• Ricardo Bonacorci

Livros: Gentlemen - O romance noir de Klas Östergren


No final do ano passado, deparei-me com uma promoção na livraria Leitura do Shopping Tiete Plaza. Vários bons livros estavam sendo vendidos por apenas R$ 10,00. Foi impossível sair de lá sem algumas sacolas pesadas de compras nas mãos. Na leva de títulos adquiridos estava "Gentlemen" (Record), romance noir de Klas Östergren. Aproveitando a calmaria do comecinho de janeiro, li esta obra e vou comentar minhas impressões aqui no Blog Bonas Histórias.

Admito ter ficado impressionado positivamente com este livro. Em apenas dois dias devorei suas 560 páginas. "Gentlemen" é o romance mais famoso de Klas Östergren, escritor, roteirista e tradutor sueco. O autor é considerado um dos principais de sua geração e ocupa uma cadeira na Academia Sueca, instituição responsável pela escolha anual do vencedor do Nobel de Literatura. Com vários prêmios no cenário europeu, Östergren é um best-seller em seu país.

Apesar de ser uma novidade mais ou menos recente nas livrarias brasileiras, "Gentlemen" é um livro antigo. Ele foi lançado na Suécia, onde se tornou de imediato um campeão de vendas, há quase quarenta anos. Sua primeira publicação é de 1980. Somente nesta década o romance foi traduzido para o português e foi editado aqui no Brasil. São, portanto, três décadas de espera. Essa demora só não foi maior do que aquela que os fãs da obra tiveram que aguardar pelo lançamento da continuação da trama. "Gangsters" (Record), o segundo livro da série, só chegou às livrarias suecas em 2005. Foi uma eternidade para quem ansiava saber os segredos dos irmãos Morgan. No Brasil, "Gangsters" foi publicado em 2011.

"Gentlemen" é uma paródia contemporânea de "Salão Vermelho", romance do século XIX do sueco August Strindberg. A obra realista de Strindberg é inclusive mencionada no enredo do livro de Klas Östergren. O narrador, um jovem escritor que também se chama Klas Östergren (em uma clara referência ao próprio autor que empresta, além do seu nome, algumas passagens de sua biografia), se propõe a escrever a versão moderna de "Salão Vermelho". Assim, ele relata as aventuras banais de Henry e Leo Morgan, dois anti-heróis que vivem desiludidos na Estocolmo do final dos anos de 1970. Nesse sentido, os irmãos Morgan são parecidos a Arvid Falck, protagonista do clássico livro de Strindberg.

O que chama mais a atenção do leitor em "Gentlemen" é a crítica contundente à juventude da metade do século XX. Em uma Europa ainda abalada pelas consequências da Segunda Guerra Mundial e sofrendo com os efeitos da Guerra Fria, os jovens parecem perdidos e um tanto alienados. As bebidas, as drogas e o sexo descompromissado parecem ser a escapatória ideal para uma geração desiludida com a carreira, com a economia e com a geopolítica internacional. Não é à toa que os protagonistas do romance de Östergren sejam rapazes mentirosos, trambiqueiros, sem propósitos claros de vida, desmotivados e profundamente deprimidos.

Outro elemento interessantíssimo da narrativa é o apanhado histórico e cultural feito pelo autor. A trama ficcional possui uma intrínseca relação com os acontecimentos reais da política e do universo artístico das décadas de 1960 e 1970. Fatos marcantes passados no mundo e na Suécia nesse período são retratados em detalhes, o que confere um colorido especial ao romance. Por isso, temos dezenas de referência à música, ao cinema, à literatura e aos conflitos ideológicos que chacoalharam o planeta inteiro naqueles anos. É uma delícia ver nas páginas do livro uma crônica fiel desses turbulentos momentos da nossa história.

De maneira geral, "Gentlemen" narra a vida dos irmãos Morgan a partir do ponto de vista de Klas Östergren, o narrador-testemunha da trama. Em setembro de 1978, outono no hemisfério norte, Klas acabou de assinar um contrato para escrever um novo livro. A proposta feita pelo editor é que ele produza uma versão moderna do romance "Salão Vermelho", clássico da literatura sueca que completará no ano seguinte um século de existência. Trata-se de uma grande oportunidade para o jovem escritor de apenas 24 anos. Com esse ambicioso romance, Klas sonha em se tornar um autor conhecido em seu país e um best-seller nas livrarias nacionais.

