, o livro já foi traduzido para vários idiomas, como o inglês, o espanhol, o alemão, o catalão e o hebraico.

Com apenas dois livros ficcionais publicados, - o segundo é a coletânea de contos "Você Ainda Vai Voltar Para Mim" (Cosac Naify), de 2014, obra vencedora do Prêmio Clarice Lispector, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional ao melhor livro de narrativas curtas do ano - B. Kucinski tornou-se rapidamente um dos escritores mais originais da atualidade. Falando sempre dos horrores praticados nos porões da Ditadura brasileira, o paulistano de origem judaica imprime força dramática e um estilo peculiar às suas narrativas.

Bernardo Kucinski, para quem não conhece, trabalhou na redação dos principais veículos de comunicação do país (revista Veja e jornal Gazeta Mercantil, por exemplo) e fundou alguns veículos alternativos com uma proposta mais esquerdista (Amanhã, Opinião, Movimento, Em Tempo e Carta Maior). Além disso, foi correspondente no Brasil de alguns jornais ingleses. Sendo considerado um dos mais brilhantes jornalistas de sua geração, Bernardo Kucinski publicou vários livros sobre sua profissão e sobre o período da Ditadura Militar. Entre 2003 e 2006, também atuou como Assessor Especial da Presidência da República.

O que mais gostei em "K - Relato de Uma Busca" foi a forma criativa de Kucinski construir seu romance. Metade dos capítulos é narrada em primeira pessoa por diferentes personagens. Temos as vozes de muitas pessoas envolvidas direta ou indiretamente na trama da família K: o torturador, a amante do chefe da repressão, o líder de uma célula terrorista, a faxineira da casa onde os presos políticos eram enviados, uma carta da própria Ana Rosa, o sogro da professora de Química da USP, etc. Os relatos desses vários narradores são sempre intercalados por capítulos escritos em terceira pessoa retratando a história pela perspectiva de K. (narrador muito próximo ao protagonista). Assim, tudo converge para o drama do polonês naturalizado brasileiro.

Com esse quadro por vezes fragmentado, o leitor precisa montar as peças soltas do quebra-cabeça. Só assim conseguirá reconstruir o que aconteceu com Ana Rosa e seu marido. O livro exige um leitor ativo e astuto. Nota-se o cuidado e a excelência de B. Kucinski em montar peças narrativas (capítulos) individualmente fortes (confundindo-se, às vezes, com pequenos contos), mas acima de tudo integradas ao enredo maior. Esse é um recurso narrativo original e extremamente difícil de ser feito - produzido aqui com naturalidade e de um jeito magnífico pelo autor.

Você até sabe (ou imagina) o que ocorreu com a filha de K. logo nas primeiras páginas do livro (ela é descrita como uma desaparecida política - portanto, não é complicado entender o que pode ter se passado com ela...). Mesmo assim, a história do romance não perde a graça em nenhum momento. O suspense se mantém forte até o final. Esta obra não é para se descobrir o que aconteceu efetivamente com a jovem professora de Química da USP, mas sim para ver como age seu pai frente à dor do desaparecimento da filha caçula. Nesse sentido, a tensão da trama é alta e linear. Trata-se de algo complicadíssimo de ser conseguido em qualquer thriller.

Repare que o pai só vai conhecer de fato a filha (a trajetória de vida dela, as preferências, as aspirações, os amigos e o marido dela) depois que ela some. A busca por Ana Rosa é um exercício de K. para descobrir quem ela foi de verdade. Enquanto a moça esteve viva, o polonês dava mais atenção à literatura iídiche e aos amigos literatos do que a família. Esse talvez seja o grande arrependimento do protagonista.

Quem tiver conhecimento histórico do período retratado poderá apreciar ainda mais "K - Relato de Uma Busca". Ao longo da narrativa temos citações às várias personalidades reais e a alguns episódios simbólicos da época: o delegado Fleury, chefe do DOPS em São Paulo, o assassinato de Vladimir Herzog, jornalista preso pelos militares, Carlos Marighella, um dos principais líderes da luta armada contra a Ditadura, as ações da Arquidiocese comandada por Paulo Evaristo Arns, crítico do que acontecia nos porões do regime, etc. Ler o livro de B. Kucinski é retornar quatro décadas e vivenciar um dos períodos mais turbulentos e sangrentos da história do Brasil.

Em um momento em que há pessoas em nosso país que desejam a volta dos militares ao poder e exaltam a vida durante a Ditadura Militar, conhecer de perto o que se passava naqueles dias é muito importante. "K - Relato de Uma Busca" é, ao mesmo tempo, um romance espetacular e uma importante lição de história para as novas gerações. Fiquei fã de B. Kucinski e de sua literatura.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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