O problema do narrador é que ele teve seu apartamento em Estocolmo assaltado. Os ladrões levaram quase todos os seus pertences, deixando apenas a máquina de escrever e alguns objetos de pouco valor monetário. Enquanto a polícia investiga o incidente, Klas conhece por acaso, em uma academia de boxe da cidade, uma figura excêntrica: Henry Morgan. Henry é um pugilista amador, um ator semiprofissional e um pianista de potencial. Bon vivant e recebendo mensalmente uma pensão deixada pelos avós, o rapaz de 34 anos de idade é filho do "Barão do Jazz", um dos músicos mais famosos da Suécia.

Rapidamente, Klas e Henry tornam-se grandes amigos. Ao saber da fatalidade ocorrida na casa do escritor, Henry convida Klas para ir morar em seu gigantesco apartamento no centro de Estocolmo. O imóvel foi recebido pelo pugilista-ator-pianista de herança familiar. Sem ter para onde ir e não tendo um local tranquilo para escrever seu novo livro, o narrador aceita prontamente a oferta do amigo. Assim, Klas passa a morar em dois quartos na residência de Henry.

O convívio diário aumenta ainda mais a amizade dos rapazes. A dupla se torna inseparável. Na nova casa, Klas conhece Leo, o irmão caçula de Henry que também mora no apartamento. Leo Morgan é um poeta de aproximadamente 30 anos. Depois de um início promissor na literatura quando era adolescente, ele vive agora uma fase melancólica. Cultivando um estilo de vida rebelde e possuindo um comportamento esquizofrênico, Leo está em constante crise emocional. Seu jeito inconsequente e suas atitudes intempestivas geram sempre muitos problemas para quem está a sua volta. Henry e Klas precisam cuidar do poeta como se ele fosse uma criança indefesa.

Klas vive com os irmãos Morgan por quase um ano. Em julho de 1979, verão no hemisfério norte, Henry e Leo desaparecem misteriosamente do apartamento. A dupla some sem dar nenhuma explicação prévia ao colega de casa. Sem entender nada o que aconteceu com os amigos e ainda vivendo no apê dos Morgan (agora sozinho), Klas resolve escrever a biografia da dupla. Assim, ele narra tudo o que sabe sobre os amigos do nascimento deles até os tempos presentes.

"Gentlemen" é um livro cativante. Recheado de anti-heróis, o romance encanta o leitor com o relato colorido das banalidades do dia a dia das suas personagens. Em primeiro plano temos o cotidiano aparentemente insosso de rapazes sem um emprego fixo e com relacionamentos amorosos caóticos. Eles almejam mergulhar em carreiras artísticas de sucesso e não ligam de passar por perrengues financeiros constantemente. A escrita de Klas Östergren (neste caso o autor, não o narrador-personagem) é incrível. Ele narra com calma e com riqueza de detalhes as cenas corriqueiras de Klas (agora sim o personagem), de Henry e Leo, transformando-as em acontecimentos significativos e grandiosos. Algo que tem tudo a ver com a personalidade dessas figuras excêntricas.

Quem gosta de música, cinema, literatura, história e política irá adorar as descrições de época feitas pelo livro. Os leitores na faixa entre 40 e 60 anos podem reviver lembranças importantes de sua juventude como se elas estivessem acontecendo novamente. As páginas de "Gentlemen", por exemplo, fazem menção direta ao movimento da contracultura, ao festival de Woodstock, ao surgimento dos Beatles, à Guerra Fria, ao assassinato de John Kennedy e à chegada do homem à Lua. São incontáveis os momentos das décadas de 1950, 1960 e 1970 comentados pelo narrador. Assim, ao mesmo tempo em que acompanhamos a aventuras e desventuras das personagens do romance, podemos saber o que está acontecendo na Suécia, na Europa e no Mundo.

Apreciei também o fato da trama ser narrada sem uma continuidade temporal (linearidade). Parte do mistério da história está na apresentação caótica e desordenada dos acontecimentos. Por falar em mistério, o livro termina sem explicar grande parte das questões levantas pelo narrador. Por isso, a leitura de "Gangsters", a continuação de "Gentlemen", é obrigatória para quem deseja saber o desfecho dessa história. Minha impressão é que "Gangsters" deve ser um livro até mesmo mais interessante do que "Gentlemen". A trama dos irmãos Morgan parece adquirir, penso eu, um tom de aventura político-policial na próxima parte da saga. Estou extremamente curioso para ler as próximas páginas desta série.

Se já estou padecendo dos efeitos da abstinência de leitura (infelizmente, não tenho "Gangsters" em mão - a promoção do final do ano passo na livraria não incluía o segundo livro), fico imaginando o sofrimento dos leitores suecos que precisaram esperar 25 anos pela continuação da obra. Klas Östergren (autor ou narrador, tanto faz) isso não se faz com os fãs, fique sabendo!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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